Papa Francisco aponta 15 “doenças” na Igreja

Papa Francisco com o bispo da Cúria no dia 22 de dezembro

Papa Francisco com o bispo da Cúria no dia 22 de dezembro

Francisco falou, por exemplo, de “alzheimer espiritual” e de “esquizofrenia existencial” ao apresentar os votos natalícios. Doenças e tentações que “são perigo para todos os cristãos”.

 

O Papa Francisco afirmou que a Cúria Romana é como um “pequeno modelo de Igreja” que tem de se alimentar e curar para não ser “formalista”, apresentando um “catálogo” de 15 possíveis doenças que a podem afetar.
“Sentir-se imortal”, “martismo”, “petrificação mental e espiritual”, “excessiva planificação”, “má coordenação”, “alzheimer espiritual”, “rivalidade”, “esquizofrenia existencial”, má língua e cara de funeral são algumas das “doenças” que, para o Papa, podem afetar na Cúria Romana.
“Uma Cúria que não se autocritica, que não se atualiza, que não procura melhorar está num corpo doente”, disse o Papa aos cardeais e superiores da Cúria Romana na audiência de apresentação de cumprimentos natalícios, recordando que ninguém é “imune” ou “indispensável”.
Na apresentação do “catálogo” das doenças ou tentações, Francisco referiu que a figura bíblica de Marta (Lc 10,38-42) inspira o mal da “ocupação excessiva”, o “martismo”, que afeta os que estão “imersos no trabalho”, esquecendo que “descuidar o necessário repouso leva ao stresse à agitação”.
Francisco referiu-se também o perigo do “Alzheimer espiritual”, que conduz a “uma diminuição progressiva das faculdades espirituais que, num largo ou curto espaço de tempo, provoca muitas desvantagens à pessoa tornando-a incapaz de desenvolver uma atividade autonomamente, vivendo num estado de absoluta dependência dos seus pontos de vista, muitas vezes imaginários”.
Ao enumerar 15 enfermidades que afetam a Cúria Romana, o Papa referiu alertou que outros setores da Igreja podem ter as mesmas doenças. “Irmãos, estas doenças e tentações são naturalmente um perigo para todos os cristãos e para toda a Cúria, comunidade, congregação, paróquia, movimento eclesial, etc. e podem desenvolver-se tanto a nível individual como comunitário”, esclareceu o Papa. “São doenças e tentações que enfraquecem o nosso serviço ao Senhor”, assegurou Francisco apresentando o “catálogo”, no dia 22 de dezembro, como ajuda à preparação do Natal dos dias seguintes.
O discurso terminou com a habitual saudação aos presentes, um por um, desejando-lhes Feliz Natal.
Ecclesia / CV

 

As 15 doenças no âmago do Vaticano… e provavelmente em muitos outros espaços da Igreja

 

1. Sentir-se imortal no seu cargo. Cúria que não se autocritica. Deriva da patologia do poder, do “complexo dos eleitos”.
2. “Martismo”. Afundar-se no trabalho em vez de se sentar aos pés de Cristo. Cura-se com tempo de repouso.
3. Petrificação mental e espiritual. Coração de pedra, pescoço duro. Pessoas que são “máquinas de documentos” e não “homens de Deus”. Resulta de perder os sentimentos de Jesus.
4. Funcionalismo e planeamento excessivo. Espírito de “contabilista”. Resulta da comodidade do apoio nas “posições próprias estáticas e imutáveis”.
5. Má coordenação. Orquestra que desafina. Resulta a perda de comunhão, do “não preciso de ti”.
6. “Alzheimer espiritual”. É esquecer-se da história da Salvação, do “primeiro amor”, que é o Senhor, e depender de horizontes frequentemente imaginários.
7. Rivalidade e vanglória. A aparência, as cores das vestes, as insígnias tornam-se o principal objetivo de vida. Leva a um “falso misticismo”.
8. Esquizofrenia existencial. Vida dupla, hipocrisia típica do medíocre. Atinge com frequência quem abandona o serviço pastoral e se dedica aos afazeres burocráticos.
9. Má-língua. Conversa fiada. Mexericos. As pessoas tornam-se semeadoras da discórdia e mesmo “assassinos a sangue frio” da fama dos colegas e irmãos. Doença de cobardes.
10. Divinizar os chefes. Cortejam-se os superiores na esperança de favores. Carreirismo e oportunismo. Pessoas mesquinhas, inspiradas somente no fatal egoísmo. Também afeta os superiores que tentam obter a submissão dos funcionários.
11. Indiferença para com os outros. Acontece quando o mais experiente não põe os seus conhecimentos ao serviço dos menos experientes, quando não se partilham experiências. Resulta de ciúmes ou dolo.
12. Cara de funeral. Pessoas rudes, carrancudas, que pensam que seriedade é severidade, dureza, arrogância. Precisam de alegria e de autoironia. Precisam do humor que torna as pessoas amáveis mesmo em situações difíceis.
13. Acumulação de bens materiais para preencher um vazio espiritual. Porém, “a mortalha não tem bolsos”. Nada de material podemos levar connosco.
14. Círculos fechados. Consiste na pertença a um pequeno grupo. Geralmente começa com boas intenções, mas com o passar do tempo, o grupo torna-se um “cancro”, ameaçando a harmonia eclesial.
15. Lucro mundano e exibicionismo. O serviço é transformado em poder para obter lucros mundanos ou mais poder. Por vezes, em nome da justiça e da transparência, alguns difamam e desacreditam outras pessoas, mesmo em jornais e revistas, na procura incansável dos poderes.

 

Comentários

Os discursos do Papa Francisco quase sempre têm muitas reações. O do dia 22 motivou vários editoriais da imprensa portuguesa. Aqui ficam alguns excertos.

O discurso de Francisco aos cardeais é ambicioso. Duro e cortante. Corajoso e sem meias-medidas. Só alguém muito apaziguado com as questões da vida e da morte, da transcendência e da realidade humana, do poder e da ausência dele, poderia ousar, perante uma sala de príncipes da Igreja, inscrever na história do mundo uma nova tábua moral, dramática para a Igreja e os seus senhores, equiparados (não por estas palavras) a vendilhões do templo ou a fabricantes de bezerros de ouro.
Luís Osório, editorial do “i”, 24-12-2014

(…) Ao enumerar as enfermidades que encontrou nos 21 meses que leva de pontificado (…), Francisco pôs a descoberto como nenhum outro Papa antes dele o havia feito os pecados da sua Igreja. (…) Não sei se, chegados ao fim deste pontificado, a Igreja será diferente, mas uma coisa é segura: Francisco não é um Papa qualquer. Despojado, trocando o fausto dos aposentos pela simplicidade da residência dos cardeais que participam nos conclaves, aproximou-se do povo. Veremos até onde o conservadorismo tradicional da Igreja tolera a “revolução” que Francisco, manifestamente, quer fazer.
Nuno Saraiva, editorial do
“Diário de Notícias”, 24-12-2014

O que durante anos foram cerimónias de algum conforto, sobretudo na época natalícia, foram este ano transformadas pelo Papa Francisco num severo alerta. (…) O discurso do Papa no Vaticano foi de uma dureza inédita contra os “pecados” da hierarquia católica (…). O Papa, na senda do que tem sido a sua atuação pública, continua empenhado em abalar antigos alicerces para daí erguer algo de novo. Veremos aonde conduzirá esta sua “cruzada”.
Editorial do “Público”,
23-12-2014