Quem Somos

Beata Emilia Fernández Rodriguez de Cortés

 

Mãe de família, mártir

Tíjola, Almeria, Espanha, 13 de Abril, 1914

 

Prisão Gachas – Colorás, Almeria, 25 de Janeiro de 1939

 

Emilia Fernández Rodriguez de Cortés, uma cigana espanhola, nascida em Las Cuevas de Tíjola (Almeria), em 13 de abril de 1914, era fabricante de cestos.

Casada segundo os costumes do seu povo com Juan Cortés Cortés, por a igreja ter sido encerrada, opôs-se ao recrutamento do marido nas fileiras do exército republicano, e foi presa, embora estivesse num estado avançado de gravidez.

Na cadeia, Emilia aprendeu a rezar o Rosário e a confiar em Deus a sua vida e a da bebé que, pouco depois, nasceu enquanto Emilia estava no isolamento.

Morreu devido à ausência de assistência no parto, em 25 Janeiro  de 1939, sem nunca ter denunciado quem lhe tinha transmitido a fé cristã

A fase diocesana da causa da sua beatificação e a de outros cento e dezasseis mártires potenciais da diocese de Almeria, foi iniciada em 1995 e terminada em 1998. Foi beatificada, juntamente com outros 114 mártires de Almeria, durante a Guerra Civil de Espanha, em 25 de março de 2017, tornando-se a primeira mulher cigana beatificada em todo o mundo.

 

Emilia Fernández Rodriguez de Cortés nasceu em 13 de abril de 1914, na aldeia de Las Cuevas, em Tijola (Almeria). Foi batizada no mesmo dia em que nasceu, na igreja de Santa Maria. Seus pais, de etnia cigana, ganhavam a vida fazendo cestos de vime, arte que ensinaram a Emilia. Assim, Emilia que depois os vendia, no meio de uma grande pobreza, passou a ser conhecida como Emilia “la Canastera” (a Cesteira).

Emilia nunca aprendeu a ler nem a escrever e viveu uma vida tranquila de acordo com os costumes do seu povo, incluindo a participação nas atividades da Igreja.

Muito jovem, entre fevereiro e março de 1938, Emilia casou-se com o cigano  Juan Cortés Cortés. Como a igreja tinha sido fechada pelo Partido Republicano, por causa do começo da Guerra Civil Espanhola, o casamento realizou-se segundo a tradição cigana, com bailes e cânticos durante uma semana inteira.

O seu esposo foi chamado a combater na frente republicana, mas negou-se ir e Emilia apoiou-o na sua recusa em ir para a frente e foi à Câmara Municipal expressando com veemência a negação: “ Meu Senhor Presidente, nós somos uns ciganos bons, somos pobres mas honrados, não nos metemos com ninguém e casámo-nos no outro dia e não queremos separar-nos um do outro”.

A reposta foi do seguinte teor: “Em 21 de junho do ano corrente de 1938, o mancebo Juan Cortés Cortés deverá apresentar-se neste escritórios de recrutamento, a fim de se juntar à Frente de Guerra para a defesa dos interesses da República. No caso de não comparecer, será decretada a deserção e serão dadas as devidas ordens para a sua captura”.

Chegado o dia marcado, Juan não se apresentou. Os milicianos comunistas vieram a sua casa e prenderam-no por deserção, e a Emilia que estava em estado avançado de gravidez, por tê-lo apoiado. Os dois foram separados: o marido ficou na prisão conhecida como “El Ingenio”, e a mulher na cadeia feminina de Gachas-Colorás, foi condenada a seis anos de prisão. E foi ali que, inesperadamente, encontrou conforto e confiança na sua angústia.

Um grupo de prisioneiras, entre as quais algumas religiosas e senhoras da Ação Católica, recitavam o Rosário todos os dias. Curiosa com aquela maneira de rezar, Emilia pediu-lhes que lho ensinassem a rezar: foi Dolores del Olmo que fez de catequista. Embora fosse analfabeta, a cigana tinha uma inteligência viva e depressa aprendeu os ensinamentos da fé.

 

A simplicidade com que Emilía fazia as suas orações diante de todos, despertou em pouco tempo a preocupação da diretora da cadeia. Um dia dirigiu-se a Emilia para que ele denunciasse quem era a sua professora de religião, a troco de melhorar as condições em que estava na cadeia. Emilia não abriu a boca e nunca disse o nome da sua catequista, em consequência do que, Emília foi fechada na cela solitária. Foi aí que, a 13 de janeiro de 1939, deitada numa enxerga, Emília deu á luz uma menina, em abandono total, sem ajuda de ninguém.

A bebé foi batizada com o nome de Angeles, pelas suas companheiras de prisão.

Emilia esteve quatro dias sem receber assistência enquanto perdia sangue com uma terrível hemorragia. Ao quatro dia foi levada ao Hospital provincial, em estado grave, tendo regressado poucas horas depois à solitária na cadeia onde, em 25 de janeiro de 1939, 12 dias depois do parto, às 9h30m faleceu sem nunca ter denunciado a sua catequista.

Tinha 24 anos: se tivesse sobrevivido mais três meses, teria visto o fim da guerra.

Os restos mortais de Emilia foram sepultados numa vala comum, no território de Almeria, sem que nunca tenha sido exumada. Quanto à pequena Angeles, não foi confiada nem ao pai nem a nenhum familiar, mas internada num orfanato, para adoção, suspeitando-se que pudesse ter sido confiada a alguma família republicana.

A causa da beatificação de Emilia Fernandez Rodríguez foi incluída no grupo de cento e dezassete mártires potenciais da diocese de Almeria. O inquérito diocesano foi iniciado no dia 11 de abril de 1995, encerrado em 21 de maio de 1998 e declarado válido pelo decreto de 26 de fevereiro de 1999. A beatificação de Emília, a Cesteira realizou-se no Palacio de Congresos y Exposiciones de Aguadulce em Roquetas de Mar, Almeria, Espanha em 25 de março de 2017, tendo a cerimónia sido presidida pelo Prefeito da Congregação para as causas dos Santos, como delegado pontifício do Papa Francisco, Cardeal  Angelo  Amato, pelo Bispo de Almeria e pelo Arcebispo de Granada.

Em 2009, o Dia anual dos Mártires espanhóis da diocese de Almeria foi celebrado solenemente na sua paróquia, por ocasião do septuagésimo aniversário da sua morte.

Fontes:

 

Santi  Beati:  www.santibeati.it/Detailed/96425.html

Autores: Gianpiero Pettiti, Emilia Flocchini

Diálogo Gitano, Nov. 2013, Pastoral Gitana, Madrid.

Rom Sinto, nº 4, Nov. 2001, nº 5 Nov. 2002 - Comitato per la Canonizzazione del Beato Gitano Zeferino

Giménez Malla, “El Pelé”, Milano

Seronero, 14 marzo de 2010, la Gitana de Tijola, www.tijoladigital.com

http://seronero.blogspot.pt/2010/03/la-gitana-de-tijola.html

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Nevipens Romani, 1-5 abril 2017

 

Juan Ramón Gil Torres, cigano, Servo de Deus

Nascido em Jumilla província de Múrcia em 11 de Fevereiro de 1887, foi fuzilado em plena estrada que vai de Monóvar a Navelda na noite de  22 para 23 de Setembro de 1936.

Em 13 de Maio de 2002, a diocese de Alicante – Orihuela, inicia o processo de canonização, “VIA DE MARTÍRIO” de 54 sacerdotes e 17 leigos, entre os quais se encontra Juan Ramón.

 

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Zeferino Giménez Malla

CIGANO E SANTO

ZEFERINO GIMÉNEZ MALLA

(1861-1936)


O SEU TRABALHO E A SUA FÉ

Apresentação

A presente biografia constitui parte da "Positio su­per martyrio" apresentada à Congregação para a Causa dos Santos no curso do processo de beatificação do Servo de Deus Zeferino Giménez Malla, cigano espanhol que viveu de 1861 a 1936. Trata-se de um cigano que viveu como um verdadeiro nómada e como verdadeiro católico por toda a vida, coroando a sua existência com o martí­rio em Agosto de 1936, durante a Guerra Civil Espanhola.

A sua vida foi simples e modesta (como simples fora a sua proveniência) mas deslumbrante.

Quem se aproxima da figura de Zeferino fica admi­rado da profunda humanidade da sua pessoa e da inten­sidade da sua vida interior.

A Guerra civil dos anos 1936-1939 subverteu o país e trouxe consigo uma forte perseguição religiosa.

Naquele período a Igreja de Espanha viveu um ver­dadeiro baptismo de sangue e de fogo. O Osservatore Ro­mano de 7 de Agosto 1932 escreveu a este respeito: "Cita­mos nas outras colunas desta página tantos factos e tan­tas provas da luta sistemática que se leva, não sem vio­lência e a miúdo com métodos incivis e ilegais contra a Igreja e a liberdade religiosa, e  é difícil não reconhecer naquela luta uma vontade decidida e implacável de per­seguição ".

Nos três anos de perseguição, perto de 7000 eclesi­ásticos tornaram-se verdadeiros mártires, oferecendo a sua vida em defesa da fé cristã. Muitos leigos foram mor­tos porque pertenciam à Igreja católica e por terem de­fendido a fé em Cristo. Entre estes Zeferino Giménez Malla, único Cigano que morreu por motivos puramente religiosos, porque ousou defender um sacerdote e mani­festar publicamente a própria fé.

A sua morte foi considerada um acto heróico e logo se difundiu a fama da sua santidade. Em 1993 teve iní­cio o processo de beatificação que suscitou interesse e en­tusiasmo não apenas no mundo cigano.

P. Romualdo Rodrigo, O.S.R., Postulador da Cau­sa e Mons. José Luís Gutiérrez, Relator, lançaram-se ao trabalho com diligência e precisão, recolhendo factos e testemunhos.

Das pesquisas e dos estudos feitos por eles aparece a figura de um homem extremamente honesto, louvado pela sua caridade e generosidade para com os pobres (ele também era pobre) admirado pelo seu fervor apostólico, pela profunda religiosidade e a devoção a Jesus Euca­rístico e a Maria, apreciado pelas suas qualidades mo­rais e pela extraordinária inteligência natural (ainda que analfabeto), estimado pelo bom senso em dar con­selhos e pelo dom especial de saber resolver e regular contendas entre os ciganos. Mostravam-lhe respeito não só os seus irmãos ciganos, mas também as mais altas autoridades civis, sacerdotes e bispos pelos quais tinha uma forte amizade.

O Servo de Deus Zeferino Giménez Malla com a sua vida e a sua morte mostrou ao mundo que Jesus está pre­sente em todos os povos e em todas as raças e que por toda a parte pode nascer a santidade. (Positio, p. 3)

A Igreja reconhece nele um filho autêntico e fiel, o povo cigano uma testemunha de Cristo para a evangelização da própria gente.

O Pontifício Conselho da Pastoral para os Migran­tes e os Itinerantes que entre as próprias responsabilida­des tem também a de promover a pastoral dos ciganos, confia ao leitor esta biografia com votos que o exemplo de vida, virtude e martírio do Servo de Deus ajude a cons­truir uma mentalidade acolhedora e de solidariedade para com todos os Ciganos e permita a este povo en­contrar de novo a própria dignidade e o lugar que lhe pertence na sociedade.

 

VIDA, VIRTUDE E MARTÍRIO DO SERVO DE DEUS

Dividiremos este capítulo em duas partes. Na primei­ra expomos a vida e as virtudes do servo de Deus; na se­gunda falaremos do seu martírio material e formal e da sua fama.

I. VIDA E VIRTUDE DO SERVO DE DEUS

 

Tratando-se de um nómada que passou muitos anos da sua vida sem residência fixa, é difícil contar com indícios certos, nomeadamente no que se refere ao nascimento, à primeira comunhão e à infância. Os únicos documentos de que dispomos são o certificado de baptismo de um sobri­nho Juan Fernando Jiménez, no qual o servo de Deus apa­rece como padrinho, e a consulta matrimonial do mesmo servo de Deus de 1912 no curso da qual foi apresentado o seu extracto de baptismo. (cf. Doe. 10, Summ. p.87)

Subsídios biográficos

Como subsídio biográfico dispomos de uma peque­na biografia preparada para os anos 60 do P. Angel M. Fandos, C.M.F. e publicada em 1973. Trata-se de um livrinho (llx16) de 32 páginas, escrito numa linguagem sim­ples e intitulado "O Pelé. Um cigano com fazenda de santo".

Se bem que falte o aparato crítico, parece que o au­tor se tenha guiado pelos testemunhos que pôde recolher em Barbastro.

Além desta pequena biografia e dos dois documen­tos referidos acima, dispomos da declaração de várias tes­temunhas oculares, que conheceram o servo de Deus e al­guns membros da família.

1. Nascimento e primeiros anos

De acordo com a confirmação do mesmo servo de Deus na prática matrimonial, sabemos que era filho de João Jiménez e de Josefa Malla e que nascera em 1861. (1) Não se conhecem exactamente nem o dia, nem o lugar de nasci­mento. (2)

O Padre A. Fandos afirma que o Pelé nasceu, como os seus irmãos Felipe e Encarnação, em Alcolea de Cinca, ame­no subúrbio de Huesca"(3). Na falta de documentos deve ter pensado que o servo de Deus devia ter nascido no mes­mo lugar dos irmãos, porém trata-se de uma suposição não confirmada, nem por testemunhas nem por documentos.

Dom Mário Riboldi baseando-se sobre as declarações de Maria de los Milagros Jiménez (mais conhecida como Maruja e assim a chamaremos nós) filha de Josefa (Pepita) que fora adoptada pelo servo de Deus, dá por certo que nasceu em Benavente (Lérida) (4). Para todos os efeitos, Maruja de­clarou sob juramento:

 

"Ouvi dizer por uma filha de um meio-irmão do Pelé, chamada Leonor, que ele nasceu em Benavente" (Summ pp. 19-20,5).

 

Todavia esta declaração parece-nos muito genérica e pouco convincente.

