VASCO BRANCO – Ceramista, escritor e cineasta premiado

Aveirenses Notáveis Vasco Branco é um dos mais premiados cineastas portugueses, carreira que conciliou com as artes plásticas, sobretudo a cerâmica artística, e com a literatura, a par da sua profissão de farmacêutico.

Vasco Augusto Pinho Ferreira Branco nasceu na Rua Manuel Firmino, em Aveiro, no dia 27 de setembro de 1919. De 1933 a 1935 frequentou o Curso Industrial de Desenho e Pintura Cerâmica, onde teve como mestres Silva Rocha, Gervásio Aleluia e o escultor Romão Júnior. No ano de 1944 terminou o Curso de Farmácia, na Universidade do Porto, onde conviveu com o prestigiado professor, médico, pintor e teórico de arte Abel Salazar. Na Gafanha da Nazaré, abriu a Farmácia Branco, onde estão alguns dos seus painéis cerâmicos. Atualmente, por motivos de saúde e familiares, reside na cidade do Porto.

Ceramista com

obra pública em Aveiro

Como ceramista, Vasco Branco possui vasta obra pública na cidade de Aveiro, nomeadamente os painéis de mosaico cerâmico que revestem o Túnel de Esgueira e o conjunto de painéis que se encontra na Praça da República, frente à Escola Homem Cristo, obras que assinou como VIC.

A sua primeira exposição individual ocorreu em 1945. Em 1963, participou na Exposição Coletiva realizada no Teatro Aveirense e, em 1971, foi um dos fundadores do Aveiro Arte, tendo exposto regularmente nos eventos promovidos por este grupo de artistas plásticos. A partir de 1972, começou a privilegiar a cerâmica como a sua principal atividade artística, criando painéis de azulejos e peças artísticas, muitas das quais foram para colecionadores estrangeiros.

Em 1975, em parceria com o escultor Afonso Henrique, lecionou um curso de aperfeiçoamento de modelação e pintura cerâmica no Conservatório da Fundação Calouste Gulbenkian de Aveiro. No ano seguinte, concebeu o painel cerâmico que está patente no Infantário da Vera Cruz. Em 1981, executou dois painéis para o Banco Português do Atlântico e pequenos painéis para o Museu Marítimo de Ílhavo. Em 1983, concebeu um painel cerâmico para a Capela do Seminário de Aveiro e vários vitrais para este seminário. No ano seguinte, participou na Bienal de Vila Nova de Cerveira e expôs em Aveiro e Santarém.

Em 1985, para a Câmara Municipal de Aveiro fez dois murais de grés em relevo, e criou o painel que está no quartel dos Bombeiros Novos. No ano seguinte, expôs pintura e cerâmica no Simpósio Internacional de Farmácia Clínica. Os painéis cerâmicos que revestem o túnel de Esgueira foram executados em 1987, ano em que concebeu um painel para o Hospital de Aveiro. No ano seguinte, o destaque vai para um grande painel em grés cerâmico colocado no Almeida Memorial Hospital, de Oita, no Japão.

No ano de 1990 expôs com os seus filhos João e Vasco, pintura e cerâmica, na Galeria K61, de Amsterdão, e em 1992 e 1993, novamente com os seus filhos, na Galeria Schommer, no Luxemburgo.

Em 2005, juntamente com o seu amigo Júlio Resende, realizou a exposição “Encontros”, que juntou obras dos dois artistas na Galeria Morgados da Pedricosa, em Aveiro.

49 obras para cinema

Foi em 1955 que Vasco Branco fundou, com outros aveirenses, o Cine-Clube de Aveiro. Três anos depois, surgiu o seu primeiro filme, intitulado “O Bebé e Eu”, galardoado com o primeiro prémio no Concurso Nacional do Clube Português de Cinema de Amadores de Lisboa.

Vasco Branco foi galardoado praticamente com todos os prémios cinematográficos que houve em Portugal, desde 1958 até meados da década de 1980, sendo também de realçar que quase todos os seus filmes foram premiados nos principais festivais realizados no país. Para além desses, o realizador aveirense viu a sua obra ser reconhecida internacionalmente. Assim, em 1960, o filme “Circo e Etc.” representou Portugal no Concurso Internacional da UNICA e permitiu a Vasco Branco trazer o primeiro diploma para Portugal.

