OS CIGANOS DÃO TESTEMUNHO

OS CIGANOS DÃO TESTEMUNHO

Do nº de dezembro de 2017 da revista Nevi Yag (que significa “fogo novo” em Romani - órgão do CCIT – Comité Católico Internacional para os Ciganos) reproduzimos uma entrevista que Gabor Gyorgyovich (GG), da direção do CCIT, fez ao P. Orsos Zoltan (OZ), cigano húngaro; a entrevista decorreu na paróquia de OZ, na Hungria).

 

GG: de onde vieste e de que condições de vida?

 

OZ: nasci numa cabana cigana em Lovászi. Tinha seis anos quando, com os meus irmãos, fomos separados da nossa família por causa das condições de vida deploráveis. Na nossa família sofremos muitas privações, fome. O meu pai foi preso por diversas vezes por roubo de alimentos. Na escola não tínhamos motivação, tínhamos sido educados numa liberdade completa. Em casa não tínhamos sequer um espaço vital atribuído às crianças. Quando tínhamos muitas visitas, para nós, as crianças, não sobrava onde dormir. Nem sequer se punha a questão de ir à escola no dia seguinte. Muitas vezes entrávamos em pânico ao ver o nosso pai que tinha “molhado a garganta”. Eu tinha inveja da felicidade familiar dos meus companheiros não ciganos que tinham preconceitos relativamente a mim e aos meus irmãos. Eles ignoravam a minha experiência, por uma parte por causa da atmosfera da nossa família e por outra, por causa dos seus preconceitos. O meu desejo mais profundo era sair deste mundo fechado, mas o medo, a fome, a incerteza, a falta de motivação e de afeto, esfumaram todas as minhas esperanças. Estes sentimentos de mal estar desapareceram quando me encontrei em Balatonberény, em casa dos meus pais adotivos.

GG: os anos de adolescência trouxeram-te algum alívio? Esses anos ficaram marcados por que alegrias e desgostos? Havia alguém que acreditava em ti?

OZ: As minhas primeiras experiências foram bastante desencorajadoras. Eu pensei que com nesta "mudança" as coisas iriam mudar, porque a grande maioria da população local era cigana, mas enganei-me. Os meus companheiros constataram que eu queria aprender a sério e esta constatação despertou a sua aversão. Os não Ciganos tinham medo de mim e consideraram-me como um jovem antipático e os Ciganos não compreenderam as minhas intenções. No liceu, durante um tempo, eu era o único Cigano. Se houvesse um roubo, imediatamente mostravam desconfiança relativamente a mim. Muitas vezes fui apanhado num fogo cruzado. O problema era que as pessoas não me conheciam. Os primeiros acontecimentos positivos vieram dos meus companheiros de internato. Esses conheceram-me verdadeiramente bem, e rodearam-me com o seu afeto e apoio. Contra as insinuações pude sempre contar com a sua ajuda. Devo-lhes muito. graças a eles eu pude sentir que eles tinham confiança e que contavam comigo. No decurso dos anos que passei no liceu, muitas das minhas feridas  mentais sararam. Terminei os meus estudos com excelentes notas.

GG: como nasceu a tua vocação, através de que etapas chegaste ao sacerdócio?

OZ: Foram os meus pais adotivos que me levaram à igreja. A primeira missa à qual assisti com sentimentos variados, foi uma deceção para mim.  Tinha a impressão que toda a gente olhava para mim e tudo isso me parecia estrangeiro. A primeira coisa que chamou a minha atenção foi o Evangelho. Nunca na minha vida tinha ouvido um ensinamento como aquele. Era um sentimento inquietante, eu poderia dizer que uma voz interna me disse: "aproxima-te para eu te poder ver!"                                                  Eu estava no fundo da igreja, mas senti um impulso para ir para a frente. Depois da missa, perguntei ao sacristão para poder ocupar o primeira fila. Ele  fez-me um sorriso encantador e disse-me: "ajuda à missa!"  Assim aconteceu que em breve me encontrei entre as crianças do coro. Pouco tempo depois, domingo após domingo, escutei com admiração as homilias do nosso pároco, e este pensamento ousado não me largava: será possível que também eu me possa dedicar a esta vocação? Se olho para trás para a minha infância, vejo que Deus sempre velou por mim e me conduziu e me chamou a ser o seu "mensageiro". O meu caminho para a fé foi a direito, foi cheio de sofrimentos. Enfim, foi o Evangelho que mudou a minha vida. Descobri a sua força determinante para curar a vida humana. Se podia mudar a minha vida, também podia fazê-lo com as vidas dos outros. Foi por isso que escolhi como lema as palavras de S. Paulo: "Tornei-me ministro da Igreja pelo ministério que Deus me confiou: realizar junto de vós  a vinda da Palavra de Deus."

GG: resumindo as tuas experiências de 14 anos de sacerdócio, como é que vês a situação dos Ciganos húngaros?

OZ: Não é tão desesperante como se pensa, em geral. De resto, partilhando a opinião do P. Géza Dül, entre nós, trata-se mais de uma questão de miséria do que de uma questão cigana. Para mim, a pastoral não se limita a "ocupar-se dos Ciganos", mas ela significa a sensibilização da sociedade maioritária para ser mais acolhedora, e, ao mesmo tempo, a procura de uma melhor compreensão e colaboração por parte dos Ciganos. A qualidade da relação deixa muito a desejar entre as duas populações. Na minha opinião, a eficácia da pastoral depende mais dos Gadgé: sem eles, a nossa atividade ficará sem resultados. Eu vim para o meio dos meus paroquianos com um coração aberto e desinteressado, mas, frequentemente, muitos entre eles me consideram um "instrumento". A minha popularidade, relativamente elevada, que alcancei nos anos que passei nos media, não quero utilizá-la de outro modo que não seja um instrumento de evangelização. Eu tenho convites, um pouco de todas as partes, e também eu próprio vou ver frequentemente  os meus paroquianos. Efetuando visitas paralelas às famílias, constatei que os Ciganos me acompanharam para todo o lado, ao passo que junto dos Gadgé encontrei indiferença. Visitei diversas paróquias e, segundo o que vi e ouvi, penso que a nossa Igreja vive tempos revolucionários. O desafio é a catolicidade que não existe sem os Ciganos. Apesar dos problemas para assumir a sua identidade e a perda das suas raízes, a capacidade dos Ciganos não oferece qualquer dúvida, o Espírito Santo sopra também neles. Nós devemos explicar-lhes que Cristo não veio para os controlar. A nós cabe-nos apresentar a imagem de Cristo que habita neles.                                                    Atualmente há um grande problema: a assimilação e a luta quotidiana pela sobrevivência ocupam um lugar prioritário acima de todas as outras coisas. Cito a observação que ouvi em qualquer lado:" tu estás tão bem que tu não és mais Cigano". Na pastoral, encontro por vezes uma certa aversão, da parte dos bispos e padres. Pela minha parte, tento fazer com que se consciencializem para que não se pode esperar a mudança, a não ser pela escolaridade, pelo trabalho e pelo coração. Eu consegui formam uma comunidade ativa e um conjunto musical. Na administração, posso contar com jovens da paróquia. Em setembro, vai ser lançado um curso com o fim de formar colaboradores da pastoral. O que nos falta ainda: uma casa comunitária, um colégio para crianças com talento e, antes de mais, "homens ponte" que possam servir de "modelos" para os outros. ...