Na certidão de baptismo exibida pelo servo de Deus por ocasião do seu matrimónio lê-se que nascera em Fraga, onde foi baptizado (cf. Doc. 11, f. 88). É certo, como afir­ma D. Mário Riboldi, que os ciganos para evitar complica­ções, por vezes diziam que o menino tinha nascido no território da paróquia onde pediam que fosse bapti­zado" (5). Porém, neste caso, parece que os pais do servo de Deus tenham dito a verdade a respeito do lugar do nasci­mento; também noutro documento oficial de 1903 afirma-se que o servo de Deus nascera em Fraga. Referimo-nos à certidão de baptismo de João Alfredo Jiménez, filho de Fi­lipe Jiménez Malla, irmão do servo de Deus.

O Pelé fez de testemunha e afirmou  ter nascido em Fraga (cf. Doe. 10 Summ, f. 87)

Permanece sempre a dúvida porque há contradição entre aquilo que afirmam algumas testemunhas e aquilo que encontramos escrito nos documentos citados. Todavia é mais verosímil o que afirmam os documentos.

Temos poucas notícias sobre a infância do servo de Deus. Os seus pais eram nómadas e ao que parece atravessaram várias vilas da Catalunha e da alta Aragão. Maria de los Milagros Jiménez ( Maruja) a sobrinha adoptiva, afir­ma que ele era analfabeto e que "teve uma infância muito pobre" (Summ p. 20, 19)   A  D. Mário Riboldi confiou que "o tio lhe dizia ter passado fome quando era pequeno e narrava: "regressando a casa depois da venda, se via o fumo, ficava contente porque havia alguma coisa para comer; se não havia fumo, as mulheres não tinham cozinhado". (6)

A testemunha Nicolás Santos de Otto que acompa­nhava assiduamente, durante vários anos o mesmo servo de Deus, dizia que "sendo o mais pequeno, conheceu a mai­or pobreza". Foi cesteiro com um tio. Nalguma                                                    ocasião re­cebeu a ajuda de Cucaracha, célebre bandido da nossa ter­ra (7) que indo com seu tio,                                                                                         encontrara ao longo das estradas" (Summ, p.42) A notícia foi recolhida a seu tempo tam­bém por P. Fandos, certamente entre ciganos que conheci­am bem a vida do servo de Deus, porque escreve: "Apren­deu a ganhar o seu pão desde muito pequeno, tecendo ces­tos e canastras para os vender pelas aldeias". (8)

Provavelmente aprendeu em pequeno as orações da Igreja, tendo a sobrinha Maruja declarado que em particu­lar rezava em língua catalã (cf. Summ, p. 20, 6). Supõe-se que recebeu desde criança a primeira comunhão e o cris­ma, porque mais tarde foi admitido à celebração do matri­mónio católico.

A formação intelectual do servo de Deus foi nula. O P. Fandos que o conheceu, afirma que "nunca passou pela es­cola…Completamente analfabeto, não soube ler, escrever, nem fazer contas" (9) Acrescentamos que nem soube escre­ver a sua assinatura porque no documento matrimonial assina a instância pelos dois (e certamente com uma linda caligrafia) Tereza Jiménez (10) e no acto de declaração que o Pelé fez perante o vigário geral da diocese se lê: "Não assina porque não sabe". (cf. Summ, Doc. 11, b. p. 89).

Resulta que o seu pai separou-se de sua mãe (se bem que não se saiba quando) e que se uniu a outra mulher da qual teve alguns filhos. Um destes chamava-se: "El Turons". O Pelé teve de encarregar-se da família e nomeadamente do irmãozinho Filipe que nasceu em 1882. Era tal a dife­rença de idade entre os dois que Filipe chamava o irmão "pai" porque na realidade este fizera de pai. Assim foi refe­rido pelo cigano Bártolo a Dom Riboldi. (11)

 

2. Estabelece-se em Barbastro

A Maruja afirma que os pais do servo de Deus não tinham morada fixa. Não sabemos se foram viver em Barbastro. Quando Zeferino Jiménez Malla e Teresa Jiménez no final de 1911, pedem para casar na Igreja, eles afirmam "residir em Barbastro, há trinta e dois anos" (Cf. Summ, doe. 11, a p. 88). Portanto, é preciso concluir que o servo de Deus fora estabelecer-se em Barbastro em 1878 ou 1879. Tinha então 18 anos, ou 19 anos, e provavelmente já estaria casado à maneira cigana, com Teresa Jiménez que vinha de Lérida.

No baptismo de João Alfredo Jiménez, filho de Fili­pe, que teve lugar em 9 de Dezembro de 1903, em Barbastro, afirma-se que os pais do menino moravam em Barbastro e a mesma coisa se diz de Zeferino Jiménez e da sua esposa que foram os padrinhos (cf. Doe. 10 Summ, p. 87). Não é para admirar que o servo de Deus declarasse estar casado porque para os ciganos o matrimónio celebra­do conforme o seu rito constitui um verdadeiro matrimó­nio e o Pelé casara à maneira cigana com Teresa Jiménez Malla, nascida em Lérida, a 23 de Maio de 1859, fora bap­tizada no mesmo dia, na paróquia de S. João Baptista (Do. 9 Summ p. 87).

Em 1911 Zeferino e Filipe obtiveram o cartão de iden­tidade em Barbastro, respectivamente a 1 e a 15 de Julho. Também Teresa, mulher do Pelé, é domiciliada em Barbastro em 1911. (12).

 

3. O matrimónio religioso

Não conhecemos os motivos que levaram o Pelé a casar em 1912 segundo o rito da Igreja. O Rev. Antos Lalueza, que foi vigário geral de Barbastro e trabalhou durante  muitos anos na pastoral dos ciganos, afirma que, em geral, os ciganos casam-se antes à maneira cigana e muitos deles formalizam depois a união, casando na Igreja, por ser o meio mais simples para que a união seja reconhecida juridicamente pelo Estado. (cf. Summ, p. 14 -7 - 8) Esta observação da testemunha é válida talvez para a segunda metade deste século. No princípio do século e no fim do século passado, raramente os ciganos casavam na Igreja. Nos registos paro­quiais encontram-se pouquíssimos casos de celebração de matrimónios entre ciganos, enquanto são registados mui­tíssimos baptismos.

Tendo presente isto e ao mesmo tempo a vida que o servo de Deus levou mais tarde, podemos supor que ele fosse levado a legitimar a sua união por motivos religiosos.

A 3 de Janeiro de 1912 dirige uma instância à cúria episcopal de Barbastro a pedir para  ser dispensado da obrigação dos proclamas. No dia seguinte, 4 de Janeiro o vigário geral de Barbastro envia o processo matrimonial ao juiz e vigário geral da diocese de Lérida, porque os es­posos desejam casar-se naquela cidade. (13). É preciso lem­brar que a esposa tinha nascido em Lérida e que aí viviam os seus parentes. Não foi possível obter o certificado matri­monial, porém, pela nota marginal do certificado de bap­tismo de Teresa Jiménez, a mulher, sabemos que o matri­mónio foi celebrado a 9 de Janeiro de 1912 na Igreja paro­quial de S. Lourenço Mártir, de Lérida. Porque não tive­ram filhos adoptaram (14) uma sobrinha da esposa chama­da Pepita Jiménez Jiménez, mais conhecida como Pepita (15), que o servo de Deus considerou sempre como uma verdadeira filha. (cf. Summ Test. 6, 11, p. 20). Os pais de Pepita, Ramón, apelidado "el Petit" e Beatriz, viviam em Barbastro. Aí morreu, em 1919, com a idade de 64 anos, o pai de Pepita. No documento da igreja lê-se: "Recebidos os sacramentos da confissão e do viático". Passado pouco tem­po, Beatriz, mãe de Pepita, transferiu-se de Barbastro para Saragoça (16). Maruja, a sobrinha mais velha, afirma que o servo de Deus deu a Pepita "uma boa educação cristã, levando-a ao colégio de S. Vicente de Paulo, das Filhas da Carida­de... Pepita relacionava-se, também, com companheiras paias (não ciganas), do colégio da cidade" (Summ, p. 20, 11).

 

4. Comerciante de cavalos

O P. Fandos afirma que no seu cartão de visita, o servo de Deus apresentava-se como "comerciante de cavalos". (17) Graças à sua honestidade e ao seu espírito empreendedor, conheceu tempos de grande prosperidade neste comércio.

O P. Fandos refere que o Pélé ganhou a confiança e a admiração dos habitantes de Barbastro pelo seu espírito de serviço e nomeadamente por ter socorrido uma vez dom Rafael Jordán, ex-síndico, que sofria de tuberculose e que, um dia, na estrada teve um imprevisto vómito de sangue. O servo de Deus socorreu-o sem medo de ser contagiado e levou-o para casa. Como agradecimento por este gesto he­róico, dom Simón, homem rico e irmão de dom Rafael, ofereceu ao Pelé uma grande quantia de dinheiro, aconse­lhando-o a ir para a França, para comprar um vagão de mulas que o governo francês punha a vender no fim da guerra mundial. O Pelé que tinha parentes chegados em Dax e em Olorón, foi para a nação vizinha e adquiriu gran­de quantidade de mulas que vendeu em pouco tempo nas  vilas do Somontano. Segundo a testemunha, Nicolás San­tos de Otto, "repetiu a operação em várias ocasiões, alcan­çando grande sucesso... Até àquele momento podia consi­derar-se rico e assim foi por muitos anos". (Summ p.42) Graças a este bem sucedido comércio, o Pelé pôde comprar e embelezar a casa no bairro de Santo Hipólito, onde vivia como inquilino. (18) Dispôs de uma estrebaria de ca­valos, que tinha sempre bem fornecida. Tudo isto sucedia certamente em 1919, imediatamente depois do fim da pri­meira guerra mundial.

Algumas testemunhas fazem referência à estrebaria do Pelé onde vinham camponeses e ciganos à procura de cavalos. (cf. Summ. Test. 4, Summ, p. 14,9; Test. 6, Summ p.20, 12; Test. 9, Summ""p. 27, 9; Test. 22, Summ, p. 48, 9).

Todavia a sorte não lhe sorriu sempre. Uma série de circunstâncias e a sua excessiva prodigalidade, a pouco e pouco, levaram-no quase à ruína.

Narra o P. Fandos que encontrando-se na feira de Vedrell para tratar de vender algumas mulas, um dos fei­rantes reconheceu duas que lhe tinham roubado em Valls, e denunciou o caso à Guarda Civil. O Pelé foi detido e leva­do para a cadeia. O caso foi levado a tribunal. Certamente as mulas tinham sido roubadas em Valls como afirmava o roubado, porém, o Pelé, com recibos regularizados conse­guiu mostrar que as tinha comprado, ignorando a proveni­ência. O juiz, depois da leitura da sentença absolutória, per­mitiu-se acrescentar: "O Pelé não é um ladrão nem um in­trigante, é São Zeferino Jiménez Malla, o padroeiro dos ci­ganos" (19)

O caso é narrado também pela testemunha Maria Carlota de Otto, que o ouviu do pai, que o ajudou na defe­sa. (cf. Summ, p. 44, 13)

Dom Mário Riboldi recolheu as confidências de vá­rios ciganos de idade que foram testemunhas do caso. Um destes "EI Bomba" afirma que o Pelé foi denunciado em Barbastro e que o julgamento teve lugar em Vedrell. Diz também que várias testemunhas viram mais tarde o Pelé subir de joelhos levando duas grossas velas nas mãos da rua Santo Hipólito para a Catedral para agradecer a Deus ter sido absolvido no tribunal. (20) A testemunha Alexan­dre Mora, se bem que ignore o motivo, lembra-se de ter visto o Pelé partir de joelhos "de sua casa para a Catedral". (Summ, p. 32, 8)

Tudo isto que Dom Mário Riboldi recolheu da teste­munha Constâncio Rámiz Ballabriga, sucedeu em 1922. (21)

As desventuras do servo de Deus não acabam aqui. Alguns meses mais tarde, Deus experimentou-o de novo, levando-lhe a esposa Teresa que, segundo o livro dos de­funtos, do arquivo da cúria episcopal, morreu de repente, no dia 4 de Dezembro de 1992. O servo de Deus chamou imediatamente o sacerdote, o qual administrou à defunta os sacramentos da penitência e da extrema-unção "sub con­dicione". (cf. Summ, p. 89; Doe. 12) Com a morte da mu­lher, ficou só com a filha adoptiva, Pepita, que tinha ape­nas 16 anos. Talvez para evitar mexericos, ou pelo desejo de criar um novo núcleo familiar, pensou organizar a vida à filha, enviando-a como esposa a João Alfredo Jiménez, "El Lisardo", seu sobrinho, filho do irmão Filipe.

Como é costume entre os ciganos, Alfredo e Pepita casaram-se primeiro à maneira cigana, celebrando uma grande festa com parentes e amigos. O casamento deve ter tido grande ressonância porque os ciganos idosos ainda o lembram.

Dom Mário Riboldi recolheu o testemunho de um deles, o qual "mesmo enganando-se no nome do esposo, lembra que a festa foi grande e que foram lançadas moedas de 5 e de 10 cêntimos: ele apanhou 35 cêntimos (sua mãe então ganhava uma peseta e 25 cêntimos por dia). Tam­bém Maria Ardanuy, de noventa anos, ainda viva e de boa saúde, hoje diz que foi uma festa muito grande" (22)

O casamento religioso teve lugar na igreja paroquial de São Francisco de Assis, a 5 de Agosto de 1923. (cf. Doe. 13, Summ. p. 90)

Os jovens esposos ficaram a viver na casa do Servo de Deus que se encheu de alegria quando nasceu uma me­nina, Maria de los Milagros. “La Maruja" nasceu a 25 de Maio 1924. Seguiram-se seis meninas e um menino: Clotilde, "La Teliné", a 15 de Junho 1926; Trinidad, 15 de Maio 1927; Arturo "El Keti", 8 de Janeiro 1928; Alegria y Salud "La Chone", 28 de Maio 1930; Nuri em 1934? e Laura a 30 de Maio 1942. (23)

O velho Pelé pôde gozar da companhia das sobrinhas que amava com amor paternal. Tinha uma perdição pela mais velha, a Maruja, como confessa ela mesma. Em 1934 sofreu de certo pela morte de uma delas, a Nuri, que foi enterrada em 7 de Janeiro, no túmulo de sua propriedade.

