Bento XVI: “O que é importante é que a fé se mantenha atual”

BENTO XVI. CONVERSAS FINAIS
Peter Seewald
D. Quixote
288 páginas
18,90 euros

 

Com a invasão de livros sobre Fátima e o Papa Francisco, é natural que passe despercebido este “Bento XVI. Conversas finais”, livro-entrevista do Papa Bento com o jornalista Peter Seewald que saiu em Portugal um pouco antes de o Papa emérito completar 90 anos de idade (nasceu a 16 de abril de 1927) e 12 de eleição (19 de abril de 2005), quatro anos após a renúncia (28 de fevereiro de 2013). O livro pode passar despercebido, mas é pena. Os motivos de interesse são muitos. Aponto alguns.
Dias tranquilos na atualidade. Ficamos a saber como o Bento XVI, totalmente cego de um olho, passa os seus dias tranquilos no mosteiro Matter Ecclesia, escrevendo as homilias, nem que seja para duas ou três pessoas, porque a Palavra de Deus não merece improvisações. Ficamos a saber que Bento XVI não foi pressionado por nenhum motivo exterior na sua renúncia (“uma decisão bastante pensada e conversada com o Senhor”) e que seguiu a eleição do seu sucessor pela televisão. Quando Francisco, após a eleição, ainda antes de saudar a multidão, telefonou a Bento, este não ouviu o som do telefone. Estava concentrado na televisão a ver quem seria o eleito.

 

Festa dos 90 anos do Papa Bento XVI, no dia de Páscoa

A Igreja no século XX. Uma boa parte do livro (pág. 65-207) aborda o percurso de Joseph Ratzinger, do nascimento à eleição para sucessor de Pedro. Aqui, entre os muitos pontos de interesse, destacam-se três: a oposição do pai e da família Ratzinger ao nazismo; a colaboração de Ratzinger para o II Concílio do Vaticano (segundo este livro, ficamos a pensar que foi bastante maior do que tem sido afirmado – o que poderá gerar outras discussões); o trabalho na Congregação para a Doutrina da Fé. Este último ponto, na minha opinião, merecia mais desenvolvimento. Talvez Bento XVI não quisesse falar de certos assuntos, mas um dia terão de ser abordados. Refiro-me ao silenciamento de uma série de teólogos entre 1982 e 2005, período em que o cardeal Ratzinger foi “o mais alto guardião da fé”. Se algumas das suas decisões não se discutem no resultado, são muito questionáveis nos processos, porque alguns dos visados não se puderam defender ou, quando foram a Roma, deram com factos consumados.
O Pontificado. Ratzinger sonhou “poder escrever livros em sossego”, mas foi eleito Papa em 2005. Mesmo assim, publicou três livros sobre Jesus. Sendo o Papa teólogo, não deixou de ser o Papa pastor, tendo pedido, por exemplo, a “desmundanização da Igreja”, assunto que, como comenta o entrevistador, “agora é muito bem compreendido no Papa Francisco”. Tendo sido eleito aos 78 anos, diz Bento XVI que não podia ambicionar “grandes reformas na Igreja”, mas o jornalista elenca uma série de decisões inovadoras. Só à distância se pode avaliar um pontificado. Mas há que concordar com Bento XVI: “O que é importante é que a fé se mantenha atual. Esta é para mim a missão central. Tudo o resto são questões administrativas que não tinham necessariamente, de ser resolvidas no meu tempo” (p. 252).
J.P.F.