LANÇAMENTO DO LIVRO DE MYRNA MONTENEGRO NA FEIRA DO LIVRO

LANÇAMENTO DO LIVRO DE MYRNA MONTENEGRO NA FEIRA DO LIVRO

O livro da Doutora Myrna Montenegro (MM), “Aprender a Ser Cigano Hoje – Empurrando e Puxando Fronteiras” foi lançado na Feira do Livro em 3 de setembro, tal como tínhamos anunciado no nº 96 da Caravana. Abriu a sessão o Presidente da Cáritas Dr. Eugénio Fonseca que lembrou o conhecimento que tinha tido com a autora no Bairro da Bela Vista em Setúbal, quando era Presidente da Cáritas de Setúbal. Em seguida falaram Francisco Monteiro (FM), Diretor Executivo da Obra Nacional da Pastoral dos Ciganos, instituição que promoveu a publicação e Dinis Abreu (DA), membro da Direção da FECALP (Federação Calhim Portuguesa).

FM afirmou que o livro, mais do que a tese de doutoramento da drª Myrna Montenegro, é a síntese da sua vida. E acrescentou: “e não foi uma vida qualquer, a da drª Myrna. Foi uma vida que se pôs à escuta, que dialogou, com pessoas, com crianças, com famílias.

 

Que pessoas? Pessoas de uma etnia específica que veio para Portugal há cinco séculos e que sendo portuguesas, querem e têm o direito de se manterem ciganas. E esse direito é-lhes negado tantas vezes. Para a drª. Myrna, essas pessoas, ciganas, com uma cultura própria, sempre foram, acima de tudo, pessoas, com quem a drª. Myrna caminhou, lado a lado, coração com coração, pessoas.

 

É este, o livro da vida da drª. Myrna que agora, pela iniciativa e com o apoio da Editorial Cáritas, com o carinho da Pastoral dos Ciganos e com a voz acima de tudo humana e fraterna da Igreja, através da presença do Sr. Cardeal Patriarca, é esse livro que temos hoje aqui connosco.

Nesta apresentação, não podíamos deixar de ouvir os protagonistas destas vivências, aqueles cujo sofrimento existencial, cultural e social clama por amor, por justiça e por atitudes claras e decididas e que são os próprios ciganos. O Sr. Dinis Abreu, em representação da única Federação de associações ciganas em Portugal, a FECALP, deu-nos o gosto da sua presença e das suas palavras. Obrigado Sr. Dinis: no futuro carregado de nuvens escuras pode contar connosco, estaremos sempre ao seu lado.”

O Sr. Dinis Abreu disse: “em representação da FECALP quero agradecer  toda a atenção que quiseram ter com a etnia cigana no nosso país, particularmente numa altura da nossa história em que a coesão social, a multiculturalidade e os princípios básicos da democracia em que a inclusão social é prioritária, tendem a ser esquecidos e mesmo combatidos a troco de uns votos baseados na hipocrisia e na injustiça; disso resulta o aumento do já enorme sofrimento e exclusão das pessoas reais da nossa etnia.”

Em seguida a autora referiu-se à sua vivência no seio da comunidade cigana, começando por citar um poema seu sobre o Bairro da Bela Vista onde começou a sua vida com os ciganos, cujo título é: “Onde a Vista é Bela” de que reproduzimos duas estrofes:

Foi em ti que encontrei / A força indomável da vida / Foi por ti que aprendi / A escuta sensível do outro / Foi contigo que saboreei / Os olhares sorridentes / As palavras sumarentas / Os gestos eloquentes / Das almas dos teus habitantes.

Bairro que me edificou / Qual combatente pela paz / Obrigada por me teres acolhido.

Seguidamente MM mencionou a luta pelas crianças no Algarve e o nascimento do Projeto Nómada, projeto piloto em Setúbal no início do Rendimento Mínimo e que se destinava a acompanhar as famílias ciganas nas suas deslocações para trabalhar no Alentejo e no Algarve. MM sublinhou que a mudança social requer prazos longos. Referiu a animação de rua nos mercados. “Entrei no coração das pessoas pelas crianças” lembrou MM.

O lançamento concluiu-se com a intervenção do Cardeal Patriarca de Lisboa, Sr. D. Manuel Clemente (DMC) que começou por citar o Papa Francisco no seu conceito de sociedade poliédrica constituída por todas as culturas, afirmando: “cada face enriquece o todo e não se perde o conjunto. Assim é mais verdadeiro.” Analisando em detalhe a “experiência muito rica de MM”, refletida no seu livro, cujas passagens citou diversas vezes, DMC assinalou a estrutura vincadamente familiar da cultura cigana e as tensões culturais que terão de se ir ultrapassando com vista à incorporação da mesma no Portugal a reconstruir; um exemplo referido foi o da relação espaço – tempo que é diferente do tempo real ambiente que é tecnocrático. Em termos programáticos, DMC apontou para o relevo dado no livro aos condicionalismos da escolarização e da formação em que se salientam “a progressiva incorporação das crianças e jovens no sistema educativo” e “a implicação das famílias na ação educativa, através de mediadores” (pág. 244). DMC considerou que a cultura cigana é quase uma nacionalidade e fez votos para que todos se sintam em casa, “naquela casa comum que nós havemos de construir e que ainda não existe”, apelando para a criação de “espaços comuns de reconstrução social”.