Juan Ramón Gil Torres, cigano, Servo de Deus

Nascido em Jumilla província de Múrcia em 11 de Fevereiro de 1887, foi fuzilado em plena estrada que vai de Monóvar a Navelda na noite de  22 para 23 de Setembro de 1936.

Em 13 de Maio de 2002, a diocese de Alicante – Orihuela, inicia o processo de canonização, “VIA DE MARTÍRIO” de 54 sacerdotes e 17 leigos, entre os quais se encontra Juan Ramón.

 

 

Texto de Don Mario Riboldi em Novembro de 2005

Publicado pelo Postulador Diocesano da Causa:

Don Ildefonso Cases ( Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar .

Coordenação: D.P.G.Publicidad-Brugherio (Milano)

Pintor da capa: Vicente Stàricek

Tradução do italiano (para espanhol): Sor Paz Huarte,

Congregação “Siervas de Maria”

Comunicação de graças: Tel. 00-34-965479222

 

 

OS CIGANOS EM ESPANHA


Quem em Espanha é conhecido como “ciganos”, são descendentes dos nómadas que abandonaram a Índia, há mais de mil anos. Entre eles, alguns grupos afastaram-se do rio Indo para viajar um longo caminho, pela rota do sol, que os conduzirá à Península Ibérica. Já no ano de 1425 existe um testemunho escrito da sua presença na província de Aragão. Em poucos anos, os nómadas estenderam-se por todas as regiões de Espanha e Portugal.

Contudo, nos séculos XVI e XVII, Portugal decide a deportação de numerosas famílias ciganas para as suas possessões em África (como por ex. Angola). E Espanha impôs pela força a viagem a pequenos grupos de ciganos para a África e América no século XVIII.

No ano de 1749 (o ano da “grande apanha”), realiza-se o recenseamento dos ciganos em Espanha: eram cerca de 10.000.

O rei D. Carlos III tratou de converter os ciganos em súbditos, iguais em tudo aos restantes espanhóis, mas obrigando-os a mudar os seus costumes e impedindo-os de utilizar a sua própria língua: objetivo fracassado, não o tendo conseguido.

No século passado, Hitler perseguiu os ciganos até à morte, assassinando centenas de milhares, nos campos de concentração.

O “kaló” (assim se chama a si mesmo o cigano em Espanha), hoje é reconhecido pela Constituição de 1978, como pessoa igual, perante lei, a qualquer outro cidadão espanhol.

Sabendo organizar-se, obteve, além disso, para a sua própria associação mundial de milhões de nómadas espalhados por todo o planeta, o reconhecimento como ONG (Organização Não Governamental).

 

OS SEUS PAIS E O SEU NASCIMENTO EM JUMILLA

 

Miguel Gil Hernandez, tinha completado 31 anos quando nasceu o seu primeiro filho. Procedente da província de Valência, vivia há algum tempo em Jumilla, na província de Múrcia, diocese de Cartagena, junto com a sua mulher Josefa Torres Jiménez, que na altura teria 18 anos. Como a maioria da população em Espanha e na Europa, durante o século XIX, Miguel Gil não sabia ler nem escrever. A sua profissão era servente, tal como constava no documento da Câmara de Jumilla, onde Miguel foi declarar o nascimento de seu filho, nascido de sua legítima esposa, no dia 11 de Fevereiro de 1887. Ao seu filho deu o nome de Juan Ramón, recordando assim o seu avô materno, já falecido.

 

Miguel Gil Hernandez teve ainda outros filhos e filhas, no total de cinco homens e duas mulheres. Não foi possível encontrar a certidão de batismo de Juán Ramón, porque na Guerra Civil espanhola (1936-1939), o registo paroquial foi manipulado e faltam numerosos documentos desde o ano de 1886. Porém temos a certeza, de que o menino foi batizado na igreja mais antiga da cidade, na paróquia de São Miguel, assim como foram batizados também os seus irmãos e irmãs.