(cf. Summ p. 90, Doe. 12)

 

5. Últimos anos de Pelé

Depois de ter casado a filha adoptiva, ao que parece, viveu algum tempo com ela e com o genro. Mais tarde, quando nasceram as sobrinhas e a família começou a cres­cer, deixou a casa aos esposos e ele foi viver numa casa do "Intramuro", cuja renda era paga por dom Nicolás Santos de Otto.

Todas as noites levava consigo uma das sobrinhas maiores, Maruja ou Teliné. A Teliné, mais pequena, tinha ciúmes da irmã Maruja e queria ir sempre com o tio Pelé. Numa declaração feita diante do P. Gabriel Campo, o pos­tulador de Barbastro, a  Teliné narra as brigas com a sua irmã Maruja:

 

"Cada dia vinha com uma de nós. Eu era ciumenta da Maruja. Queria estar com o Pelé. Vinde meninas ­dizia - hoje esta, amanhã tu, no outro dia... e eu contava os dias que faltavam para que me levasse à sua casa." (Summ pp. 55-56).

Ir dormir em casa do Pelé tinha vantagens porque de manhã o tio, acompanhado pela sobrinha de turno, depois de ter ouvido a Missa na igreja dos claretianos, comprava à menina "um bolo de Viena, ou chocolate." (cf. Summ, Tes­temunho 2, p. 56)

Durante os últimos anos da sua vida, o servo de Deus dividia o tempo entre a casa de campo que os Otto tinham em San Esteban de Litera e Barbastro. Praticamente estava ao serviço dos Otto que o consideravam como da família. E para ganhar a vida dedicava-se também à venda de teci­dos. (cf. Summ, Test. 19, Summ, p. 42)

 

6. A vida diária

Não é difícil imaginar a vida habitual que o Pelé leva­va em Barbastro e quais fossem as suas obrigações diárias, Sabe-se que assistia todos os dias à primeira Missa, na igre­ja dos claretianos, (Summ pp. 8, 3; 56, 2) e depois dedicava­-se às obrigações diárias. Como todos os da sua etnia, e sen­do nomeadamente comerciante de cavalos, tratava da es­trebaria que tinha em Barbastro; apanhava erva para os cavalos, levava-os ao bebedouro, limpava o estábulo, com­binava negócios, ia às feiras das vilas vizinhas e não faltava às festas que os seus irmãos ciganos organizavam por um motivo ou por outro.

Devemos considerar que até 1930, no bairro de Santo Hipólito, onde vivia o servo de Deus, não havia água corrente. Logo, era preciso transportar todos os dias a água da fonte de S. Francisco até às pias para os cavalos, ou levar os cavalos, ao menos uma vez por dia, ao bebedouro.

Uma outra ocupação do Pelé era ferrar os cavalos. Para isso dispunha de um instrumento especial, que os ci­ganos chamavam "puhamante" e os camponeses "trajavan­te". Este instrumento foi oferecido ao museu dos mártires claretianos de Barbastro onde está guardado, por José Castellón, filho do "Ferruchón" que o herdara (24)

O P. Fandos que conhecia bem o ambiente e que reco­lheu notícias entre os ciganos de Barbastro para escrever a pequena biografia do Pelé, num artigo publicado num jor­nal, escrevia:

"Como quase todos os da sua etnia, dedicou as suas ocupações diárias à criação e ao comércio de cavalos: apanhar erva, comprar cavalos, vendê-los e trocá-los... Com a sua presença animava as feiras e os mercados; sabia elogiar a sua mercadoria com diálogos pitores­cos, corridas ágeis, considerações hiperbólicas... sem prejuízo da justiça e da boa amizade. Gostava das festas ciganas, batia as palmas, agitava as castanholas e lança­va sonoros "olé"... A sua presença nestas festas era se­gurança absoluta de respeito e de moderação". (25)

Além dos trabalhos e das ocupações como comerci­ante de cavalos e além do facto de frequentar as festas orga­nizadas pelos ciganos, o Pelé cultivava a amizade com dom Nicolás Santos Otto. Acompanhava-o nas numerosas via­gens que este fazia pela Espanha, quer por motivos relaci­onados com a sua profissão de professor, quer por motivos políticos. Nicolás Santos de Otto, filho, afirma:

"Com o meu pai viajou muito através da nossa pro­víncia e fora dela. Acompanhou-o a Oviedo quando, tendo problemas de saúde, foi tomar posse da cáte­dra naquela universidade. Várias vezes foi a Madrid. Todas estas viagens nos eram referidas pelo Pelé que narrava de maneira atraente, com abundância de por­menores e referências, as pessoas que conhecera". (Summ, p. 44).

O P. Fandos que se informou bem para escrever o seu opúsculo afirma:

"Muitas vezes acompanhou o catedrático nas suas vi­agens, em todas as direcções, na Espanha: uma vez, por exemplo, como pessoa de confiança, na tomada de posse da Cátedra de Oviedo (1923); outras vezes como figura representativa do povo simples e mo­desto, nas campanhas de política hidráulica, empre­endidas pelo poliédrico dom Joaquim Costa, "el Léon de Graus"; outras ainda, por conhecimentos nacionais de grande relevo, como por exemplo, na consagração ofi­cial da Espanha ao Santíssimo Coração de Jesus (1919), por parte de S. M. o Rei D. Afonso XIII, ro­deado de todos os seus ministros, de uma numerosa representação do episcopado e dos mais altos expo­entes do exército e da magistratura." (26)

A Maruja, sobrinha do servo de Deus, declarou que o tio Pelé passeava com o seu cavalo "Calderas" levando consigo a filha Pepita. Era capaz de ir e voltar no mesmo dia de Barbastro a Huesca que fica a 50 quilómetros. (cf. Summ pp. 18-19 e 54)

Nos últimos anos da sua vida, deixou o trabalho de comerciante e dedicou-se quase completamente à família do seu amigo Otto. Ia muitas vezes à herdade dos Otto, em San Esteban, ou tomava conta da casa de Barbastro, onde dormia muitas vezes, até ao ponto que a testemunha, Rev. Santiago Mompel Querol, esculápio, interrogado no processo do Bispo Florentino Asensio, afirma que o servo de Deus "era o porteiro da casa de Santos de Otto". (Summ p. 52, 7)

A acreditar em Nicolás Santos de Otto, além dos trabalhos que fazia pela sua família, ganhava a vida vendendo tecidos nas vilas e aldeias. (Summ p. 40)

No meio das suas ocupações, como afirmam as testemunhas, não deixava absolutamente a Missa e a comunhão diárias. Assistia além disso com fidelidade às procissões, às manifestações de culto e às obrigações contraídas nas di­versas associações religiosas, às quais pertencia, como a Adoração Nocturna e as Quintas Feiras Eucarísticas, às conferências de S. Vicente de Paulo e às reuniões da Confraria dos Terceiros Franciscanos, da qual era conselheiro.

Uma vida de cigano e ao mesmo tempo de fervoroso cristão, testemunho vivo, tanto para os ciganos como para os camponeses.

 

7. Personalidade do Pelé

Dispomos de factos suficientes para descrever a per­sonalidade do servo de Deus, seja pelo que se refere ao seu aspecto físico, seja pelo moral. Tudo concorria para fazer dele um homem com uma personalidade forte.

 

a)Aspecto físico

Além das fotografias que se conservam, várias teste­munhas oculares descreveram-nos a figura física do servo de Deus.

Nicolás Santos de Otto, nascido em 1915, que viveu com ele praticamente até à sua morte, diz-nos que "era alto, airoso, de boa saúde, de constituição forte e elegante". (Summ, p. 40, 3) Assim o viram alguns seminaristas de Barbastro no ano de 1926, quando foi instituída a Ordem Terceira Franciscana: "captou em particular a minha aten­ção e a dos meus companheiros, - afirma o Rev. Santos Lalueza - o facto de encontrar aí um cigano alto, escuro, que tinha nas mãos a bandeira dos terceiros. A impressão foi muito favorável" (Summ p. 13, 4)

Maria de los Dolores, nascida em 1911, conheceu o servo de Deus em  menina e lembra-o como um homem "alto, enxuto". (Summ p. 37, 3) E os rapazinhos do bairro, entre os quais estava Román Celaya, viam-no como um grande senhor, de personalidade atraente, alto, magro, distinto". (Summ p. 10, 9) André Jiménez, cigano, fornece-nos um quadro completo da figura do Pelé: "era alto, magro, um homem atraente. Vestia com elegância, com casaca e gilé. Tinha uma corrente para o relógio que saía do gilé para terminar num bolsinho. Movia-se com um bastão." (Test. 1 Summ p. 53, 3)

Numa fotografia de grupo, na qual aparece com o professor Nicolás Santos de Otto, os filhos e alguns amigos deste último, o Pelé destaca-se dos outros. Aparece vestido com casaca e gilé, como declarou a testemunha André Jiménez se bem que não se reconheça a cadeia do relógio porque a foto está "desfocada".

O P. Fandos informa-nos na sua biografia como vestia o Pelé. Diz que nos dias de trabalho "via-se com a blusa e o "basco" na cabeça, nos pés os chinelos com o chicote ao pescoço ou arredondado entre as mãos". E acrescenta:

"Diferente era o modo de vestir quando fazia parte de caravanas para ir às feiras. Sentado a cavalo ou guiando a carroça coberta, mantinha conversações animadas com os companheiros e vigiava atentamen­te a manada de machos e de burros que conduzia. Então vestia o casaco, a gravata, o chapéu flexível e calçava as botas... " (27)

 

b) Qualidades morais

O servo de Deus distinguia-se nomeadamente pelas suas qualidades morais. Ainda que fosse analfabeto e não soubesse fazer contas, era dotado de uma extraordinária inteligência natural, de muito bom senso, de uma honesti­dade a toda a prova e de um dom especial para arbitrar as contendas que surgiam entre os ciganos, ou entre estes e os camponeses. A tudo isto acrescente-se a sua grande gene­rosidade, muitas vezes próxima da prodigalidade. Nicolás Santos de Otto afirma que, mesmo sem formação intelec­tual, era "de grande inteligência natural e de critério recto e justo". (Summ p. 41)

Porém, acima de tudo, era um cigano e um comerci­ante profundamente honesto, virtude bastante rara no sector. Nisto concordam todas as testemunhas, tanto os cam­poneses como os ciganos. Citamos algumas declarações:

José Cortés, cigano, afirma:

"Tinha fama de homem honesto (...). Desempenhava o seu trabalho de comerciante com honestidade, não com­prava cavalos com defeitos e não gostava de enganar os camponeses. Era um cigano honesto". (Summ. pp. 5-6)

Román Celaya, vizinho de casa, que o conheceu, ain­da quando jovem, antes de ter vinte anos, declara:

"O Pelé tinha fama de homem honesto como comer­ciante de cavalos, não gostava de enganar e este facto conferia-lhe prestígio e fazia-lhe ganhar dinheiro. Inclusivamente avisava se qualquer cavalo tinha defeitos. Algu­mas vezes podia ouvir-se esta expressão entre as pes­soas: "Fia-te do Pelé que te aconselhará bem". (Summ p. 11, 10)

Adela Jiménez, cigana, ouviu contar à mãe que o Pelé "era honesto no seu trabalho de comerciante e não queria enganar nem camponeses, nem ciganos." (Summ p. 31,10)

A sua honestidade era tal que para não enganar as pessoas, nas feiras punha de lado os cavalos que não esta­vam bem domados. Assim refere a sobrinha Maruja:

"O tio Pelé era um homem honesto na sua profissão de comerciante de cavalos e ouvi dizer que quando tinha cavalos "não dóceis" e ia às feiras, punha-os de lado e aqueles que os iam comprar sabiam e podiam distingui-los. Deste modo não os enganava. "Summ p. 20, 10)

O mesmo afirma a testemunha Trindade Jiménez sobrinha do servo de Deus:

 

"O Pelé era honesto no seu trabalho de comerciante, não enganava e se os cavalos tinham algum defeito dizia-o antes, ouvi-o dizer muitas vezes ao avô (diz Trindade), que era irmão do tio Pelé". (Summ p. 47)

Uma outra testemunha, Rufino Bruno Vidal, acrescenta que não só não enganava, mas que repreendia os ciganos que assim faziam:

"O Pelé era um homem muito honesto no seu trabalho de comerciante de cavalos e nunca se permitia enganar alguém, antes repreendia aqueles ciganos que procuravam enganar os camponeses dizendo que não deviam fazê-lo e era muito amado e apreciado pelos camponeses." (Summ p. 23, 10)

 

Testemunhas da honestidade a toda a prova do servo de Deus foram os membros da família Otto. Afirma Maria Carlota, filha de Nicolás Otto:

"O Pelé tinha fama de homem honesto e demonstrava-o  com os factos; tal era a confiança que meu pai punha nele, que lhe confiou o cuidado da nossa casa de San Esteban de Litera, onde muitas vezes ficava sozinho como responsável. E mais ainda: a combinação do cofre de meu pai era Pelé. Nós desejávamos que viesse à nossa casa e íamos ao seu encontro”. (Summ p. 43, 10)

Uma outra testemunha da integridade moral do ser­vo de Deus, talvez um pouco exagerada é Alejandro Moca Sesé, amigo da família Otto e portanto também do Pelé. Numa declaração de 11, XII, 1993, feita diante do P. Gabri­el Campo, afirma:

"Era um homem tão bom que era difícil pensar em qualquer pecado seu, mentira, ou outra falta. Parecia como se estivesse preservado de pecado, como por vezes imagino a Virgem Maria, toda pura." (Proc. f. 176)