No ano de 1962, Vasco Branco alcança o 1.º prémio nas Jornadas do Filme de 8 mm de Paris. No ano seguinte, obtem o Filme de Ouro no Concurso Internacional do Cinema de Amadores de Salzburgo e uma menção especial do Festival de Cannes para o filme “O Espelho da Cidade”, para além do prémio para o Melhor Filme no 2.º Festival Internacional do Filme Amador de Huy (Bélgica).

Em 1964, Vasco Branco foi membro do júri internacional do Cineclube de Cannes e venceu o Grande Prémio no Festival do Cineclube da Beira (Moçambique). No ano seguinte, ganhou o Fortim de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Amadores de Calla d’Or (Espanha) e o primeiro prémio no Festival Internacional de Andorra. Ainda nesse ano, conquistou dois primeiros prémios no Festival Internacional de Viña del Mar (Chile). A revista suíça “Cinema Internacional” elogiou o seu filme “Tocata e Fuga”.

Já em 1966, Vasco Branco recebeu o Ecrã de Prata no 4.º Festival Internacional de Nyon (Suíça), e obteve o primeiro Prémio no Festival Internacional de Calla d’Or. No ano seguinte, ganhou o Grande Prémio no Festival Ibérico de Barcelona e a medalha de Ouro no Festival Internacional de Amadores de La Coruña, sendo ainda galardoado em Saragoça.

Em 1968, alcançou o Grande Prémio no Festival Internacional de Amadores de La Coruña e o 1.º prémio no Festival Internacional de Amadores do Lobito (Angola) No ano seguinte, foi o 1.º prémio nas Jornadas do Filme de 8 mm em Paris e galardoado em Londres, Irun (Espanha), Beira (Moçambique), em Marburgo (Alemanha) e na Jugoslávia, para além de obter o prémio para o melhor filme de 8 mm no 3.º Festival Internacional de Cinema Amador de Touquet (França).

No país do cinema, Vasco Branco venceu, em 1970, o prémio para o Melhor Tema Humano no 1.º Festival de Cinema Amador em Newark (EUA). Nesse ano, conquistou o troféu de Melhor Filme no festival de La Montagne (França) e o de Melhor Enredo e 1.º prémio no Festival de Cristchurch (Nova Zelândia). No ano seguinte, voltou a receber um prémio neste festival, um grande prémio no festival na Escócia e outro nos Estados Unidos da América com o filme “O Espelho da Cidade”.

Em 1973, a censura proibiu o seu filme “O Ensaio”. No ano de 1977, Vasco Branco foi galardoado em Hiroshima, com o filme “A Flor”.

No ano de 1987, Carlos Paredes acompanhou ao vivo para a RTP o filme “O Espelho da Cidade”.

Num trabalhado datado de 15 de abril de 1996, F. Gonçalves Lavrador inventariou 49 obras cinematográficas realizadas por Vasco Branco entre 1958 e 1984.

Cardoso Ferreira

Também homem de letras

Vasco Branco iniciou, em 1947, a sua colaboração com a “Mundo Literário”, revista dirigida por Adolfo Casais Monteiro, a par de colaboração regular que se estendeu a outros jornais e revistas, nomeadamente a “Bandarra”, “Litoral” e o “Libertação”, jornal de que foi um dos fundadores, em 1973.

No ano de 1952, publicou o seu primeiro livro, intitulado “Telhados de Vidro”, numa edição de autor, seguindo-se o livro “ Flor Seca”. Com o livro “Os Generosos Delírios da Burguesia”, editado pela Moraes Editora, venceu o Prémio de Ficção 1979 da Associação Portuguesa de Escritores.

Em 2000, como reconhecimento da sua vasta obra literária e artística, a Câmara de Aveiro instituiu o prémio anual de romance Vasco Branco, entretanto extinto.

Martim de Gouveia e Sousa publicou na edição de agosto de 2012 da “Ave Azul”, revista de arte e crítica de Viseu, um texto sobre Vasco Branco, onde se pode ler: “Vasco Branco, aviso, é um escritor que deveremos conhecer. A sua prosa é ática e interroga-nos, não permitindo indiferença ou subterfúgio. Os espaços da sua Aveiro natal desfilam perante os nossos olhos e são perfeito palco de confrontos interindividuais e de estados deceptivos. A estilística e as temáticas de Vasco Branco convocam autores como Irene Lisboa e Vergílio Ferreira, até na tragédia que impende sobre as personagens que se vão gastando no jogo relacional. Eis, como ainda não há muito aqui terei dito, um escritor deslembrado a merecer urgente visita”.