 

 

 

CRESCE ENTRE CIGANOS

 

O menino pôde crescer alegremente no ambiente familiar, rodeado de numerosos amigos, da Rua do Capitão, o bairro dos ciganos. Entre outras coisas, aprendeu rapidamente a dançar o “sapateado”, arte esta que vivia com grande paixão. Também as suas irmãs eram consideradas como bailarinas maravilhosas.

No entanto, Juán Ramón nunca foi à escola, sendo por isso analfabeto. Tornando-se um jovem alto, forte, amável e simpático, como os verdadeiros ciganos era “moreno” i.e. tinha a pele escura.

 

Recebeu uma educação religiosa no “estilo cigano”. Converteu-se num bom cristão, vivendo como “kaló”.

O seu trabalho foi um dos mais frequentes entre a sua gente: era comerciante de animais. Chegou a ser um trabalhador competente, um profissional.

Um dos seus irmãos, José, chamado “Griñán”, algumas vezes limava os dentes dos burros, para que parecessem mais jovens, enganando, como os outros comerciantes, ciganos ou não. Porém todos os testemunhos dizem que Juán Ramón era uma pessoa muito respeitada sendo particularmente estimada. Outra das características referidas era a de que Juán Ramón era fiel à palavra dada.

 

 

 

 

CASAMENTO E NOVA MORADA EM SALINAS

Em 28 de Dezembro de 1908, Juán Ramón casou-se com uma cigana de 18 anos, Maria Santiago Aguilera, na igreja paroquial de Cuevas de Ver (hoje conhecida como Cuevas de Almanzora), na província de Almeria. No ano de 1910 nasceu a sua primogénita Josefa. Depois, a família mudou-se para Salinas, na província de Alicante, onde nasceram Maria Remédios em 1924 e Juán Miguel em de 1927.

Em 1925 morreu a mãe de Juan Ramón. Nesta data, o seu pai já tinha falecido.

 

DOIS TESTEMUNHOS VÁLIDOS

(Sobre o Servo de Deus Juán Ramón)

“Recordo um dia em que todos estávamos no campo, pois era a época da ceifa e da debulha, o meu irmão pequeno, de quatro anos, afogou-se ao cair num poço muito fundo. Quando Juán Ramón caiu na conta da nossa desgraça, rapidamente apareceu para oferecer o seu apoio. O meu pai queria transportar o meu irmão, já sem vida, à aldeia num carro, mas o cigano não o permitiu. Pegou nele nos braços, coberto, tal como estava e percorreu a pé os dois quilómetros e meio que separavam o campo da nossa casa”. (Remédios Vidal)

“O meu avô possuía uma burra, muito bonita e elegante; porém a burra tinha um defeito, que tornava difícil vendê-la”. Um dia, o meu avô, pediu a Juan Ramón que lhe vendesse a burra pelo mesmo preço por que a tinha comprado: se lhe dessem mais, seria para o cigano. Juán Ramón conseguiu vender a burra, quase pelo dobro do preço e entregou todo o dinheiro ao meu avô, tendo sido impossível convencê-lo a ficar com uma parte do produto da venda. De qualquer maneira, desde esse dia, não faltou nunca em casa de Juán Ramón quaisquer dos bons produtos que a família dos meus avós possuía”. (Maria Gallardo Escolano)

 

 

SITUAÇÃO POLÍTICA EM ESPANHA

 

No ano de 1923, o rei Alfonso XIII consentiu que Miguel Primo de Rivera formasse governo, mas a Espanha ficou dominada por um ditador. A crise económica da América, em 1929, teve consequências também na Europa.

No ano de 1930, caiu a ditadura de Primo de Rivera e no ano seguinte realizaram-se as eleições administrativas. Nas grandes cidades, em 12 de Abril de 1931, os partidos de esquerda ganharam estas eleições. O rei fugiu do país e em 14 de Abril fundou-se em Espanha a Segunda República.

