P.e João Gonçalves, “o padre das prisões”

P.e João Gonçalves é coordenador da Pastoral Penitenciária a nível nacional

P.e João Gonçalves é coordenador da Pastoral Penitenciária a nível nacional

Documentário sobre o trabalho do P.e João Gonçalves nas prisões será exibido no sábado, 21, na antiga Capitania, em Aveiro, às 16h.

 

“Padre das prisões” é o documentário das irmãs Inês e Daniela Leitão que mostra a vida e o trabalho do P.e João Gonçalves na pastoral penitenciária. O documentário vai ser apresentado no dia 20 de fevereiro, Dia Internacional da Justiça Social, e estará disponível nas redes sociais durante esse dia. No dia seguinte, sábado, pelas 16h, será exibido na antiga Capitania (Assembleia Municipal de Aveiro).
O documentário foi filmado principalmente em Aveiro, seguindo os passos do P.e João Gonçalves, mas conta também com as participações especiais de Francisco Moita Flores, escritor, investigador e antigo inspetor da Polícia Judiciária, e o juiz e político Álvaro Laborinho Lúcio.
P.e João Gonçalves contou ao Correio do Vouga que o contacto com Inês Leitão (argumentista) e Daniela Leitão (realizadora) partiu dele próprio, depois de ouvir na TSF uma entrevista sobre o documentário “O meu bairro”, feito pelas irmãs sobre o trabalho dos missionários da Consolata no bairro do Zambujal, nos arredores de Lisboa. “Quero falar-lhes sobre as prisões”, telefonou-lhes P.e João Gonçalves. “As irmãs, Daniela e Inês, nunca tinham ouvido falar das prisões. Entusiasmaram-se, vieram Aveiro e perceberam que era tema que valia a pena trabalhar”, relata, realçando que a intenção era dar visibilidade à questão dos presos e das prisões e não a ele próprio.
“Uma coisa deste género dá muita visibilidade à minha pessoa, mas não é isso que interessa. Aceitei, depois de uma série de conversas e uma ida a Lisboa, sabendo que isso pode dar-me alguma visibilidade, mas é a possibilidade de se poder trazer para a ribalta um tema que é muito importante: as prisões e os presos; aproximar as prisões da sociedade e a sociedade das prisões. Este é um trabalho que está a ser com feito com a boa colaboração e abertura do próprio sistema, é verdade, mas há muito mais a fazer. A sociedade tem de se envolver e ter consciência disto. A sociedade só dá conta das cadeias quando tem lá o pai, a mãe ou o filho. Espero que toda a gente possa sentir que a prisão tem a ver com todos, tal como a escola ou hospital”, afirma.

 

Filmagens em Aveiro
As filmagens do documentário decorreram principalmente em Aveiro, durante três dias, depois de uma semana inteira de entrevistas com uma jornalista. Passadas duas semanas, mais três dias de filmagens. “Foi uma experiência interessante, em que a gente mede um bocado o que diz, mas a certa altura já não pode medir. São tantas as filmagens, são tantas vezes que repetimos as coisas, que a certa altura tudo acontece com mais naturalidade”, explica P.e João Gonçalves, que é visitador das prisões há mais de 40 anos e coordenador nacional da Pastoral Penitenciária. As filmagens incidiram no Estabelecimento Prisional de Aveiro, mostrando o P.e João em diálogo com reclusos e na celebração da Palavra que acontece todas as segundas-feiras. Mas incluem imagens dos arredores e inclusive da casa familiar do P.e João, na Gafanha do Carmo, segundo nos contou, numa altura em que ainda não tinha visto o documentário.
As autoras do filme já referiram à Agência Ecclesia que o tema era novo para elas e descobriram pessoas com “muito boas intenções” a tentar fazer um “trabalho maravilhoso” que se revela “insuficiente”, porque os presos “não” são tratados com a “dignidade que merecem” e há “sobrelotação” no sistema prisional português. Para Inês Leitão, autora do argumento, o momento mais marcante e que lhe deu o “discernimento” que o documentário tinha de ser apresentado foi um recluso com cerca de 70 anos, quase analfabeto, que “juntava as sílabas com muita dificuldade” para ler a Palavra de Deus.
Inês e Daniela lançam o documentário simbolicamente no Dia Internacional da Justiça Social porque consideram que é necessário “pensar nas prisões com justiça e igualdade”, algo que na sua opinião “não existe”. O P.e João concorda. “Não se falava das prisões. Ou fala-se pouco. Foi nesse sentido que aceitei entrar, enfim, nesta penitência. Só não fiz o pino porque não foi preciso, mas faria tudo para que este tema viesse ao de cima”, afirma. “Sentiu-se ator?”, perguntamos-lhe. “Sim, algumas vezes. Mas fiz tudo com bonomia. As irmãs são simpáticas, o cameraman era simpático. Eu repetia as vezes que fossem necessárias. Tinha tirado tempo para aquilo. Às vezes, para conseguir um minuto de imagem e som, é preciso filmar horas e horas. É um trabalhão para eles, e também para mim foi. Mas fi-lo como um serviço. Se era um serviço, fazia o que era preciso”, realça.
J.P.F.

 

 

 

Inês Leitão (argumentista), Ricardo Vieira (cameraman), P.e João e Daniela Leitão (realizadora)

Inês Leitão (argumentista), Ricardo Vieira (cameraman), P.e João e Daniela Leitão (realizadora)

Documentários para o Papa

 

Inês e Daniela Leitão entregaram o documentário “O meu bairro” ao Papa Francisco há precisamente um ano (19 de fevereiro de 2014). Em “O Meu Bairro”, “uma história de exceção que merecia ser contada”, as irmãs mostram um exemplo de como a Igreja está no terreno, neste caso, no bairro do Zambujal, às portas de Lisboa. “Para nós faz muito sentido mostrar a Igreja que trabalha e está perto dos mais pobres e dos excluídos”, afirmou na ocasião a argumentista Inês Leitão.
As irmãs já manifestaram a intenção de também enviar o documentário “Padre das Prisões” ao Papa Francisco.