A insustentável leveza do gás

Educar… Hoje Não sei com que periodicidade, na minha adolescência, ajudei a levar uma botija de gás do rés-do-chão para o segundo andar, num prédio sem elevador, subindo 45 degraus. Apesar do mau jeito, um estratagema paterno equilibrava o peso na subida. Quando apareceram as rodinhas para as botijas de gás, a aquisição minorou o esforço nuns escassos seis metros. Recentemente, o gás canalizado veio facilitar-nos a vida.

Confesso que nunca mais tinha pensado no esforço que fazia para ter água quente no banho – que era interrompido abruptamente por uma chuveirada fria, reveladora da falta de gás e da nossa imprevidência! Há cerca de um mês, essas recordações de esforço e trabalho, aprendido na adolescência, não só pelo carregamento de botijas escadas acima, mas também por causa dele, vieram ao de cima. Foi uma publicidade a garrafas de gás, cujo peso não é superior ao de uma pluma, que me trouxe à memória os factos já apresentados. E tive de me render à evidência que uma pluma é bem mais leve que os 13 kg líquidos da garrafa de gás da minha adolescência; que nunca me passou pela cabeça a profissão de “menina do gás” (mais uma para acrescentar às idealizadas por crianças e adolescentes: polícia, bombeiro, actor, astronauta, menina do gás). Outra evidência: quando eu ajudava a transportar a garrafa de gás, não era tão alta como a “menina do gás”, nem me vestia tão bem como ela! Por tudo isso, a profissão não me assentaria!

Discuti esta opção profissional com alguns amigos, alegando que o facto de terem escolhido uma rapariga tão bonita, numa indumentária tão reduzida, reduzia, enfim, os sonhos de tantas meninas que gostariam de seguir aquelas passadas, abraçando tal profissão. Foi-me respondido que estava a ver mal, que o anúncio era realmente bonito e não tinha nada que se lhe apontasse de negativo. Aliás, recentemente, ganhou um Prémio de melhor anúncio publicitário. Quando argumentei que a publicidade era machista, porque promovia o voyeurisme e a exploração gratuita do corpo feminino, a contra-argumentação não se fez esperar. Afinal, não seria eu capaz de me abstrair daquele grupo de homens a comentar e a apreciar a menina que passa, formosa e segura (ao contrário da Leonor de Camões que vai à fonte “fermosa e não segura”), numa farda reduzida, mas não indecorosa, porque na praia os biquinis são mais decotados? Também não consegui convencer os meus amigos, quando lhes pedi que ouvissem o anúncio radiofónico. Ouve-se qualquer coisa como: um grupo de homens reúne-se na casa de um deles, minutos antes de chegar a “menina do gás”. Há um que diz ter inventado uma reunião à última da hora, para poder ir ali, pois convém que a mulher não saiba desta “escapadinha” (que não é infidelidade). Rematou-se a discussão: estes anúncios “pluma” são obras de arte, que não pretendem transmitir qualquer ideia sexista. Só mais uma informação: os meus amigos, que participaram da discussão, são homens e mulheres.

A minha opinião: não posso deixar de reagir, pois, mesmo concordando que o filme, em termos estéticos, está bem feito, esta publicidade perpetua uma atitude social do comportamento masculino face à presença feminina. Há anúncios que apresentam a situação inversa, o que é de igual modo reprovável.

Sugestão: faça o mesmo exercício de discussão com os seus amigos a propósito de outro anúncio. Não se lembra de nenhum? E aquele “Explica-me como se eu fosse muito burra.”?