Juán Ramón, como a maioria dos ciganos, não se interessava muito com a política, porém sabia muito bem o que acontecia no país. Por exemplo, todos em Salinas sabiam que entre 11 e 13 de Maio, haviam pegado fogo a uma centena de igrejas e conventos em Madrid, Valência, Sevilha e Málaga, assim como também nas cidades próximas como Alicante e Múrcia. Sabia-se também que não tinham encontrado os culpados porque nem sequer os tinham procurado.

 

 

 

PROCISSÃO INCERTA NO ANO DE 1931

 

Durante o mês de Maio, em Salinas, segundo uma antiga tradição, celebrava-se a festa de Nª. Sª do Rosário, com uma procissão que percorria as ruas principais; a participação da banda musical dava um ar de mais solenidade ao ato. Naquele tempo existia o costume de quatro jovens chamadas “mordomas”, durante o ano pedirem esmola de trigo, aveia e restos de pão, para criar galinhas, vendê-las, e com o lucro comprar flores e outros adornos diversos para a festa. Por sua parte, as mulheres que tinham guardado as palmas brancas do Domingo de Ramos, nesse dia enfeitavam-nas com flores e entregavam-nas às quatro meninas da Primeira Comunhão, que, vestidas com os trajes desse dia tão solene, caminhavam ao lado da Virgem durante a procissão. “Naquele ano, eu era uma delas”, testemunha Trinidad Tortosa Corbí, nascida em 1921. As madrinhas iam vestidas na procissão, com as tradicionais mantilhas e pentes de cores.

Naquela manhã, todas participávamos na Santa Missa, “em que estava também Juán Ramón”, recorda a senhora Trinidad. Contudo, quando o pároco foi falar com o novo alcaide, teve que ouvir que ele não se responsabilizava pelas possíveis desordens que poderiam acontecer. O sacerdote, então, achou prudente anunciar que nesse ano não se realizaria a procissão, para evitar que algum louco com más intenções, causasse algum dano à imagem da Virgem e a partisse.

 

 

INTERVENÇÃO DO CIGANO

 

As jovens que durante todo o ano, se tinham preparado para a festa, (é certo que também com a intenção de se realçarem), ao ouvir a notícia, dirigiram-se a chorar para a casa paroquial, e no caminho para suas casas encontraram Juán Ramón que lhes perguntou: “mas o que é que vos aconteceu? Em vez de vos ver alegres e bonitas, vejo-vos tão tristes…!” Elas responderam: “ não sabes que o pároco decidiu não fazer a procissão?” Ao ser informado sobre tudo, o cigano declarou: “ o alcaide disse que não, mas (batendo no peito) Juán Ramón diz que sim, a Virgem vai ser levada na procissão.”

Juán Ramón foi falar com o alcaide, mas foram-lhe dadas as mesmas justificações que ao pároco. Seguidamente foi falar com o sacerdote que lhe fez ver o perigo de sair da igreja com a imagem. Então o cigano pensou num comerciante que conhecia, chamado “Juán el Culebra”, homem alto e muito forte; ao chegar a casa do amigo perguntou-lhe: podes acompanhar-me hoje a um certo lugar? Ao que ele respondeu “pois claro que sim, vou onde tu quiseres”. Então o cigano explicou-lhe: “olha que vamos acompanhar a Virgem na procissão. Tu colocas-te atrás da imagem e eu ponho-me à frente; se alguém se atrever a aproximar-se da imagem para a danificar, terá de nos matar a nós os dois antes. Estás disposto?” E o Culebra: “dispostíssimo!” Entre os dois, convenceram o pároco, e a procissão percorreu as ruas da cidade: ninguém fez troça, nem protestou; não houve nenhuma imprecação; parecia a procissão da Semana Santa, quando se acompanha Jesus ao Sepulcro. Não houve canções, nem se passou nada de extraordinário, mas a Virgem Maria passeou pela cidade.

