ERA ESTRANGEIRO...

Segunda, 24 Setembro 2018 15:30 Internacional - Conselho Pontifício Justiça e Paz
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ERA ESTRANGEIRO…

Uma conferência em Roma reuniu cristãos de várias denominações em torno das questões do racismo, xenofobia e nacionalismo populista no contexto das migrações globais

De 18 a 20 de Setembro, numa iniciativa conjunta do Dicastério do Vaticano para o Desenvolvimento Humano Integral e do Conselho Mundial das Igrejas, em colaboração com o Conselho Pontifício para a Unidade dos Cristãos, realizou-se em Roma uma conferência sobre “racismo. xenofobia e  nacionalismo populista no contexto das migrações globais”. Estive presente como presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz.

Merece destaque a participação de pessoas provenientes de todos os continentes. E, sobretudo, a participação de cristãos de várias denominações de modo paritário (quer entre os oradores, quer entre a audiência) e com uma notável consonância de pontos de vista (dificilmente se identificaria a pertença de cada um a alguma dessas denominações).

E é de destacar a atualidade do tema, que em muitos países (em que o populismo nacionalista hostil em relação a migrantes e refugiados vai ganhando maior expressão) dá origem a acesas controvérsias. Da parte dos organizadores, não houve qualquer receio de enfrentar essas controvérsias.

Na sessão de abertura, o cardeal Turkson, prefeito do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, relembrou, a propósito da temática da conferência, as palavras do Papa emérito, Bento XVI, na encíclica Caritas in veritate: a globalização aproxima-nos fisicamente, mas não nos torna irmãos. O secretário-geral do Conselho Mundial das Igrejas, Olav Tveit, depois de caracterizar a estratégia do nacionalismo populista como instrumentalização abusiva do medo sentido por muitos cidadãos, evocou as palavras da 1ª carta de São João (4.18): «o perfeito amor afasta o temor».

No discurso de abertura, Felipe Camargo, representante do Alto Comissário da O.N.U. para os refugiados na Europa do Sul, com uma vasta experiência nos mais variados cenários, realçou a importância da educação, evocando a ideia de Nelson Mandela: ninguém nasce com ódio racial, é a educação que o pode gerar, tal como pode gerar o seu contrário. E afirmou que por onde tem passado quase sempre encontra em organizações movidas por alguma fé religiosa os mais importantes atores da sociedade civil neste campo.

Do programa constava a análise do racismo e xenofobia hoje, nas perspetivas política, socio-cultural e bíblico-teológica. Nesta última perspetiva, foi sublinhado o dever de acolhimento e hospitalidade para com o estrangeiro que radica no Antigo Testamento («amareis o estrangeiro como a vós mesmos, pois vós fostes estrangeiros na terra do Egito» - Lev. 19, 34) e no Novo, onde Jesus afirma que a salvação e o juízo final dependem do modo como ele foi acolhido («Era estrangeiro e acolheste-Me» - Mt 25, 34).

A perspetiva de outras religiões não foi esquecida. Um representante do movimento budista Rissho Kosei-Kai associou a virtude budista da compaixão ao acolhimento do estrangeiro. Um professor hindu afirmou que para o hinduísmo o divino, que é fundamento de toda a existência e de toda a vida, não está limitado por fronteiras nacionais. E um professor muçulmano afirmou que o Corão também considera o acolhimento do estrangeiro como fator a ter em conta no juízo final.

De um painel relativo ao papel dos meios de comunicação social, veio em evidência a importância de contrapor a uma narrativa do medo (a exploração dos medos relativos à perda de segurança física, do bem-estar material e da identidade cultural) uma narrativa de esperança (que para os cristãos decorre da fé na Ressurreição).