O biógrafo pode bem escrever do servo de Deus:

 

"Também pelos camponeses (o Pélé) alcançou uma notável importância. As vilas da região nunca conhe­ceram um homem mais honesto, mais cavalheiro, mais leal e mais cristão. Em público e em privado mostra­va-se respeitador, humilde, alegre, pacífico, serviçal e generoso. Para todos tinha uma saudação, um sor­riso, disponibilidade para uma conversação amena, aceitando diferentes convites, promessas. Nas indagações efectuadas para compor este pequeno esboço históri­co, nada ouvi de deplorável. Ele tratava os outros ci­ganos com muita cordialidade, dirigindo-se a eles. Habitualmente, se não eram superiores a ele, tratava­-os com o apelido de "tato", palavra de afecto com a qual se tratam os ciganos." (28)

A sua proeminência física e as suas qualidades mo­rais faziam dele um homem com uma personalidade forte, respeitada por todos e admirada dos payos e ciganos. Ro­mán Celaya, que fazia parte de um grupo de crianças do bairro de Santo Hipólito, onde vivia o Pelé, afirma que "todo o bairro via no Pelé um distinto senhor com uma personalidade estupenda". (Summ p. 10,9) E acrescenta:

 

"O Pelé gozava de grande prestígio entre os ciganos e também entre os camponeses. Aceitavam os seus con­selhos e os ciganos consideravam-no como seu "che­fe". Em toda a rua Santo Hipólito, os vizinhos tinham confiança nele e eram seus amigos; consideravam-no advogado dos pobres e recorriam muitas vezes a ele para lhe pedir conselho." (Ibid., p.ll, 12)

 

Maria Dolores Esteban acrescenta que entre os ciga­nos se distinguia pela sua grande personalidade." (Summ p. 34, 3) A mesma coisa afirma Lúcia Marín: "Ouvi dizer que tinha muita autoridade entre os ciganos, como se fosse o "chefe". (Summ 36, 12)

Pela sua grande personalidade, era amigo das pesso­as mais ilustres da cidade e entre os ciganos era "como o chefe". Assim afirma Maria Carlota de Otto que o conside­rava um membro da família:

 

"O Pelé tinha amigos na cidade, entre eles a minha família, os Jordán, os Jeseu, Carmen Sichar, Pablo Jordán de Urriés e Azara. Entre os ciganos, gozava de muita autoridade e era como o "chefe". E nós éramos amados pelos ciganos pelas relações que tínhamos com o Pelé." (Summ, p. 44, 12)

 

Este prestígio e o seu espírito conciliador davam-lhe a autoridade necessária para fazer de mediador nos confli­tos que surgiam entre os que eram da sua etnia, ou entre estes e os payos. Era tido como uma espécie de árbitro e de pacificador, e as suas intervenções eram sempre coroadas de sucesso. Os litigiosos acabavam por dar-se as mãos e tornar-se amigos. Assim afirmam várias testemunhas:

Román Celaya, que era vizinho da casa do Pelé, de­pois de ter falado da sua grande honestidade e do prestígio de que desfrutava entre os payos e ciganos afirma: "Se alguma vez havia litígios entre os ciganos, ele era pacificador nos matrimónios ou em qualquer outro problema existente entre os ciganos". (Summ, p. 48, 9)

Angel Tornés, que recolheu aquilo que se dizia do servo de Deus depois da sua morte, afirma: "Entre a etnia cigana era o homem que anulava os conflitos entre os seus companheiros de etnia servindo de juiz e pacificador dos mesmos." (Summ, p. 25, 3)

O P. Fandos refere-nos aquilo que diziam dele, os seus familiares e amigos no que se refere a este aspecto:

"Os seus familiares e os amigos elogiavam a capacida­de especial que possuía para intervir nos pequenos conflitos que surgiam entre os da sua etnia. Dava um pouco de razão a cada um dos litigantes apagan­do os motivos da ofensa recíproca. Em geral, a sua intervenção era considerada justa e aceite." (29)

 

8. Um cristão modelar. As suas virtudes.

O biógrafo do servo de Deus que o acompanhou de perto e que conhecia a sua religiosidade, afirma que não sabe quem lhe deu as primeiras lições de teologia, mas que de certo ele possuía uma profunda espiritualidade. Não era um homem supersticioso, ou de uma religiosidade superfi­cial, porém tinha "convicções religiosas muito enraizadas". (Test. 19 Summ, p. 41) Como nas almas santas, podemos pensar que foi o Espírito Santo a guiá-lo. É interessante a este respeito o que afirma a testemunha Rufino Vidal que participava com o servo de Deus na Adoração Nocturna: "Se bem que não tivesse instrução literária, sendo analfabe­to, todavia tinha muita formação espiritual; a vida espiritu­al vinha-lhe de dentro." (Summ, p. 23, 8) Uma prova da sua profunda espiritualidade era a sua resignação cristã e o fac­to de ver a mão de Deus em todas as coisas. Tanto que, refere Nicolás Santos de Otto que nas adversidades, ou nas desgraças, o servo de Deus dizia sempre: "Deus assim quis, Ele o sabe. Louvado seja o Senhor." (Summ p. 42)

O autor da sua biografia diz-nos desde quando o ser­vo de Deus se dedicou aos exercícios de piedade. Talvez tivesse influência sobre ele a amizade com Nicolás Santos de Otto (cf. Summ p. 14,8), famoso em Barbastro pela sua religiosidade, como sugere o Rev. Santos Lalueza. E não se pode excluir, como já dissemos, que tenha regularizado a sua união matrimonial pelo matrimónio canónico em 1912, por motivos religiosos. O facto de que, em particular, re­zasse em língua catalã, como afirma Maruja, (cf. Summ p. 20, 6) faz pensar que tinha aprendido as orações em criança, quando vivia na Catalunha.

Certamente que depois de ter celebrado o matrimónio religioso, continuou fiel à prática da religião. Algumas testemunhas que o conheceram naqueles anos afirmam que o viram frequentar a igreja.

 

O P. Fandos afirma que assistia regularmente à Missa quotidiana "na igreja dos Missionários ou na sua paróquia de S. Francisco." E acrescenta:

 

"Corria voz que na sua boa família se rezava o terço todos os dias. E os ciganos afirmam que mantinha assim a promessa que tinha feito por um milagre que Nossa Senho­ra do Rosário fizera em seu favor. (30)

Sobre a  sua devoção eucarística refere ainda a seguinte história da qual foi testemunha ocular:

"Em 1922 encontrava-se na igreja consagrada ao Co­ração Imaculado de Maria, em frente de um grupo de homens que pertenciam à Confraria das Quintas Fei­ras Eucarísticas. Eram como que a aristocracia espiritual de Barbastro: os senhores Pascau, Gravisaco, Puig, Gavás, Juseu (...). Perguntei-lhes se, no caso de ser preciso, con­vidariam para tomar parte no coro, o tio Pelé que, sem faltar, participava todas as quintas feiras no rito. A proposta foi imediatamente aceite. Desde então viu­-se o bom Zeferino participar regularmente nas pre­ces e nos cantos com os homens mais prestigiados de Barbastro. (31)

As testemunhas interrogadas pelo tribunal confirmam o que escreve o P. Fandos sobre a religiosidade do Pelé e acres­centam até outras circunstâncias.

José Cortés afirma que desde que o conheceu (antes de 1915 porque a testemunha nasceu em 1908 e conhe­ceu-o em  criança), o viu frequentar a igreja. (cf. Summ p. 5, 8) Román Celaya, nascido em 1913 era vizinho do Pelé e tam­bém ele o viu sempre frequentar a igreja e lembra-se de o ter visto comungar nas solenidades. (Summ, p. 10, 8) A testemunha refere-se certamente à segunda década do sé­culo.

Pode-se provar com testemunhas que a partir dos anos 20, e até antes, já era muito religioso; participava na Missa e rezava o terço todos os dias.

Delfina Amal Girón, uma idosa de 94 anos, de Barbastro, lembra-se de que Zeferino era madrugador.

"Via-o que ia à Missa com a minha mãe entre as seis e as sete (a primeira Missa do dia). Eu conheci-o quan­do ainda não estava casada e lembro que estava a lim­par o passeio diante da minha casa. Um cigano di­zia-me: "Olha esta, quer mostrar que é uma trabalha­dora, assim poderá casar." E a mulher acrescenta: "não queria que se blasfemasse e repreendia os que ouvia imprecar. Dizia: o que é que Deus te fez? Deu-te a vida. Diante de mim não fales mal de Deus nem dos padres". (32)

Como observa o P. Mário Riboldi, considerando que a senhora Delfina casou entre os 17 e os 18 anos, ao dizer que via o cigano ir à Missa, ela refere-se aos anos 1917­-1918.

A testemunha Alexandro Mora depois de narrar como o Pelé foi desde a sua casa até à catedral de joelhos e com duas velas nas mãos, afirma que se tal coisa tives­se sido feita por outra pessoa, teria sido considerada objecto de gracejo. No caso do cigano não foi assim, porque todos conheciam a sua seriedade e a sua grande religiosidade. Considerando que isto acontecia depois do processo pelo suposto furto das mulas, isto é, perto do ano 22, temos de dizer que desde então já era considerado muito religioso.

Simón Sánchez Tolosa, ex-claretiano, em 1933 era sacristão da igreja dos claretianos de Barbastro e pôde obser­var "como o Pelé frequentava a igreja, assistia à Missa e recebia a comunhão diariamente". (Summ p. 8, 8)

Maruja, a sobrinha do servo de Deus nascida em 1924, lembra que "o tio Pelé frequentava a igreja e a levava consi­go assim como à irmã .(...) Gostava muito de rezar o terço. (...) Lembro que as suas orações particulares rezava-as em catalão" (Summ p. 20, 9). Amparo Cenizo, nora da filha adoptiva do servo de Deus, acrescenta ter "ouvido dizer muitas vezes à minha sogra que o Pelé ia à Missa e recebia a comunhão e rezava o terço em casa". (Summ p. 26, 8) João Broto, acólito, no final dos anos 20, na igreja dos claretianos, via o servo de Deus "ir à Missa todos os dias e ocupa­va sempre os últimos bancos". (Summ p. 33, 3)

Nicolás Santos Otto, que o acompanhou intimamen­te por mais de 15 anos, afirma que "era um homem muito firme nas suas convicções religiosas". (Summ p. 40, 3) E acrescenta:

"Trazia sempre o terço e via-se rezá-lo com frequên­cia. Quando caminhava nas estradas, sozinho, ou com outros, rezava-o sempre. Assistia sempre que podia ao Viático dos enfermos, à Missa, às Quarenta horas, assim como a outras cerimónias religiosas, das quais era considerado frequentador assíduo". (Summ p. 41)

Maria Carlota Santos de Otto que praticamente nas­ceu com o Pelé, confirma.

"que todos os dias ia à Missa e rezava o terço, porque eu mesma o vi muitas vezes com o terço e a nós (ao irmão Nicolás e a ela) pedia que o rezássemos com ele ( ... ) Ouvi dizer muitas vezes na minha casa que assistia à Missa todos os dias e que comungava". (Summ p. 43, 8)

Também José Castellón, filho do Ferruchón, amigo íntimo do servo de Deus, ouvira dizer ao seu pai "que o Pelé ia à Missa todos os dias, rezando também o terço." (Summ p. 48, 8)

Não tinha vergonha de manifestar a própria fé. Nas procissões era o primeiro e levava sempre uma vela acesa. Rufino Bruno lembra-se de o ter visto "guiar as procissões com uma grande vela". (Summ p. 47; cf. tam­bém p. 40)

Não se limitava às manifestações exteriores da fé. A sua profunda espiritualidade levava-o a tomar parte daque­las associações que cultivavam a oração, a vida religiosa, a contemplação, a caridade, como as Quintas feiras Eucarísticas, a Adoração Nocturna, a confraria dos Terceiros Franciscanos, (TOF Terceira Ordem Franciscana),  as Conferências de S. Vicente de Paulo. Como já dissemos, o P. Fandos, animador das Quintas feiras Eucarísticas, em 1922 pedia aos membros da confraria se podiam admitir no grupo coral o Pelé que todas as quintas feiras assistia aos actos de culto eucarístico. A resposta foi unânime, porque todos conheciam a religio­sidade do cigano Pelé. (33)

Quatro anos depois, em 1926, os capuchinhos deci­diram criar na igreja de S. Francisco, a Terceira Ordem Fran­ciscana, a qual foi erigida depois de um tríduo de prepa­ração. Além do bispo da cidade, tornaram-se terceiros os 11 sacerdotes, 33 seminaristas e 114 leigos. Naquele dia tomou o hábito também o Pelé, o qual entre tantos tercei­ros leigos foi escolhido para ser um dos 10 conselheiros da confraria. Isto mostra-nos a estima de que gozava o servo de Deus.(34)

O Rev. Santos Lalueza, então seminarista, lembra o acto solene da erecção da Terceira Ordem Franciscana, no qual participou com outros seminaristas e "atraiu parti­cularmente a nossa atenção o facto de se encontrar aí um cigano alto, escuro, que nas mãos tinha uma bandeira dos terceiros. Interpretámos tudo muito favoravelmente." (cf. Summ p. 13,4)

 

9. Apóstolo entre as crianças

O P. Fandos, na biografia do Pelé, afirma que o servo de Deus "não tinha apenas um comportamento exemplar e edificante e rezava mas era um apóstolo convicto da fé. (35) Efectivamente ele procurava por todos os meios difundir a fé, à sua maneira, em primeiro lugar ensinando às crianças cantos religiosos, narrando-lhes histórias piedosas e levan­do-os a rezar.