 

 

FUGA DE SALINAS

 

O alcaide e os restantes companheiros de Partido, em Salinas não viram com bons olhos a ousadia do cigano por ocasião da Procissão. Juán Ramón, consciente desta hostilidade, passados poucos meses, decidiu abandonar a sua casa em Picayo (na zona alta da aldeia) e mudar-se para a cidade de Monóvar. Aí se misturou com os ciganos que habitavam nas “cuevas” (grutas ou casa-grutas). A sua era precisamente a Cueva de la Cenia no nº 16; quando vivia em Salinas, era o único cigano.

 

 

MONÓVAR

 

Em Monóvar no ano de 1932, nasceu o quarto filho de Juán Ramón que ficará com o seu mesmo nome; no entanto, os apelidos serão Gil Santiago. Vivendo com os ciganos, Juán Ramón Gil Torres, vendia e comprava animais de tração e de carga, i.e. cavalos, mulas e burros, nas feiras das províncias de Alicante, Múrcia e Albacete. Habitualmente costumava levar um bastão, símbolo que definia a profissão que exercia. Todos respeitavam aquele homem forte e bem-parecido, com bigode e cabelos negros. Era um cigano ao seu estilo e forma de actuar, que se adaptava a viver como os cidadãos de Monóvar, fugindo um pouco à categoria de “cigano puro”. Mas, por outro lado, também não chegava a ser como os “payos”, i.e. os não ciganos.

A sua mulher pequena e graciosa, percorria os lugares a vender lençóis e outros objetos domésticos; desta forma, colaborava, também ela, para melhorar a economia familiar. Juán Ramón era um bom marido e dava muita atenção à educação dos filhos. Vestia-se como os seus parentes e amigos: chapéu, lenço no pescoço, geralmente preto e blusa preta.

Não gostava de discussões, antes pelo contrário, era um conciliador nato e competente. Em Monóvar todos o saudavam na rua, porque o conheciam. Sabia relacionar-se com pessoas de qualquer categoria, frequentava também ambientes com gente rica e, de vez em quando, pedia empréstimos para os seus negócios. Ia à Missa com quem conhecia, e depois, ao bar ou ao café para conversar um pouco com todos. Participava nas principais funções da paróquia e ia à Missa todos os Domingos. No entanto não era um “beato” no sentido dos que frequentam com assiduidade a igreja mas que não vivem como verdadeiros cristãos.

Apesar de Juán Ramón ser uma pessoa séria, gostava de contar piadas e também de se divertir. Existe um testemunho que conta como depois de jantar gostava de sair à rua com os filhos dizendo-lhes: como já jantámos, agora vamos dançar um “sapateado” e os jovens dançavam contentes com ele. Seu filho mais pequeno contou-nos que o seu pai gostava da caça, da pesca e dos cães (consta-nos que se tratava de cães de caça também chamados cães dos ciganos). Por vezes ia com os seus amigos num automóvel “cabriolet” até aos lugares de caça e de pesca que ficavam distantes de Monóvar.

Gostava de contar piadas, e fazia-o muito bem, sem cair na vulgaridade.

 

 

NOVAS ELEIÇÕES POLÍTICAS

 

Em Fevereiro de 1936, em Espanha, realizaram-se novamente eleições políticas que voltaram a ser ganhas pelos partidos da Esquerda, i.e. pela Frente Popular, com 48%. Segundo a lei da maioria, aos partidos de esquerda corresponderam 263 deputados, enquanto que aos de direita couberam os 210 restantes.

 

PÁSCOA DE 1936

Em Monóvar, alguns extremistas da Esquerda, deram a entender que na Páscoa desse ano (16 de Abril de 1936), não seria bem vista a Procissão do “Encontro” (o encontro de Jesus Ressuscitado com a Virgem dos Remédios). O pároco, temendo que pudesse acontecer alguma profanação, não quis sair da igreja com as imagens. Na sua fé simples, Juán Ramón sentiu-se ofendido e correu depressa a chamar um grupo de vinte ciganos da cidade de Elda, a 9 km de distância, para participarem na cerimónia religiosa.