Foram abordados noutros painéis as temáticas da integração dos imigrantes em sociedades justas e das experiências de acolhimento (como “boas práticas”) em vários países do mundo. De entre essas “boas práticas”, há que destacar a iniciativa dos “corredores humanitários”, que em Itália surgiu da iniciativa conjunta da federação de Igrejas evangélicas e da comunidade de Santo Egídio (e que vem sendo replicada noutros países). Uma iniciativa (ecuménica) que permite o acolhimento de refugiados de forma legal e segura (sem a travessia do Mediterrâneo com sujeição às redes de tráfico) e que garante desde o início as condições para a sua integração na sociedade de acolhimento.

Das várias comunicações e dos trabalhos dos grupos regionais, emergiram algumas ideias particularmente relevantes:

Os refugiados, as migrações e a xenofobia estão longe de ser um fenómeno exclusivo do continente europeu. Somente trinta por cento dos africanos que deixam o seu país chega à Europa. A grande maioria dos refugiados sírios permanece no Líbano e na Jordânia. O maior fluxo de refugiados do mundo é relativo aos rohingya, de Myanmar. Na Índia e na China, há migrações internas de grande dimensão, que suscitam os mesmos problemas das migrações internacionais. Os africanos de países limítrofes da África do Sul (o país que aboliu o apartheid) são aí vítimas de xenofobia. Tal como os refugiados venezuelanos na Colômbia.

As comunidades religiosas devem proceder a uma humilde auto-crítica, por terem muitas vezes permitido a instrumentalização da religião como simples fator de identidade nacional ou cultural que conduz à hostilidade para com os estrangeiros. Disseram-no os cristãos, mas também crentes de outras religiões, como o hinduísmo. Para os cristãos, é contraditório, e representa um verdadeiro contra-testemunho, invocar a identidade cristã para justificar a exclusão de outros.

Na relação com quem professa ideias racistas ou xenófobas, há que ser firme e claro na afirmação dos princípios, sem desistir de dialogar, para compreender os medos que podem conduzir à adesão a tais ideias.

A mensagem final da conferência resultou do contributo de todos os participantes (que rondavam as duas centenas), com um inusual esforço de recolha do maior número desses contributos.

Parte tal mensagem de uma profissão de fé em Deus criador e Pai de uma única família humana, em que todos são iguais em dignidade. Dessa profissão de fé resulta a incompatibilidade do cristianismo com o racismo e a xenofobia, incompatibilidade que deve ser tida em conta nas escolhas eleitorais. Na conclusão, faz-se apelo a que as narrativas de medo e ódio sejam substituídas, segundo o exemplo de Jesus Cristo, por narrativas de esperança e de amor.

A conferência terminou com uma audiência com o Papa Francisco. Em vez de ler o discurso preparado, o Papa preferiu saudar pessoalmente cada um dos participantes. O acolhimento do outro passa mais pelos gestos do que pelas palavras- foi assim que muitos interpretaram esta opção. Mas o discurso (acessível em www.vatica.va), em plena sintonia com os trabalhos da conferência, merece uma leitura atenta.

Nele se afirma: «A dignidade de todos os homens, a unidade fundamental do género humano e o chamamento a viver como irmãos, encontram confirmação e reforçam-se ulteriormente na medida em que á acolhida a Boa Nova de que todos são igualmente salvos e reunidos em Cristo, a tal ponto que – como diz São Paulo - “não há judeu nem grego; escravo ou homem livre, não há homem nem mulher, porque todos [..somos] um em Jesus Cristo” (Gal 3,28).

«Nesta perspetiva, o outro não é apenas um ser a respeitar em virtude da sua dignidade intrínseca, mas sobretudo um irmão ou uma irmã a amar. Em Cristo, a tolerância transforma-se em amor fraterno, em ternura e solidariedade operativa. Isto vale sobretudo em relação aos mais pequenos dos nossos irmãos, entre os quais podemos reconhecer o forasteiro, o estrangeiro, com o qual o próprio Jesus se identificou. No dia do juízo universal, o Senhor há de recordar-nos: “era estrangeiro e não Me acolhestes” (Mt 25, 43). Mas já hoje nos interpela: “sou estrangeiro, não me reconheceis?».

                                                                                                                                                                                                                                                                                            Pedro Vaz Patto