O mesmo P. Fandos transcreve a narração de D. Gló­ria Castellón, certamente irmã da testemunha José Castellón, escrevendo

"que muitas vezes reunia as crianças do bairro e leva­va-as ao campo aparentemente para apanhar "cenojo" - uma erva comestível – mas, na realidade, para a catequese, narrando histórias da Bíblia e da Pátria e para ensiná-las a cantar cantos de igreja. Exor­tava as crianças a respeitar os passarinhos e as formi­gas. Acabava por lhes oferecer chocolate. (36)

Vivem ainda testemunhas do tempo do servo de Deus, que quando eram pequenas, as convidava a rezar, levava-as a passear e narrava-lhes histórias piedosas. José Cortés, ciga­no, testemunha ocular, declara:

"Recolhia muitas crianças, ciganos e camponeses, e ensinava-nos a rezar, contava-nos histórias e dava-nos a merenda." (Summ p. 5, 9)

Román Celaya narra que fazia parte de um "grupo de amiguinhos". O Pelé tratava-os com carinho e procura­va educá-los:

"Algumas vezes, refere a testemunha, reunia-nos em volta dele e levava-nos para fora da aldeia, dava-nos conselhos que nós ouvíamos com muita atenção e deixavam uma marca na nossa educação." (Summ. p. 11,9)

Nicolás e Maria Carlota Santos Otto lembram com  carinho as piedosas histórias que o Pelé lhes narrava com o intuito de os educar na fé: "Narrava-nos, declara Nicolás, ­muitos contos e "histórias" como a de Santa Genoveva de Bravante. Enquanto as narrava mostrava-lhes tanta de­voção, quanta nós tínhamos, ouvindo-as" (Summ p. 41); o mesmo afirma Maria Carlota de Otto, irmã da testemunha. (cf. Summ, p. 43, 9)

Trindade Jiménez, sobrinha do servo de Deus decla­ra que "gostava muito das crianças e tratava-nos com muita ternura. Narrava-nos contos e histórias sempre de coisas religiosas e  levava-nos à igreja a rezar". (Summ p. 45, 4) André Jiménez, que nos anos 30 era criança, lembra que "o Pelé chamava os rapazinhos (oito ou dez) para irem re­zar a casa dele. Dizia-lhes para serem bons, não praticarem o mal".(Summ p. 53, 1) Sobre o afecto que o servo de Deus manifestava pelas crianças, Cf. Summ pp. 48, 9; 20, 9; 26, 9.

O P. Mário Riboldi junta o testemunho do Bomba, nascido em 1908, o qual afirma que:

"quando era pequeno subia com outros rapazinhos, alguns filhos de ciganos e outros filhos de campone­ses, guiados pelo Pelé, até à colina onde se encontra a igrejinha de S. Ramón (S. Raimundo, antigo bispo de Barbastro). Lá, em cima, o Kaló fazia-os rir nar­rando alguma coisa. Lembra depois que uma vez os rapazes viram muitas formigas e alguns começaram a pisá-las, mas Zeferino mandou-os parar dizendo que não os deviam molestar, porque "são de Deus". Um ou­tro cigano de Barbastro afirma que levava os meninos ao "chuiso de Bielsa" e punha-os em círculo e ensinava-lhes as orações e a serem bons". (37)

 

10. Amor pelos pobres

Expressão da fé e do amor do Pelé para com Deus era o seu amor pelo próximo. Sabemos pelo autor da sua biografia que pertencia às Conferências de S. Vicente de Paulo e que também nos últimos anos da sua vida, durante os quais viveu em pobreza, "continuou a dar esmola aos pobres conforme podia". (38)

Quase todas as testemunhas falam das esmolas que o servo de Deus dava, das quais muitos deles beneficiavam. José Cortés Gabarre, cigano, nascido em 1908, declara:

"Vi em várias ocasiões que na casa dele acolhia men­digos, dava-lhes roupa em bom estado e dinheiro, e tudo isto fazia-o acariciando-os e tratando-os com carinho". (Summ p. 5, 9)

Ao Rev. Santos Lalueza, o qual trabalhou muitos anos com os ciganos, foi referido que o Pelé era muito cari­doso tanto com os ciganos como com os camponeses. Con­taram-lhe também "que recorreu a ele uma jovem mãe ci­gana, que tinha um bebé que não podia amamentar e que não tinha dinheiro para comprar o leite. Zeferino deu todos os dias à cigana o dinheiro necessário para o leite do menino. (Summ 14,9)

Amparo Cenizo ouviu dizer à sua sogra Pepita, a filha adoptiva do servo de Deus, que:

"iam ter com ele ciganos pobres e ele esperava-os em casa, dava-lhes de comer e tratava-os com muito cari­nho chamando-os "tato". Uma testemunha acrescen­ta: "Ouviu-a dizer também que a um cigano pobre que fora ter com ele, o Pelé disse, levando-o à sua estrebaria: "toma o animal que quiseres e pagar-me­-ás quando puderes." (Summ p. 26, 9: Cf. p. 56, 2)

Os irmãos Nicolás e Maria Carlota de Otto, que vive­ram com ele vários anos afirmam que "era muito caridoso" e que "dava muitas esmolas". (Summ pp. 41 e 43,9)

Trindade Jiménez, uma das sobrinhas, afirma que praticava muitas obras de caridade e acrescenta:

"Quando nevava, ia pelas aldeias para ver de que po­diam precisar os ciganos pobres ia também a Barbastro. Ficou arruinado dividindo os seus bens com os ciganos pobres". (Summ p. 46)

José Castellón declara que a sua caridade era tal que não havia cigano em Barbastro e fora da cidade que não fosse ter com ele e que ele não assistisse "moralmente ou materialmente". Sua esposa Teresa não era tão generosa e por vezes repreendia-o e por isso, quando dava alguma coisa, "olhava para ver se a esposa o via" e dizia: "é para evitar problemas com a minha mulher (...) se posso, evito "il pas­ticcio". (Summ p. 489) Ou então dizia a quem ajudava:  "Toma, que ninguém saiba". (Summ p. 53, 5)

Já lembràmos o acto de caridade heróico narrado pelo P. Fandos, isto é, o facto de ter socorrido um doente de tuberculose que tivera um vómito de sangue apesar do terror provocado pela doença pelo perigo do contágio. A tes­temunha Isabel Jiménez, sobrinha de Pepita, afirma:

"Ouvi contar que numa ocasião na qual um doente de tuberculose teve um vómito de sangue, ele aproxi­mou-se, limpou-o, tomou-o pelos ombros e levou-o a casa; e que o fez, apesar de nós ciganos sermos muito escrupulosos perante as doenças, pelo temor do con­tágio e mais ainda naqueles tempos quando a tuber­culose era tida como uma doença incurável". (Summ p. 30,9)

Uma prova do facto de que a sua caridade era inspirada pelo espírito sobrenatural, era que não fazia distinção en­tre os payos e os ciganos, porque ajudava todos e que o seu amor se estendia até aos seus inimigos. Declara neste sen­tido Nicolás Santos de Otto:

"nunca teve palavras duras para com os seus inimigos ou para quantos pensavam ou agiam de maneira di­ferente daquela com a qual ele acreditava que se devia pensar e agir. Quando se referia a eles era apenas para os desculpar ou para se compadecer dos seus erros". (Summ p. 41)

Nunca falar mal de ninguém e o amor para com os inimigos são sinais que distinguem os santos, e estas vir­tudes não faltavam ao servo de Deus, que alguns ainda em vida consideravam santo.

 

II. O MARTÍRIO

Ainda que existam discordâncias entre as testemunhas no que se refere ao dia no qual o servo de Deus foi preso e sobre a data do martírio, as declarações são unânimes quan­do se referem ao martírio material tanto dos companheiros, como do servo de Deus e àquilo que o provo­cou. Unânimes são também as declarações sobre a fama de santidade e do martírio que existiu desde o primeiro mo­mento, tanto entre os ciganos como entre os camponeses. A seguir vamos expor todos estes pontos, procurando iluminá­-los à luz das declarações das testemunhas e dos documentos.

 

1. A prisão do servo de Deus

Todas as testemunhas coincidem afirmando que o servo de Deus foi preso por ter defendido um sacerdote, que alguns militares tinham detido na estrada e pelo facto de levar um terço no bolso.

Não se sabe absolutamente ao certo o dia no qual foi preso. Segundo o P. Fandos foi preso "sábado 19 de Julho" (39).

Também a testemunha Simón Sánchez que, naquele tempo, era claretiano e sacristão da igreja dos claretianos, afirma que o Pelé foi preso em 19 de Julho, domingo:

 

"O Pelé foi detido na praça S. Francisco, saindo da paróquia com o pároco, no domingo 19 de Julho. (40) Foi o P. Munárriz C.M.F. que o disse: "Prenderam o Pelé e o pároco. Estamos perdidos." E prenderam-no apenas porque defendeu o pároco. Perguntaram-lhe se trazia armas e ele mostrou o terço. Também isto disse o P. Munárriz. (Summ p. 8, 13)

A mesma testemunha, em várias cartas de 1993 dirigidas ao postulador de Barbastro, afirma várias vezes que o Pelé foi detido em 19 de Julho, com o pároco da igreja de S. Francisco. (40) Naquele mesmo dia, o P. Filipe de Jesus Munárriz, superior dos claretianos, disse-lhe para pres­tar atenção se via alguma coisa estranha na Missa do do­mingo. (cf Summ pp. 59-60)

Esta testemunha tem, sem dúvida, grande valor porque se ouviu a notícia da prisão do servo de Deus, directamente da boca do P. Munárriz, isto quer dizer que deve-a ter ouvido antes de 20 de Julho, porque na­quele dia prenderam o P. Munárriz, que a testemunha não voltou a ver.

A mesma coisa afirma Nicolás Santos de Otto:

"Logo que chegámos a Barbastro, surpreendeu-nos o 19 de Julho. Naquele dia, com a aflição de se informar e de nos informarmos sobre aquilo que acontecia na es­trada, saiu para dar uma volta. E não voltou". (Summ p.42)

Maria Carlota de Otto indica-nos o dia no qual prenderam o Pelé, mas afirma que ele se encontrava na casa da família Otto e o pai da testemunha convidou-o a dar uma volta na cidade para ver o que acontecia. (Cf. Summ p. 44, 13) Isto quer dizer: primeiro, que não saiu da casa da filha adoptiva, como afirma Maruja, mas sim da casa dos Otto e, segundo, que era precisamente o primeiro dia da revolução, porque não sabia o que esta­va sucedendo e por isso Nicolás Otto mandou o cigano inspeccionar a cidade.

Por outro lado, temos outras testemunhas que afir­maram que o Pelé foi um dos primeiros a ser preso. As­sim, Alexandre Morá Sesé, numa declaração feita diante do P. Gabriel Campo, claretiano, em11-XII-1993, afir­ma que o Pelé "foi um dos primeiros detidos em Barbastro". (Proc. f. 176)

Todavia há quem diga que o servo de Deus foi preso no sábado, 25 de Julho, pelas seguintes razões: em primeiro lugar, Maruja, que nas suas diversas de­clarações mostrou possuir uma memória invejável nomea­damente no que se refere às datas, afirma que foi preso no sábado. E lembra-se bem, por um pormenor importante: a mãe dela disse-lhe que devia sair um momento para com­prar grão-de-bico porque no dia seguinte era domingo e as mercearias estavam fechadas.

 

"Não me lembro precisamente qual o dia do mês no qual foi preso. Lembro-me que era sábado porque ouvi dizer à minha mãe: "devo ir a comprar grão-de-bico porque amanhã está fechado" Minha mãe disse ao tio Pelé para não sair naquela noite porque tinha visto uns homens armados de espingardas. (...) Não sei porquê, porém, apesar do aviso recebido, o Pelé saiu de casa e minha mãe foi procurá-lo e ele já estava na cadeia.

Perguntou porquê e responderam-lhe que o tinham prendido quando defendia dois sacerdotes. (...) Na cadeia ficou 15 dias". (Summ p. 21)

E numa declaração extrajudicial acrescenta:

"Foi na noite de sábado. As mercearias não tinham ainda fechado. (...) Foi no primeiro dia em que passa­ram por Barbastro homens armados de espingardas." (Summ p. 57)

A testemunha afirma não apenas que era sábado, mas indica também uma circunstância importante que confir­ma aquilo que afirmou, isto é que a mãe foi à mercearia porque no dia seguinte, domingo, estava fechada.

Então não podia ser sábado, 18 de Julho porque aque­le dia foi um dia pacífico e à noite os motoristas de táxi puderam celebrar a festa de S. Cristóbal com um passatem­po nocturno. Somente depois disto começou a notar-se qualquer coisa de anormal e à meia-noite a Frente Popular apoderou-se do poder.

Várias testemunhas  afirmam com o  P. Fandos, que o servo de Deus foi preso por ter defendido um dos sacerdo­tes que os milicianos iam prender.

Logo, o primeiro sacerdote não foi preso no sábado 18, mas sim no domingo 19.

A testemunha José Cortés Gabarre, numa declaração extra judicial, diante de Dom Mário Riboldi afirmou que os ciganos, naqueles dias, isto é, depois do 19 de Julho, esta­vam escondidos, enquanto o Pelé, dava voltas sem preocu­pações e trazia notícias. (41)

Dom Francisco Trell, sacerdote, numa declaração pronunciada diante do P. Gabriel Campo,  no dia 24 de Maio de 1994, afirmou que era seminarista e que "nos primeiros dias da revolução estava escondido em casa de um amigo e ele (o Pelé) trazia-lhe as notícias". (42)

A testemunha Román Celaya, numa declaração de 13, 14 de Fevereiro 1993, afirmou diante do P. Gabriel Campo que "durante os primeiros dias da revolução evitava-se matar os ciganos e também os estrangeiros". (Proc. f. 180) Uma das testemunhas que estava encarregada do depósito geral de Barbastro, transformado em cadeia, nomeia aque­les que foram presos no domingo 19 de Julho 1936 entre eles Dom José Martínez, tenor da catedral e aponta o núme­ro de outros presos mas não o cigano, coisa estranha por­que teria chamado a sua atenção:

"Levaram ao depósito municipal um residente de Barbastro que certamente devia ser irmão do declarante e pretendiam que fosse posto na cadeia - o declarante não o permitiu até que chegasse a ordem… Pouco depois foi tra­zido e encarcerado no depósito municipal um sacerdote que se chamava D. José Martínez, depois D. José M. Claver, e o número dos detidos chegados ao depósito aumentou tanto, depois de três dias, já eram 85". (43)

O testemunho de Simón Sánchez, exclaretiano, não re­sulta muito credível porque afirma que o servo de Deus foi preso no domingo, 19 de Julho, juntamente com o pároco de S. Francisco, dom Mariano Frago. Então, como se lê no livro "Martírio da Igreja de Barbastro", este sacerdote foi preso no dia 21 de Julho na sua casa. (44)

O P. Fandos afirma que quando o servo de Deus foi conduzido à cadeia, encontrou aí "D. Félix Sanz, o cónego D. Mariano Sesé, o Rev. Martínez, tenor da catedral, um padre beneditino, um padre esculápio e os sacerdotes do Coração de Maria: Filipe Munárriz, João Diaz e Feliciano Pérez", pois que estes sacerdotes tinham sido presos nos dias 20 e seguintes. Se o Pelé os encontrou na cadeia, isto quer dizer que ele foi preso depois do dia 20.

