Pobre para os pobres.
A missão da Igreja
Gerhard Müller
Paulus
184 páginas
12,90 euros
O Papa Francisco escreveu o Prefácio desta obra. Afirma que há muitas formas de pobreza – física, económica, espiritual, social, moral – e que o mundo ocidental valoriza quase somente a ausência de poder económico. Esta pobreza “é a que é vista com maior horror”. O Papa não discorda. Afirma é que o modo de a combater deve ser outro. A solidariedade. “O homem sabe que o que nega aos outros e guarda para si, mais cedo ou mais tarde, volta-se contra si próprio. (…) Pelo contrário, quando os bens de que dispomos não são só utilizados para as nossas necessidades, ao difundir-se eles multiplicam-se e originam com frequência um fruto inesperado”.
Porém, não há só pobrezas ligadas à economia. Há uma outra pobreza ligada à própria condição humana. “Quando nascemos, para viver precisamos do cuidado dos nossos pais, e assim também em cada uma das épocas e etapas da vida nunca nenhum de nós se conseguirá libertar totalmente da necessidade e da ajuda dos outros, nunca será capaz de erradicar de si próprio o limite da impotência perante alguém ou alguma coisa” (pág. 7). Esta pobreza criatural é, defende Francisco, uma riqueza. “Quando o homem se concebe assim e é educado para viver assim, a originária pobreza de ser criatura já não se sente como uma deficiência, mas como um recurso, no qual o que enriquece cada um, e é livremente dado, é um bem e um dom que depois de torna vantagem para todos” (pág. 8).
É nesta perspetiva que se deve ler “Pobre com os pobres”. Humano com os humanos.
O livro do prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé pretende ajudar a Igreja e os cristãos a olharem para quem está ao lado, o qual, visto pelo homem ou mulher que olha para Deus e se deixa olhar por Ele, “passa de estranho a próximo”. É isto teologia da libertação.
Gerhard Müller faz um balanço desta corrente da teologia que nasceu na América Latina e se propagou pelo mundo. Nota que ela “não é uma construção teórica que nasceu à mesa” (pág. 37), mas resulta do desenvolvimento da teologia católica dos séculos XX e XXI e reconhece as suas potencialidades para a Igreja que quer evangelizadora
Não deixa de irónico que o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé se torne um divulgador da teologia da libertação. Joseph Ratzinger, quando ocupava o mesmo cargo, assinou a instrução “Libertatis conscientia”, que contribuiu para reprimir esta corrente de teologia. O principal entrave estava na tendência para “politizar a teologia e reduzir a Igreja a uma série de atividades intramundanas”. Entretanto, o Muro de Berlim caiu e as ideologias marxistas entraram em crise nos anos 1990, o que contribuiu para libertar a teologia da libertação. Hoje, a libertação prossegue numa linha ratzingeriana. Consiste em desfazer a ideia de que a verdade e a intolerância estão fundidas – pretensão tão presente no relativismo e tão combatida por Bento XVI (pág. 107).
Por outro lado, o Papa que veio do fim do mundo, tendo sido um crítico de certa teologia da libertação quando estava na Argentina, relança a pobreza como desafio da fé, como nota Josef Sayer nas últimas páginas deste livro. O antigo diretor da Misereor (a organização dos bispos católicos alemães para o desenvolvimento e cooperação; ver www.misereor.org) escreve também sobre a relação de amizade entre o cardeal Gerhard Müller e o padre Gustavo Gutiérrez, o teólogo peruano que é considerado o fundador da teologia da libertação, e como este levou o então padre Müller aos camponeses de Choquencancha e a outras regiões remotas dos Andes ou aos bairros pobres de Lima, La Paz e São Paulo.
O volume contém ainda dois textos de Gustavo Gutiérrez, um sobre a opção preferencial pelos pobres no documento de Aparecida (de que Jorge Mario Bergolgio / Papa Francisco foi um dos principais redatores) e outro sobre a espiritualidade do Vaticano II. Muitos pontos de interesse num livro em que, por isso mesmo, se desculpa alguma falta de harmonia no desenvolvimento dos temas.
J.P.F.
O autor
Gerhard Ludwig Müller, autor principal de “Pobre para os Pobres”, é o atual prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, nomeado por Bento XVI e reconduzido por Francisco. Foi ordenado padre na diocese Mainz (onde trabalha o P.e Rui Barnabé, da Diocese de Aveiro, junto da comunidade portuguesa), em 1978, e nomeado bispo de Regensburg, em 2002. Bento XVI chamou-o para o Vaticano em 2012 e deu-lhe ainda a função de coordenar a publicação das suas obras completas.


