FLAMENCO

FLAMENCO

Da revista espanhola Telva (out. 16)

Convosco, os Habichuela

Pepe, o patriarca, recorda como seu pai e os seus tios chegavam de madrugada à cueva de Albaicín onde viviam, serviam aguardente e bolos de manteiga e continuavam a festa. O seu filho Josemi e os seus sobrinhos cresceram acostumados a encontrar-se no salão da casa com Enrique Morente, Paco de Lucía*, Camarón*… . Os Habichuela formam uma das sagas mais virtuosas e respeitadas do flamenco. “Estamos com uma pinha. Há algo mais bonito do que tocar em família?”, diz Pepe. Esta é a nossa homenagem a uma arte que é um emblema no nosso país e no mundo.

 

“Na canção Habichuela em árvore (genealógica) a voz doce e saborosa de António Carmona (AC) canta: ‘uma vez perguntaram-me de que família venho/ eu venho dos Carmona/ dos Carmona eu venho …” “Esta declaração tão simples e clara… resume o caráter da sua família. Os Carmona, mais conhecidos como Habichuela… formam uma das estirpes ciganas mais virtuosas e respeitadas do flamenco”. A família começou no século XIX. AC tinha três irmãos e três irmãs: os homens tocavam guitarra e as mulheres dançavam. Viviam numa cueva em Albacín. Na Barberia del Sur, fundada por Pepe Luis, toca-se e dança-se o que se chama “novo flamenco”. Atualmente, no Natal juntam-se mais de 40 pessoas. “Os ciganos mudámos muito e o mundo do flamenco também, mas a arte da minha raça está no sangue. Uma coisa é cantar flamenco e outra é cantar cigano e isto não tem que andar junto. O canto, o toque e o baile flamenco necessitam de aprendizagem”, diz Pepe Luis.

 

A produção discográfica é grande, tal como os concertos incluindo no Auditório Nacional de Madrid. A mulher de Pepe Luis, Amparo “bailava como uma rainha, com os braços muito bonitos” – “é ela que manda”. Já estão casados há 51 anos. “Antes de casarmos levei-a, como é hábito entre os ciganos. Veio o meu sogro El Bengala que era bandarilheiro e cantava muito bem… e disse-me: ‘Ouve, tens que te casar’. Eu disse: está bem.” As mais pequenas da família, com três e quatro anos já começam a bater os tacos ao compasso das palmas dos seus pais. Josemi começou a tocar guitarra com três anos.

As maiores celebridades mundiais passaram pelo restaurante Corral de la Moreria (tablao) um dos melhores palcos de flamenco de Madrid. Rudolf Nuneyev ia lá todas as noites depois de dançar no Teatro Real. Na “sua última noite em Madrid, subiu ao palco e fez uma pirueta”. “Inovação e raiz (tradição) continua a ser a premissa dos Habichuela”.

O flamenco precisa da arte da descrição.

Grande parte do mistério do flamenco é que a sua música “não se escreve”. Transmite-se de pais a filhos, de geração em geração. Os cantores aprendiam a escutar os outros nas festas. O guitarrista flamenco, geralmente ignora muitas das leis elementares da música, mas a sua prodigiosa intuição criadora vale por todas as teorias que possa ter aprendido. Por isso, os bons cantores tendem a conservar as formas originais e costumam citar os mestres cujo canto aprenderam. As letras do flamenco falam de como se vivia, do que se comia e se colhia, de como se amava, como se sofria e como se divertiram as pessoas de outras épocas. “Nem com a voz, nem com o movimento se expressava nada que não correspondesse textualmente às suas vidas. Criavam assim algo biologicamente submergido na sua própria cultura e no seu próprio sangue”.

O flamenco não tem escolas; o seu único meio de aprendizagem era e continua a ser nas casas onde se transmita. As casas dos Habichuela, dos Cortés, dos Montoya, dos Amaya, dos Peña, dos Carbonell, dos Méndez, dos Zambos, dos Agujetas, dos Moraos, dos Sordera, uma imensa teia consanguínea que se estende de Barcelona a Cádiz.

* famosos músicos de flamenco

Foto 2: “Alguns põem-se muito emproados para tocar e cantar. Eu não sinto isso. Nós somos naturais. Sabemos tocar na cueva, nos palcos e no Auditório Nacional (Pepe Habichuela)

Foto 3: “Segue-me. Luís. Aprendeu a guitarra com o seu tio Pepe e continuará a saga de grandes guitarristas da sua família.

Foto 4: “Essas mãos como catos”, aplaude a Soleá o seu tio Pepe, enquanto sorri com gosto a olhar para os seus. A menina, além do mais, estuda piano no Conservatório de Granada.” A próxima faraona. Soleá aprendeu a bailar com sua mãe, Antónia Heredia e gravou um videoclip com o seu pai e outro do novo disco do seu tio, António Carmona.”

Foto 5: “Quem sai aos seus não degenera”. Em 2010 a UNESCO declarou o flamenco Património Cultural Imaterial da Humanidade.

Foto 6: O enigma Calé

Embora a sua origem seja incerta, o flamenco forma-se com base nas ramificações folclóricas andaluzas (cantos mozárabes, cantigas de Cádiz e da época romana, melodias árabes) que se misturaram com a tradição de ciganos e mouros.