 

Conclusão

Como se pode ver, há motivo para apoiar tanto a pri­meira como a segunda hipótese. E talvez a declaração de quantos afirmam que foi preso no dia 19 pode concordar com a declaração da Maruja a qual afirma que foi preso num sábado, logo a 25 de Julho. Em primeiro lugar, Maruja diz que o Pelé se afastou de casa um sábado. De qualquer modo o Pelé podia ter saído de casa à tarde de sábado, 18, e ir dormir a casa dos Otto, para sair no dia seguinte, domingo, ir à Missa e ser preso à saída da igreja, como afirma a testemunha Simón Sánchez. Tenha-se presente que Maruja diz que era "o primeiro dia que em Barbastro passavam ho­mens armados de espingardas." (Summ p. 57)

Por outro lado, também têm grande valor as razões apresentadas por Dom Mário Riboldi, ao qual José Cortés Gabarre e P. Trell teriam dito que começada a revolução, o Pelé circulava pela cidade e trazia notícias enquanto eles ficavam escondidos.

De qualquer modo, que o servo de Deus tenha sido preso no dia 19 ou no dia 25 de Julho não altera a substância das coisas. Importante é o facto que ele foi preso por ter defendido a fé em Cristo, sendo isso mais que provado, porque todas as testemunhas afirmam que foi preso por dois moti­vos: por ter defendido um sacerdote que tinham detido e por levar nas mãos um terço.

O servo de Deus foi levado certamente ao convento das Capuchinhas onde se encontravam pelo menos 350 presos entre os quais os padres claretianos já mencionados (45) e ficou ali até ao dia em que foi fuzilado.

 

Motivos da Prisão

Segundo o P. Fandos o motivo da prisão foi o facto de ter tomado a defesa "de um jovem sacerdote que procu­rava libertar-se no meio de um grupo de milicianos."

O servo de Deus apostrofou os milicianos com estas palavras:

"Ajudai-me, ó Virgem! Tantos homens contra um e por sinal inocente!"

Os milicianos lançaram-se contra ele e inquirindo-o encontraram no bolso um canivete corta-papéis e um sim­ples terço. Bastaram estes sinais para que fosse levado à cadeia do partido" (46)

Todas as testemunhas confirmam o que refere o P. Fandos, isto é, que foi preso por ter defendido um sacerdo­te (cf. Summ, pp. 6, 13; 22,13; 27,13; 28,13; 34,13; 36,13; 38, 13; 44, 44). Algumas testemunhas afirmam que não se tratava de um, mas certamente de dois sacerdotes; (cf. Summ pp. 30, 13; 48, 4; 58) (47) com pequenas diferenças, referem a frase que o cigano teria pronunciado contra os mili­cianos: "Tanta gente para prender um prior!" (Summ p. 27, 13) "Ajudai-me oh Virgem! Não tendes vergonha de levar assim um homem que não fez nada e ainda por cima assim tan­tos?" (Summ p. 42)

As testemunhas Rev. Pablo Pueyo, Rev. Santos Lalueza, Adela Jiménez e Dolores Ibarz Aznárez indicam também como motivo da detenção o facto de levar um terço no bolso. (cf. Summ pp. 35, 12, p. 15, 13; p. 31,13; p. 51,13)

 

2. Atitude do servo de Deus frente ao martírio

Quando nos anos 60 recolhia notícias para escrever o livrinho sobre o Pelé, o P. Fandos conseguiu interrogar três companheiros de cárcere do servo de Deus que se salvaram, no último momento. Eles afirmam que na cadeia o servo de Deus dedicava-se à oração.

Escreve o P. Fandos:

"Sobrevivem ainda alguns daqueles que foram seus companheiros de cadeia como o comerciante D. Vi­cente Bruno, o empregado D. Mariano Sanz e o agri­cultor D. José Subías falam do seu recolhimento e do seu viver num clima de oração". (48)

Rufino Bruno Vidal ouviu dizer ao seu irmão Vicen­te Bruno, um dos companheiros de cadeia do servo de Deus, que "na cadeia (...) rezavam o terço". (Summ p. 23, 20)

Várias testemunhas souberam pela Pepita, a filha adoptiva, que ia levar-lhe todos os dias a comida à prisão, que passava horas a rezar o terço, até ao ponto de pôr em perigo a vida para testemunhar a própria fé. Pepita supli­cou-lhe muitas vezes, com lágrimas, para não rezar o terço, não se gabar da sua fé, porque o matariam. Recorreu até ao anárquico Eugénio Sopena, um dos membros mais in­fluentes da junta Revolucionária, para que salvasse a vida do Pelé, que ela estimava muito. Sopena procurou mais de uma vez convencer o servo de Deus a entregar-lhe o terço e a dissimular a sua condição de católico, mas não conse­guiu. O cigano não quis entregar-lhe o terço porque, como afirma a testemunha André Jiménez, cigano, "o terço signi­ficava a fé em Cristo e recitá-lo significava rezar." (Summ p, 54, 9) E continuou a rezar o terço na prisão.

Maruja, filha de Pepita, que tinha 21 anos, viveu todo o drama e lembra o sofrimento da mãe.

"A minha mãe levava-lhe comida à cadeia e, por ve­zes, acompanhava-a a Teliné. Soube que rezava o ter­ço na prisão e que Pepita pediu a Eugénio Sopena, muito amigo da família, que o ajudasse a sair e a con­seguir que lhe entregasse o terço. Eugénio Sopena respondeu que procurara fazê-lo muitas vezes mas que o Pelé não lhe dava atenção". (Summ p. 21, 14)

Clotilde Jiménez, a Teliné, era filha de Pepita e tinha 10 anos, tendo nascido em Junho de 1926. Também ela, lembra perfeitamente o drama vivido em família, quando o Pelé estava detido. Transcrevemos a declaração que fez diante do P. Gabriel Campo Villegas, C. M. F. em Castell de Fells em 3-XII-1993:

"Eugénio Sopena era "uma linda pessoa". Vivia com a mãe no último andar da nossa casa. A casa era alu­gada pelo avô Menino, irmão do Pelé. O Pelé estava com D. Nicolás. Minha mãe, a Pepita, dizia a Sopena:

"Eugénio, tira-lhe o terço". E Pepita ia e dizia-lhe: "Tio, não rezes tanto. Dá-me o terço. Atira-o, atira-o, antes que alguma coisa se possa passar contigo." E Pepita saía com dor de cabeça. Não conseguira convencê-lo. Repetia-lhe: fuzilar-te-ão! " Eugénio Sopena pediu muitas vezes ao Pelé que lhe entregasse o terço. Mas não conse­guiu." (Summ pp. 54-55, 2)

 

Amparo Cenizo, nora de Pepita, ouviu muitas vezes a sogra dizer que quando o Pelé estava na cadeia, levava-lhe a comida e dizia-lhe muitas vezes

 

"para entregar o terço porque o matariam"; também Sopena insistiu muitas vezes para que entregasse o terço. Ele rejeitou sempre, dizendo que era o único que tinha. E talvez se salvasse da morte se tivesse en­tregado o terço. Penso que assim como estavam as coisas naquele momento, o servo de Deus sabia que o iriam fuzilar, se não renegasse a própria fé. To­davia não apostatou da sua fé. Antes preferiu mor­rer." (Summ p. 27, 14)

Quase unanimemente as outras testemunhas afirmam que o servo de Deus rezava o terço na cadeia, pondo em perigo a própria vida. (cf. Summ, pp. 6, 15; 15, 14; 13,18; 42; 44; 49,14). Acrescentam que uma personagem influen­te da Comissão, para o salvar, pediu-lhe para lhe entregar o terço e para não mostrar a sua religiosidade, mas o servo de Deus preferiu enfrentar a morte. (cf. Summ pp. 6, 15; 15, 14;30,13;34,13-15;44,15;46;49,14)

Na base de fontes fidedignas, o P. Fandos afirma que o servo de Deus morreu gritando: ''Viva Cristo Rei!" (49)

Efectivamente Telesforo Jordán de Urriés, parente de Nicolás de Otto, escreveu em 1965 ao P. Fandos dando-lhe algumas notícias do Pelé; além do mais dizia-lhe que era voz comum em Barbastro, logo depois da guerra, que o servo de Deus tinha morrido ao grito de: "Viva Cristo Rei!" (50)

Várias testemunhas confirmam o facto, entre elas José Cortés que ouviu "num comentário feito por alguns inimigos da religião" (Summ p. 7, 22) e às irmãs Trindade, Clotilde e Laura Jiménez, filhas de Pepita. (Summ pp. 46; 55, 4)

O Rev. Andrés Carrera Puértolas, que era semina­rista e que no primeiro de Agosto foi enviado como soldado a Barbastro, lembra-se perfeitamente "dos comentários que se faziam naqueles dias sobre o cigano Pelé: "quando o levavam para ser fuzilado com muitos outros, no cemitério não cessava de gritar: "Viva Cristo Rei, e morreu com o terço na mão." (Summ, p. 60)

 

3. O martírio material

Não existe a certeza absoluta, nem sequer quanto se refere à data do martírio. O P. Gabriel Campo, seguindo o P. Fandos, afirma que o Pelé foi martirizado juntamente com os três padres claretianos, no dia 2 de Agosto de 1936. (51)

O P. Fandos afirma que o servo de Deus foi conduzi­do ao cemitério e fuzilado "em 2 de Agosto de 1936, perto das três da manhã, juntamente com 19, entre eles sacerdotes, religiosos e distintíssimos cristãos." (52)

Também Simón Sánchez, ex-religioso claretiano, afir­ma que o servo de Deus foi assassinado no dia 2 de Agosto de 1936. (Summ p. 9, 17) Román Celaya sabe apenas que o martírio teve lugar nos primeiros dias de Agosto". (Summ p. 12, 17)

Uma das testemunhas que depuseram na causa pe­nal contra A. Avellana, Conrado Mur Peropadre, afirma ter sido preso em 22 de Julho, ter estado primeiro na cadeia do partido, sendo  depois transferido para o convento das Capuchinhas e continua:

"Uma noite levaram vinte e cinco presos para serem fuzilados; entre eles lembra que estavam Fernando Gagas, Dom Tomás Andanuy, sacerdote, os Perrelas, pai e filho, o P. Crisanto, esculápio, o cigano conheci­do por Creus, alguns padres missionários e outros que não lembro, que o Avellana ia chamando nas suas celas". (Summ pp. 77- 78)

A lista das pessoas indicadas pela testemunha coinci­de quase completamente com a lista, menos exacta, da rela­ção que se faz na Causa geral ou em que se escrevem, dia a dia, os nomes dos fuzilados na cidade de Barbastro.

"No dia 2 de Agosto de 1936, por ordem da Comissão, tiraram da prisão do partido, com a autorização sobredita, o ill.mo  Senhor dom Mariano Sesé, cónego, o Rev. Sr. dom Tomás Andanuy beneficiado, o Rev. Sr. dom José Martinez, tenor da catedral, o Rev.  dom Mariano Frago, da paróquia de S. Francisco, o Rev. Sr. dom Victorino Puyol, da paróquia de Nossa Senhora da Assunção, o Rev. Sr. dom Manuel Falceto, sacerdote, o Rev. Sr. dom Mariano Puig, sa­cerdote, e os Rev.do P.P. Félix Munárriz, João Diaz e Leóncio Pérez juntamente, com Salvador Perrela Estadinti, mecânico e Fernando Gabas Garcia, proprie­tário, os quais foram assassinados no caminho Velho de Saragoça na zona chamada "La Forca", situada no limite municipal de Barbastro" (53)

O documento engana-se, ao indicar o lugar do fuzila­mento, porque se sabe que este aconteceu no cemitério e esquece os nomes do padre esculápio, Crisanto Domíngues, de Gonçalo Creus, oficial do exército e do servo de Deus Zeferino Jiménez Malla que indica entre os fuzilados em data desconhecida na primeira quinzena de Agosto (54) e que, conforme a testemunha Conrado Mur, já citada, fo­ram fuzilados no mesmo dia dos padres claretianos.

Então sabe-se com certeza que os P.P. Filipe de Jesus Munárriz, João Diaz Nosti e Léoncio Pérez foram martiri­zados no dia 2 de Agosto e, portanto, também o servo de Deus teria sido fuzilado no mesmo dia.

