TESE DE DOUTORAMENTO DE MIRNA MONTENEGRO SOBRE OS CIGANOS

TESE DE DOUTORAMENTO DE MIRNA MONTENEGRO SOBRE OS CIGANOS

Concluímos a notícia iniciada no último nº e uma brevíssima nota sobre a “síntese possível” da tese de doutoramento de Mirna Montenegro (MM) a  qual tem 346 págs. e que pode ser acedida em:http://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/7994/1/ulsd064915_td_Mirna_Paiva.pdf

A “maneira cigana de fazer”, conclui MM, contribui para resgatar a palavra “aciganar” da sua carga pejorativa.

 

 

“Quanto à reabilitação (requalificação) da palavra “apayonar (ou “apayar), (paios são os não ciganos na terminologia cigana NR) parece ser mais difícil, porque, na mente cigana, “ter maneiras de senhor” é sinónimo de perder um pouco o “orgulho de ser cigano” ou a “segurança para a acção” (Casa-Nova, 2009).”

MM analisa as consequências para os costumes ciganos, dos realojamentos e sedentarização, da escolarização obrigatória por força do RSI, da própria atribuição do RSI, do aumento da penetração da Igreja Evangélica e da emergente comunidade virtual cigana, para concluir que “as comunidades ciganas têm vindo a sofrer mudanças aceleradas há mais de três décadas, i. é, sobretudo desde a implantação da democracia em Portugal.” Seguidamente apresenta “um conjunto de indicadores endógenos de mudança” entre os quais está o da “construção de uma classe média capaz de fazer a necessária síntese entre tradição e modernidade no que diz respeito aos costumes ciganos e práticas culturais”.

Entre os “factores exógenos” das mudanças, MM salienta a escolarização “compulsiva” das raparigas e “a formação profissional, nomeadamente das mulheres. Trata-se de um dos palcos de incompreensões, conflitualidade e de interpelação, mas também de oportunidades e de desafios, assente em lógicas diferentes entre duas culturas obrigadas, por decreto e/ou imposição, a conviverem, mais do que a coexistirem, como acontece nos espaços de alojamento social.” MM refere ainda a utilização das redes sociais para divulgação de festas e de grupos musicais ciganos, de injustiças e discriminações, para debates sobre a evolução das práticas sociais ciganas e para conversas entre grupos ciganos e não ciganos; e “a emergência de uma nova metodologia de intervenção no campo educativo e social, assente na articulação entre a educação formal e informal e no convívio intercultural” designadamente nos programas Escolhas e TEIP.

Sobre “como é que as pessoas ciganas lidam com estas mudanças” MM refere que mostram “capacidade de ver na mudança, embora uma ameaça, também uma oportunidade.”

MM enumera “alguns dos princípios educativos a ter em conta no sistema educativo português, quando se pretende fazer face à diversidade cultural das crianças e jovens ciganos, através de uma educação intercultural”; entre estes salientam-se: “permitir que a criança aprenda por si própria e em interacção com as situações”; “acreditar que, a brincar, a criança aprende a conhecer o mundo”, “que as crianças se educam entre si, integradas em grupos naturais e heterogéneos”. MM refere a importância da organização dos grupos, para que a Escola exerça a sua função “de gestão dos saberes e capacitação e emancipação das pessoas” e da metodologia pedagógica, para que se consigam “a efectiva participação das famílias na vida da escola” e a “cidadania activamente democrática”.

MM termina com uma análise da relação com o “espaço e o tempo na gestão da proximidade geográfica e afectiva” na sua convivência com as crianças e famílias ciganas.