Outro paroquiano que também queria a Procissão, era Luis Marín Corbí que tinha o privilégio de levar o trono da Virgem, privilégio esse que na sua família passava de pais a filhos. Como temia que houvesse desordens e lutas entre o povo, foi ao telefone público e disse à telefonista: “avisa o Governador Civil de Alicante mas não digas nada a mais ninguém, pois se vierem a saber o que quero fazer, matam-nos aos dois. O Governador mandou um autocarro cheio de guardas. Quando eles chegaram, a Procissão saiu da igreja; antes disso, Juán Ramón pronunciou perante todos, um breve discurso e, dirigindo-se à Virgem, concluiu dizendo com voz forte: “Virgem Santíssima, se o M… é o chefe dos socialistas, eu sou o Rei dos ciganos e prometo levar-te sempre em procissão”.

Nesse dia de festa, o cigano levou na Procissão um grande círio ao lado da Cruz, e tudo se passou com correcção. Porém, quando em Julho estalou a Guerra Civil, o nome do cigano encontrava-se na lista dos assinalados e ‘condenados’ à morte.

 

 

A GUERRA CIVIL

 

Em 17 de Julho, nos territórios do norte de África, começou a insurreição em rutura com o Governo de Madrid, e no dia 18, a Espanha inteira encontrou-se no início da Guerra Civil. Já desde o início se constatou a divisão da Nação em dois grupos a partir da frente que separava a zona oriental, fiel à República, da ocidental que foi tomada pela Nacional.

 

DESORDENS TAMBÉM NA PROVÍNCIA

Em Salinas, como na maior parte de Espanha, a perseguição religiosa foi muito evidente. Num testemunho, Edemia, filha do “Culebra”, descreve o que viu numa aldeia em Julho de 1936: “um dia, ainda criança, acompanhei a minha mãe que ia comprar café e açúcar. Reparei numa fogueira, na praça da igreja. Um grupo de milicianos estava a queimar as imagens e outros objetos sagrados. Alguns deles em tom de escárnio, tinham vestido as vestes sacerdotais e riam abertamente. Na casa paroquial queimaram tudo e depois fizeram o mesmo na igreja”.

Nesses mesmos dias, chegaram de Elda uns vinte milicianos com um de Salinas. Vinham com o propósito de assassinar, antes da noite, 17 homens. Mas através das grades da janela do cárcere municipal, aberta por causa do calor, um dos detidos começou a gritar a plenos pulmões e a chorar: “filhos de Salinas ides permitir que me matem?”. Esta voz era tão forte que se ouvia claramente na praça, e causou comoção e sobressalto entre o povo. Então, um tal “Juanazo”, influente na Câmara, ordenou que se impedisse o massacre, com a desculpa de que antes se devia matar o “Culebra”. Não conseguiram encontrar este comerciante, pois se tinha escondido nos montes onde permaneceu vários dias. Os detidos permaneceram no calabouço. Foram libertados mais tarde pelo comissário José Bravo que vivia em Valência, mas que tinha a noiva em Salinas. A jovem que era filha de um dos detidos, ocupava na povoação o posto de telefonista e chamou de imediato o seu noivo. Quando chegou à povoação, José Bravo impediu a chacina e fez com que todos voltassem às suas casas.

Em Salinas não se cometeu nenhum assassinato por causa da Guerra Civil, nem durante, nem depois do conflito. É de elogiar a população desta terra.

 

 

JUÁN RAMÓN PRESO EM MONÓVAR

 

Em Monóvar tinham preso Luis Marín Corbí, o católico comprometido que procurou os guardas, no dia da procissão de Páscoa e que esteve na cadeia durante os três anos da guerra: no início, em Monóvar e depois em Alicante. Durante este longo período de tempo, teve a brilhante ideia de escrever tudo o que acontecia. Na página 23 do seu livro, conta que na segunda metade do mês de Agosto, foram conduzidos à cadeia entre outras, as seguintes pessoas: F. Marhuenda, M. Vidal, L. Vicente, Juán Ramón, Tormo, e duas senhoras: Virtudes e Conchita Mergelina. Por este documento sabemos que o cigano foi preso e conduzido à cadeia em Monóvar.