Por outro lado a testemunha Alexandre Sesé afirma saber que ele foi "entre os primeiros que mataram". (Summ p. 33, 14-22) E numa declaração extra judicial feita diante do P. Gabriel Campo, acrescenta: "Assim como a morte do Pelé foi entre as primeiras, a notícia soube-se e circulou logo. Não estávamos ainda acostumados. Porque era entre os primeiros, produziram um golpe maior". (Proc. p. 177) Tam­bém a testemunha Dolores Ibarz afirma que o fuzilaram "junto ao   muro do cemitério e durante os primeiros dias da revo­lução." (Summ p. 51, 14-23)

Apesar disso, dom Mário Riboldi afirma que o servo de Deus não foi martirizado em 2 de Agosto, mas sim no dia 8 ou mais provavelmente no dia 9 do mesmo mês. Efec­tivamente se, como foi dito, o Pelé foi preso a 25 de Julho e ficou na cadeia quinze ou dezasseis dias, como afirma Maruja, (55) deve ter sido martirizado em 8 ou 9 de Agosto. (56)

Escreve D. Mário Riboldi:

Na noite de 9 de Agosto de 1936, entre o sábado e o domingo mataram o bispo Florentino e com ele prova­velmente o padre beneditino Mariano Serra Almaroz e outros ainda: eram treze pessoas ao todo. Estaria tam­bém Zeferino Jiménez Malla entre os fuzilados? Talvez sim, se as contas feitas não nos enganam." (57)

Por outro lado, como declarou Román Celaya no seu testemunho de 13-14 de Fevereiro de 1993, nos primeiros dias evitavam matar ciganos e estrangeiros. (cf. Proc. f. 180) Seria de estranhar que fosse mesmo o cigano um dos primeiros a ser fuzilado.

Também aqui podemos concluir dizendo que pouco importa que tenha sido fuzilado no dia 2 ou 8 de Agosto. Importante é saber que foi martirizado por ter professado a fé.

 

Fuzilamento no cemitério de Barbastro

Ainda que não se possa indicar com certeza absoluta a data, sabe-se que o servo de Deus foi fuzilado no cemité­rio de Barbastro, juntamente com outras pessoas.

Conforme o que narra a testemunha José Castellón, filho de "Ferruchón", íntimo amigo de Pelé, este não mor­reu à primeira descarga e foi um tal Bellostas a dar-lhe o golpe de graça". Ouviu-o muitas vezes da boca do seu pai, o qual por sua vez, ouviu-o de um daqueles que assistiu ao fuzilamento.

 

MORTE HERÓICA COM O TERÇO NA MÃO

"Aquele que influiu bastante na sua morte foi um tal "Bellostas" que vivia na mesma rua do Pelé; quando fuzilaram os sacerdotes e os leigos, o Pelé não morreu à primeira descarga de golpes, logo "Bellostas" disse: "O cigano vive ainda é o melhor" e disparou de novo ma­tando-o. Soube isto porque contou-me meu pai muitas vezes e ele ouviu-o de alguém que tinha tomado parte directamente no fuzilamento e que tinha uma pena muito grande porque no grupo dos fuzilados estava o Pelé. Esta mesma testemunha disse que o Pelé morrera com o terço na mão. (Summ, p. 49, 15, 22)

Das actas do processo penal contra os crimes de guerra, instituído pelo procurador-geral nos anos 40, sabe-se que, em geral, as vítimas, antes de serem lançadas na fossa comum eram despidas de tudo aquilo que traziam e por ve­zes até da dentadura. Depois amontoadas numa fossa co­mum, eram cobertas de cal viva e de água para que a cal fizesse efeito. Em seguida eram cobertas com a terra. As­sim confessa, entre os outros, Mariano Carruesco Amal, que ajudava o coveiro nesta triste tarefa. (cf. Proc. f. 206)

 

4. A causa do martírio ex parte tyranni

 

Está suficientemente provado que durante a guerra civil, houve na Espanha uma verdadeira perseguição religi­osa e que foram fuzilados milhares de sacerdotes e de reli­giosos, e também muitos leigos, apenas por ódio para com a religião.

Por aquilo que se refere à cidade de Barbastro, nos processos instituídos pelas causas dos mártires claretianos e do Bispo desta cidade, Florentino Asensio Barroso, está provado que tanto os sacerdotes como o Bispo foram fuzi­lados apenas por ódio para com a fé. No caso dos claretianos, a causa do martírio está fora de discussão: eles foram declarados bem-aventurados em 25 de Outubro de 1992. Tam­bém pelo que se refere ao caso do Bispo, sabe-se que ele foi martirizado "in odium fidei":

"Das declarações processuais deduz-se com toda a evidência e unanimidade de critérios que o assassí­nio do Servo de Deus deve imputar-se exclusivamen­te ao facto de ser Bispo e Sacerdote; procuravam des­truir a religião". (58)

No nosso caso, segundo quanto afirmam concordemente as testemunhas, não houve nem vingança pessoal, nem motivos políticos (o servo de Deus nunca entrou em políti­ca), nem questões de interesse, nem ódios acumulados por enganos, ou por maus negócios por parte do Pelé, porque ele era um homem pacífico, honesto e incapaz de fazer mal a quem quer que seja. Prenderam-no e depois mataram-no porque ele era um homem extremamente religioso, que manifestava publicamente a própria fé e porque amava levar consigo o terço e rezá-lo na cadeia.

Transcrevemos algumas declarações das testemunhas:

Román Celaya Puyuelo, nascido em 1913 que conheceu bem o servo de Deus, declara:

"Não me consta que tenha participado num partido político. Nunca ouvi dizer que o tenham assassinado por ódio pessoal ou por vingança. Estou convencido que tenha sido condenado à morte pelo facto de ter sido um cristão e uma boa pessoa." (Summ, p. 12, 19)

Rufino Bruno Vidal de 1904, que conheceu o Pelé quando era ainda criança, afirma:

"O único motivo que tinham para o matar era a sua religiosidade, que tinha manifestado publicamente várias vezes. Lembro-me de o ter visto abrir as procis­sões levando uma grande vela. Era, além disso um católico, conhecido como tal na cidade. Não perten­ceu a qualquer partido político, nem foi acusado por ódio ou vingança de qualquer tipo." (Summ p. 23, 18)

O testemunho de Angel Tornés não é menos explícito e significativo:

 

"Acrescento à minha declaração que o servo de Deus foi condenado pela sua religiosidade e não me consta que houvesse outros motivos, nem políticos, nem de interesse, nem sociais, nem de ódio pessoal. Creio que o ambiente daqueles dias era tal que tenha sido assassinado pela mesma razão pela qual mataram os sacerdotes e religiosos, isto é, por ódio para com a fé, assim como mataram também outros leigos pelo mes­mo motivo". (Summ, p. 26)

As outras testemunhas afirmam  o mesmo.

Transcrevemos algumas frases: "Por ser católico e amigo dos curas." (Summ, p. 6, 19) "Por ser um bom católi­co." (9,19) Porque levava o terço e era católico praticante." (22, 19) "Por ter defendido um sacerdote e porque levava consigo o terço." (27,19) Pela "sua religiosidade"; pelo "seu fervor religioso". (30,19; 34; 16-22) "Pelo ódio a respeito da religião." (31, 22b)

É certo que um algoz, António Avellana, que incitou os companheiros a tirar o servo de Deus da cadeia para o fuzilar, quando depois da guerra o julgaram, para defen­der-se disse tê-lo feito porque "tinha aversão por ele, porque o Pelé tinha enredado um seu parente de nome António, conhecido como o picador de Corzán, quando lhe vendeu um cavalo". (Summ, p. 78) A isto respondeu muito bem Maruja, filha de Pepita, dizendo que o Pelé não podia ter enganado nenhum parente de Avellana, "porque desde há muitos anos, já não tratava de negócios de cavalos; era pobre e vivia com D. Nicolás, como pessoa de confian­ça e este dava-lhe um salário." (Summ, p. 56)

Acrescentamos que parece muito estranho que A. Avellana só então se tenha lembrado da suposta gatunice do Pelé, enquanto antes não tinha dito nada. Por outro lado não conseguiu provar tal engano diante do tribunal.

 

5. A fama do martírio

Que em Barbastro tantos os camponeses como os ciganos considerassem o Pelé um verdadeiro mártir, declara-­o o Rev. Andrés Carrera que então era seminarista e que no dia 1 de Agosto foi enviado a Barbastro como soldado do quartel general. Naqueles dias todos comentavam o caso do cigano Pelé, que "quando o levavam ao fuzilamento com muitos outros no cemitério, não se cansava de gritar: "Viva Cristo Rei" e morreu com o terço na mão." (Summ, 60)

Efectivamente, como afirmam as testemunhas, todos, ciganos e camponeses, consideraram o servo de Deus, des­de o primeiro momento, como um verdadeiro mártir, que dera a vida em defesa da fé. Assim afirma por exemplo, Maruja, filha de Pepita:

"Desde o primeiro momento considerou-se que o Pelé tinha morrido por causa da sua fé e assim pensavam tanto os ciganos como os camponeses e continuam a crer ainda hoje. A geração actual continua a seguir esta versão sobre os motivos da sua morte." (Summ, p.22,22b)

José Cortés Gabarre, cigano, confirma esta fama de martírio do servo de Deus:

"Desde o primeiro momento, o servo de Deus foi con­siderado um mártir da fé. Assim o consideraram os ciganos e os sacerdotes e leigos, assim como eram considerados mártires os sacerdotes e os religiosos que tinham sido fuzilados com ele. Na minha casa reza-se pela sua alma e algumas vezes pedimos-lhe alguma coisa." (Summ p. 7, 22)

 

Os ciganos que fizeram declarações no processo afir­mam todos que, entre eles, o Pelé é considerado um mártir porque morreu pela fé e até se recomendam à sua interces­são. Assim afirmam Helena Jiménez Cenizo e Isabel Jiménez Cenizo respectivamente nora e sobrinha de Pepita. (Summ, p. 29, 22b; p. 30, 22b) José Castellón, cigano afir­ma que a sua família recomendava-se à sua intercessão:

"A minha família recomenda-se ao Pelé porque en­tendemos que seja um santo e temos a pagela com a oração particular aprovada pela Igreja." (Summ 49, 22b)

 

Também a família Santos de Otto considerou-o sem­pre um mártir e recomenda-se à sua intercessão, como afir­ma Maria Carlota de Otto:

 

"Em minha casa sempre o considerámos um verda­deiro mártir da fé e nalgumas ocasiões recomendá­mo-nos a ele para que nos ajude a resolver algum pro­blema." (Summ p. 44, 22b)

 

A fama não se extinguiu com o tempo, como sucede às vezes, mas ficou sempre viva, antes difundiu-se cada vez mais.

Nos anos 60, o P. Fandos começou a preparar o seu livrinho sobre o Pelé e por ocasião disso, avivou a memória do seu martírio. Em 1967 apareceram dois artigos no diário "EI Cruzado Aragonês" que lembravam a figura do cigano mártir. (Cf. Proc. f. 253) Nos anos 70, por quanto afirma o Rev. Pablo Pueyo, o P. Fandos insistiu para que fosse iniciada a causa de canonização, (Summ, p. 35, 23) e três anos mais tarde, em 1973, o mesmo P. Fandos publicou o livro intitulado "EI Pelé".

O próprio Bispo de Barbastro faz eco da fama que o, cigano teve sempre na cidade. Escreve na apresentação do livro de D. Mário Riboldi:

"Desde os primeiros dias da minha entrada na Dio­cese de Barbastro, há dezoito anos, a lembrança do Pelé ressoou constantemente no meu ambiente. Camponeses e ciganos renovaram a memória e admira­ção em várias ocasiões, sublinhando que nos primei­ros dias da sangrenta guerra civil deu a própria vida pela fé cristã que professava." (59)

O Rev. Santos Lalueza, ex-vigário geral da dioce­se, afirma que há cinco ou seis anos, o conselheiro dos ciga­nos da Polónia se interessara pelo Pelé, porque a fama do seu martírio chegara até àquele país. (Summ p. 16, 23)

D. Riboldi, mais preciso, afirma que o dito conselhei­ro se interessou pela causa do Pelé, precisamente em 1984.

A fama do martírio continua a ser viva, nos nossos dias, como afirmam várias testemunhas. (Summ pp. 24, 24; 36,24;44,24;49,24)

A abertura do processo de canonização suscitou gran­de entusiasmo entre os ciganos que acudiram, numerosíssimos, à cerimónia de abertura, como se pode ver em diver­sas fotografias publicadas no livro de Dom Mário Riboldi, e hoje, ciganos de várias nacionali­dades interessam-se pela causa.

 

Notas

1- Nicolau Santos de Otto afirma que o servo de Deus nasceu em 1865 (cf. Summ, p40). Por sua vez, Maruja, neta de Pelé, e Josefina Urgelés Pelayo, tinham afirmado a D. Riboldi que Pelé morreu com 75 anos de idade (cf. Riboldi, p. 13). Um documento encontrado recentemente e que fazia parte do assento de matrimónio deu razão a Maruja, donde se deduz que o servo de Deus nascera em 1861.

2- Em Espanha, os registos de nascimento começaram a partir de 1870. Até aí só existiam os registos de baptismo, nas igrejas, onde apareciam as datas de nascimento, de matrimónio e da morte dos fiéis. No Registo Civil de Fraga começou a registar-se a data do nascimento e do casa­mento e da morte em 1876, isto é, seis anos depois da data estabelecida pelo Governo.

3- FANDOS, Proc., p. 224

4- RIBOLDI, Infelizmente em Benavente o livro dos Baptismos foi destruído

5- RIBOLDI.

6- RIBOLDI.

7- O bandido Cucaracha era muito conhecido naquele tempo e naquela região chamada Los Monegros, que vai desde o Ebro a Cinca, nas provín­cias de Saragoça e de Huesca. O bandido caiu numa emboscada da Guar­da Civil em Fevereiro de 1875, quando tinha apenas 37 anos de idade. Portanto o servo de Deus era ainda um rapazinho quando o encontrou.

8- Cf. FANDOS, P. Summ, p. 64.

9- FANDOS, Summ.

10- Teresa, a mulher do servo de Deus, assina Giménez. É necessário ter em conta  que os ciganos escreviam o nome de Jiménez indiferentemente com J ou com G.

 

11- RIBOLDI.

12 - Cfr. Doc. 10, p. 87. No mesmo documento declara como testemunha Filipe Jiménez Malla, irmão do servo de Deus e é apresentado o bilhete de identidade, tirado no dia 15 de Julho de 1911 em Barbastro (cf. Proc. f. 140).

