Sem caridade, que somos nós?

A Palavra de Deus neste quarto domingo do Tempo Comum convida-nos a refletir sobre o caminho do profeta: caminho de sofrimento, solidão e risco, mas também caminho de paz e esperança, porque é um caminho onde Deus está.

Na peregrinação da vida cristã, que só pode ser na fé e na caridade, vale para nós a mesma presença de Deus em relação a Jeremias: «não temas, porque Eu estou contigo para te salvar». Deus forma Jeremias desde o ventre materno, escolhe-o e consagra-o como profeta.

No Evangelho, Jesus aparece como o grande profeta, desprezado pelos seus, mas que «passou pelo meio deles e seguiu o seu caminho». É o mesmo caminho do Pai, que nos ama e quer salvar.

A segunda leitura parece desenquadrada desta temática: fala da caridade ou do amor, desinteressado e gratuito, apresentando-o como a essência da vida cristã. Parece desenquadrada, mas não é bem assim, porque o profeta só pode ser guiado pelo amor e nunca pelo próprio interesse. Só assim a sua missão fará sentido.

Fiquemos uns instantes neste belíssimo texto de Paulo, tão conhecido como hino ao amor ou à caridade. É uma das suas páginas mais célebres, em que o apóstolo nos indica «um caminho superior a todos os outros»: não o caminho do amor-paixão nem do amor-amizade, mas o caminho do amor-caridade, da agapè.

Para falar deste amor, em vez de dar definições, Paulo utiliza 15 verbos de ação: ter paciência, servir, não invejar, não se vangloriar, não se orgulhar, etc. Este hino só pode elevar-nos, mesmo inflamar-nos. São 15 dinamismos ou atitudes de vida no amor.

Procuremos ler todo o texto, isto é, a forma longa proposta na liturgia. Muitas vezes, na proclamação das leituras, ficamo-nos pelas formas breves. Se calhar para ganhar tempo. Mas depois estica-se o tempo em extensas homilias, por vezes fora de tom, e em exaustivos avisos paroquiais. E corta-se o tempo da Palavra. Oxalá que isso não aconteça, sobretudo na leitura de hoje.

Se ficarmos pela forma breve, acolhemos o essencial: se não tiver amor, nada sou! Mas perdemos o desenvolvimento da mesma essência: como não deve ser e como deve ser a caridade, que é o máximo de tudo, mesmo acima da fé e da esperança. A fé é prioritária, mas a caridade tem a primazia. Afinal, sem amor, que somos nós? Sem caridade, nada somos!

Uma sugestão final: podemos reler o capítulo 13 da Primeira Carta aos Coríntios, substituindo «caridade» por «Cristo». Deste modo, podemos ver como anda em concreto o nosso caminho profético centrado no amor de Cristo. Que somos nós, sem caridade? E sem Cristo, que somos nós?

Manuel Barbosa, scj
www.dehonianos.org