Todas as testemunhas, que foram ouvidas no Processo Diocesano para a Causa de Canonização (aberto em Orihuela em 13 de Maio de 2002), afirmam que foi detido por ser católico; outros acrescentam: “porque quis o ‘Santo Encontro’, a Procissão da Páscoa”.

Entre os presos, estava também um homem de família distinta, muito rico, Don Ricardo Pérez Gutiérrez. Chorava muito, e um dia disse entre lágrimas: “Oh Juán Ramón, rezemos os três terços do Rosário para que não sejamos fuzilados - tenho cinco filhos”. O cigano, aceitando a proposta disse; “ah sim, eu também tenho filhos”. Rezaram juntos e quando terminaram, Juán Ramón disse: agora quero dançar um sapateado” e sem pensar duas vezes, bailou na prisão a dança dos ciganos. O seu companheiro de prisão, a chorar comentou: “Senhor Deus meu, vejo que Juán Ramón tem muito mais fé do que eu, é melhor católico do que eu, pois enquanto ele dança, eu choro”. Dom Ricardo permaneceu preso, mas não foi assassinado.

 

 

O FUZILAMENTO


Por esses dias, Don Luis Marín Corbí, o detido que escrevia tudo o que se passava na prisão, tratou de ser transferido para Alicante; porém os outros  convenceram-no a esperar um pouco, pois ouviam-se rumores de uma rápida libertação. Assim foi e passados cerca de 15 ou 20 dias, todos puderam voltar a casa. Porém o povo opôs-se e prenderam-nos de novo a todos.

No diário de Don Luis Marín, encontramos este testemunho: “no dia seguinte, i. e, em 23 de Setembro, no início da noite, vieram buscar dois dos presos e levaram-nos para a vala da estrada que vai para Novelda; aos outros quatro levaram-nos à estrada que vai para Sax”. A Juán Ramón fuzilaram-no na estrada que conduz a Novelda numa planície de oliveiras. Alguém disse que as suas últimas palavras foram: “ Viva Cristo Rei”. Talvez tenha sido o primeiro a ser morto em Monóvar, durante o período da Guerra Civil; certamente que é o mais recordado de todos.

 

A SEPULTURA

 

O registo civil de Monóvar assinala como data da morte do cigano, o dia 22 de Setembro de 1936. Nesses dias tão difíceis, as imprecisões são compreensíveis, até nos documentos oficiais. Juán Ramón foi sepultado em Novelda. Quando a guerra terminou em 1939, os seus restos mortais foram transladados para Monóvar, para a praça da Câmara Municipal, para aí receber as honras fúnebres, juntamente com os restos das restantes pessoas caídas na Guerra. Depois, todos foram enterrados no cemitério da cidade. No ano de 1999, o cigano foi transladado para o cemitério de Sax, onde se encontra a sua sepultura, juntamente com a daquela que foi sua mulher, Maria Santiago Fernández. Em 29 de Novembro do ano de 2005, a urna que contém os restos mortais de Juán Ramón e de sua esposa, foi transportada para a igreja paroquial de Salinas.

A Causa da Canonização, na qual a diocese de Alicante-Orihuela está a trabalhar, abrange um grupo de 54 sacerdotes e 17 leigos, todos eles, segundo se crê, assassinados por professarem a fé católica. O cigano Juán Ramón é um deles. Toda a documentação do processo (“Summarium”) foi entregue na Congregação para a Causa dos Santos, em Roma, no dia 3 de Junho de 2005.

 

 

ORAÇÃO

(aprovada para rezar em privado)

“Pai todo poderoso, Pastor eterno,

que concedeste ao teu Servo

JUÁN RAMÓN GIL TORRES

(secular cigano)

a fortaleza de suportar a crueldade dos  tormentos

por amor a ti,

concede-nos, que os seus méritos

sejam prontamente reconhecidos na terra

com a sua Beatificação,

e a nós a graça

que, por sua interceção, te pedimos

por Nosso Senhor Jesus Cristo”.

Amén