13- Por causa do incêndio da guerra civil espanhola, não foi possível encontrá-lo no acto matrimonial da paróquia de Lérida.

14- O P. Fandos afirma que adoptou legalmente Pepita. É mais provável que não se tenha tratado de uma adopção legal, mas sim de facto. Com efeito, no certificado do matrimónio de Pepita, diz-se que é filha de Ramon, já falecido, nascido em Saragoça, e de Beatriz, nascida e residente em Saragoça" (cf. Doe. 13, Summ, p. 90).

15- No acto matrimonial diz-se que a esposa chama-se Beatriz, enquan­to a sua filha é Maria dos Milagros (Maruja) que todos conhecem por Pepita. Seguramente, ao escrever o assento de casamento, o pároco  enganou-se.

16- RIBOLDI.

17- FANDOS.

18- No cadastro de Barbastro, propriedade nº 2301, correspondente à casa nº 31 da Rua de Santo Hipólito, diz-se que a dita casa é proprieda­de de Zeferino Jiménez tendo-a comprado a um tal Gregório Sehum.

19- FANDOS.

20- RIBOLDI, p. 89.

21 - RIBOLDI, p.87. O mesmo cigano Constâncio Ramiz, nascido no ano de 1909, numa declaração feita diante do P. Gabriel Campo dizia:

"Recordo que no dia do Processo de Pelé (não recordo se foi processo ou interrogatório) na estrada da Huesca, de El Coso, junto de El Pueyo, era costume a caravana dos ciganos acampar com os seus carros, por conselho de Pelé. Fomos vê-lo (Proc. f. 181). Não devemos admirar-nos do facto de acorrerem tantos ciganos tendo em conta o grande prestígio de Pelé e a solidariedade dos ciganos. Bastava que alguém tivesse algum problema grave para todos acorrerem a encontrá-lo e prestar-lhe ajuda.

 

22- RIBOLDI.

 

23- RIBOLDI, apresentando a árvore genealógica na página 36-37 do seu livro, falando do casamento de Pepita, a filha adoptiva de Pelé, indica apenas quatro meninas e um menino. Domite Trindade, nascida em 1927, depois de La Teliné e o Keti, e ainda Nuri, cujo corpo foi deposto no túmulo, propriedade de Pelé (Cf. Summ, pp. 89-90, doe. 12). Não se conhece a data de nascimento de Nuri, só se sabe que mor­reu no dia 6 de Junho de 1934.

 

24- RIBOLDI.

25- "El Cruzado Aragonés", Num. 2. 474, de 18.11.1967.

26- FANDOS, Summ. p. 67.

27- FANDOS, Summ, p. 66.

 

28- FANDOS. Summ. p. 66.

 

29- FANDOS. Summ. p. 66.

 

30- FANDOS, Summ. p. 68.

31- FANDOS, Summ. pp. 67-68.

 

32- RIBOLDI, p. 91.

 

33- FANDOS Summ.

34- Cf. a Revista "El Terciário Franciscano" XIV (1926) 154, pp. 334-335 Proc. f 124.

35- FANDOS. p. 19; Summ.

36- FANDOS, p. 16; Summ. p. 66.

37- RIBOLDI, p. 59.

38- FANDOS, p. 14; Summ. p. 65.

39- FANDOS, p. 22; Summ. p. 69. O P. Fandos engana-se quando diz que o dia 19 de Julho era domingo.

40- Na realidade, numa carta ele afirma que foi preso no dia 18 e noutra no dia 19 de Julho, mas diz sempre que foi num domingo; portanto no dia 19, porque o dia 18 era sábado.

41- Cf. RIBOLDI, “ Un vero Kaló", versão italiana de "Un verdadero calón", p. 129.

42- Declaração de D. Francisco Trelino, Arquivo da Postulação.

43- Arquivo Histórico Nacional de Madrid, Causa Geral informativa, Barbastro, Caixa 1409/1,fol144.

44- Ibidem, Capo III, nota 77.

45- O P. Fandos escreve que no dia 25 de Julho "querendo descongesti­onar um pouco os locais das prisões, infectos e estreitos, transferiram­  para o vizinho convento dos Capuchinhos 35 detidos, entre os quais, segundo parece, o servo de Deus e os seus companheiros de prisão, José Subias, e Vicente Bruno (cf Summ. p. 24). Na causa do P. Filipe de Jesus Munarriz e companheiros de martírio, essa transferência vem descrita nos seguintes termos: "No dia 25 de (Julho) foi organizada uma transferência da cadeia municipal para o convento dos capuchi­nhos; caminhavam em diversas filas, guardados por uma força de cara­bineiros e milicianos armados. Uma vez no convento foram distribuídos pelas celas" (Barbastren, CFAB, Informativo, p. 170. Na crónica do P. Paulo Hall, testemunha ocular, diz-se que a transferência teve lugar no dia 21 de Julho. Cf. Ibid. Summ, p. 125).

46- FANDOS, p. 12 Summ. p. 69.

47- Há dúvidas sobre qual foi o Sacerdote que o servo de Deus defen­deu. O postulador de Barbastro, P. Gabriel Campo, sustenta que o servo de Deus foi preso com o tenor da catedral, D. José Martinez. Todavia, a testemunha Simão Sanchez Tolosa afirma estar seguro do facto que o servo de Deus  foi preso juntamente com o pároco de S. Francisco de Assis, D. Mariano Frago à saída da Missa das 8 da manhã (cf. Summ. p.8, 13 e testemunho 4, pp. 59-60). Simão Sanchez esqueceu-se talvez de dizer que foi preso com D. Mariano Frago. Parece mais provável que tenha sido preso com D. José Martinez, pároco de S. Francisco, que foi o primeiro sacerdote preso em Barbastro.

48- FANDOS, p. 23; Summ. p. 69.

49- FANDOS, p. 24; Summ. p. 70.

50- FANDOS, p. 29, Summ. p. 72.

51- Cf. Este é o nosso sangue. Madrid. 1992, p. 222.

52- FANDOS, p. 24; Summ. p. 70.

53- Barbastren, CPM, Apêndice, p. 61.

54- 1bid; p. 64.

55- Numa declaração feita diante do P. Riboldi e do P. Gabriel Campo, disse que permaneceu 15 ou 16 dias na prisão. Cf, Riboldi "Un vero Kaló", p. 137.

56- 1bid.

57- RIBOLDI, p. 150.

58- Barbastren, CPM, informativo, p. 145.

59- RIBOLDI, apresentação do Bispo de Barbastro.

FONTES:

Título: Cigano e Santo - Zeferino Giménez Malla

Autor: Romualdo RODRIGO, OAR

Composição: Centro Social de S. Brás - Évora

Arte Final e Impressão: Gráfica de Gouveia, L.da

Depósito Legal N.2107182/96 ISBN - 972-96402-3-8

Pinturas: Homenagem do pintor ARTURO MASIERO

Como descrito no livro “ SANTOS FRANCISCANOS DE CADA DIA” com festividade marcada em 5 de Junho

* B. Zeferino Giménez Malla (1861-1936) Mártir da TOF beatificado por João Paulo II (04-05.1997), com memória litúrgica em 4 de Maio.

Filho de pais ciganos espanhóis, conhecido entre os seus por "EI Pelé", nasceu em Fraga (Huesca), provavelmente a 26 de Agosto de 1861, e foi baptizado logo no mesmo dia. Desde criança calcorreou os caminhos montanhosos da região como vendedor ambulante dos cestos por ele mesmo fabricados. Casou segundo o rito cigano com Teresa Ximenes Castro e foi viver para Barbastro. Em 1912 celebrou o sacramento do matrimónio católico e encetou um processo de conversão, até chegar a ser modelo de vida cristã. Não teve filhos, mas adoptou como filha uma sobrinha da sua esposa, Pepita.

O seu ganha-pão era a compra e venda de gado cavalar nas feiras da região, e chegou dessa forma a uma posição económica folgada, que ele sempre punha à disposição dos necessitados. Falsamente acusado de roubo, esteve algum tempo preso, mas o julgamento mostrou que estava inocente, e foi libertado. Singularmente honesto e honrado, nunca enganava ninguém nos negócios que fazia, e devido à sua conhecida prudência e esperteza, era com frequência solicitado para sanar conflitos e desavenças. Era exemplar a sua prática religiosa diária: missa, comunhão e recitação do terço. Apesar de não saber ler nem escrever, foi sempre respeitado e apreciado por todos devido às suas qualidades morais. Entre outras associações religiosas de que fazia parte, pertencia também à TOF.

Nos últimos tempos da guerra civil espanhola foi detido por defender um sacerdote a quem arrastavam pelas ruas de Barbastro para ser levado à prisão, e por levar um terço no bolso. Ofereceram-lhe a liberdade se ele prometesse deixar de rezar o terço, mas ele recusou. Foi fuzilado em 8 de Agosto de 1936 junto ao muro do cemitério de Barbastro. Caiu com o terço na mão, depois de gritar: «Viva Cristo Rei».

Oração

ORAÇÃO A DEUS PELA INTERCESSÃO DO BEM-AVENTURADO ZEFERINO GIMÈNEZ CIGANO E MÁRTIR

Ó Deus, fonte de todas as Graças.
que suscitaste na  vida do Cigano e Mártir,
O Bem-Aventurado Zeferino,
o Amor à Família e à Oração,
o Espírito de Paz e a Coragem do Martírio,
por sua intercessão dá
às nossas Famílias, a Fidelidade,
às nossas Comunidades, a Concórdia,
aos nossos Jovens, a Rectidão e a Coragem,
aos nossos Doentes, a cura física
e o conforto espiritual,
e a todos Nós o entendimento
de que és nosso Pai
e de que Nós somos teus Filhos!
Amém.

Pedir a graça desejada e rezar:
Pai Nosso, Avé Maria e Glória.

Alcançando a graça, pede-se para escrever para:
E-mail:
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ÍNDICE  TEMÁTICO

I   VIDA E VIRTUDE DO SERVO DE DEUS

Subsídios biográficos

  1. Nascimento primeiros anos
  2. Estabelece-se em Barbastro
  3. O Matrimónio religioso
  4. Comerciante de cavalos
  5. Últimos anos de Pelé
  6. A vida diária
  7. Personalidade de Pelé

a)      aspecto físico

b) Qualidades morais

  1. 8. Um cristão modelo. As suas virtudes
  2. Apóstolo entre as crianças

10. Amor pelos pobres

II O MARTÍRIO

1. Prisão do servo de Deus

Conclusão

Motivos da prisão

2. Atitude do servo de Deus em frente do martírio

3. O martírio material

Fuzilamento no cemitério de Barbastro

4. A causa do martírio ex parte tyranni

5. A fama do martírio

ÍNDICE  DE ILUSTRAÇÕES

ZEFERINO  1 - O SEU TRABALHO E A SUA FÉ.

NÓMADA   2 – MENDICÂNCIA.

COMO AS DEMAIS CRIANÇAS NÓMADAS TAMBÉM ZEFERINO PEDIU ESMOLA

 

3  - EM CATALÚNHA E EM ARAGÃO.

PEQUENO GIROVANDO COM SEUS FAMILIARES EM CATLÚNHA E ARAGÃO, APARECEU TAMBÉM NA               ZONA DO “BANDIDO CUCARACHA” QUE ALGUMA VEZ, POR COMPAIXÃO, DEU-LHE ALGO PARA COMER.

 

4 – COMERCIANTE DE ANIMAIS.

APRENDEU CEDO A ARTE DE COMERCIAR ANIMAIS E POR OCASIÃO DAS FEIRAS ANUAIS PAROU EM MUITOS PAÍSES E CIDADES.

 

5  - UM VERDADEIRO CIGANO.

ATÉ PERTO DOS 40 ANOS VIVEU VIAJANDO, SEM RESIDÊNCIA FIXA.

 

CRISTÃO   6 – COM RESIDÊNCIA FIXA, CRIA SOBRINHA.

NÃO TEVE FILHOS PRÓPRIOS, MAS COM RESIDÊNCIA FIXA EM BARBASTRO, CRIOU UMA SOBRINHA DA MULHER. QUIS EDUCÁ-LA NO COLÉGIO DAS IRMÂS, EMBORA ELE FICASSE SEMPRE ANALFABETO

 

7 – CONTRAI  MATRIMÓNIO NA IGREJA.

 

AOS  50 ANOS DE IDADE O CIGANO DECIDIU CONTRAIR MATRIMÓNIO CRISTÃO NUMA IGREJA DE LÉRIDA.

 

8 - TERCIÁRIO FRANCISCANO.

EM 1926 ENTROU NUMA CONFRARIA DE SWÃO FRANCISCO DE ASSIS. PARTICIPAVA ÀS PROCISSÕES CARREGANDO, COM ORGULHO, O ESTANDARTE. DIÁRIAMENTE FREQUENTAVA A IGREJA PARA A MISSA E COMUNHÃO

 

9 – COM OS DOENTES E COM OS IDOSOS.

VISITAVA COM FREQUÊNCIA OS DOENTES NO HOSPITAL E OS IDOSOS NO ASILO DE BARBASTRO

 

10 – AMIGO DAS CRIANÇAS.

PREOCUPOU-SE EM RECOLHER AS CRIANÇAS DO BAIRRO PARA LHES ENSINAR UM POUCO DE BÍBLIA E ORAÇÕES

 

MÁRTIR   11 – ENCARCERADO PELA FÉ.

 

DETIDO POR TER DEFENDIDO UM SACERDOTE NOS PRIMEIROS DIAS DA REVOLUÇÃO ESPANHOLAA, NUNCA DEIXOU DE REZAR O TERÇO, 3EMBORA UM SEU AMIGO TENTASSE DE TIRAR-LHO PARA SALVÁ-LO DO FUSILAMENTO.

 

12 – MORTE  HERÓICA.

FOI FUSILADO NAS PRIMEIRAS HORAS DO DIA 9 DE AGOSTO DE 1936 JUNTO A OUTRAS PESSOAS RELIGIOSAS PORQUE ERA UM VERDADEIRO CRISTÃO.

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