{"id":369,"date":"2015-04-22T08:41:07","date_gmt":"2015-04-22T08:41:07","guid":{"rendered":"https:\/\/site.manuelpedreiro.net\/silencio-nunca-mais\/"},"modified":"2026-10-07T15:12:51","modified_gmt":"2026-10-07T15:12:51","slug":"silencio-nunca-mais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/silencio-nunca-mais\/","title":{"rendered":"Sil\u00eancio, nunca mais"},"content":{"rendered":"<p>A Comiss\u00e3o Nacional Justi\u00e7a e Paz publicou na Semana Santa uma&nbsp;<a href=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/nota-sobre-as-perseguicoes-aos-cristaos\/\" target=\"_blank\">nota sobre a persegui\u00e7\u00e3o aos crist\u00e3os<\/a>&nbsp;em v\u00e1rias partes do mundo, com o t\u00edtulo dos versos de Sophia de Mello Breyner:&nbsp;<em>Vemos, ouvimos e lemos, n\u00e3o podemos ignorar<\/em>. Dias depois, a quest\u00e3o tornou-se, tragicamente, ainda mais atual, com o massacre na Universidade de Garissa, no Qu\u00e9nia. E outros acontecimentos an\u00e1logos continuam a verificar-se desde ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Durante muito tempo, imperou a este respeito, sobretudo na sociedade civil, mas tamb\u00e9m na Igreja, a ignor\u00e2ncia, ou uma aten\u00e7\u00e3o muito t\u00e9nue, desproporcionada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 gravidade da situa\u00e7\u00e3o. Ainda hoje, estes atentados \u00e0 vida e \u00e0 liberdade religiosa, que algu\u00e9m j\u00e1 qualificou como das mais graves viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos do in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, parecem n\u00e3o receber manifesta\u00e7\u00f5es de rep\u00fadio t\u00e3o intensas como as de outros atentados n\u00e3o t\u00e3o graves e frequentes.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>A Comiss\u00e3o Nacional Justi\u00e7a e Paz publicou na Semana Santa uma&nbsp;<a href=\"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/nota-sobre-as-perseguicoes-aos-cristaos\/\" target=\"_blank\">nota sobre a persegui\u00e7\u00e3o aos crist\u00e3os<\/a>&nbsp;em v\u00e1rias partes do mundo, com o t\u00edtulo dos versos de Sophia de Mello Breyner:&nbsp;<em>Vemos, ouvimos e lemos, n\u00e3o podemos ignorar<\/em>. Dias depois, a quest\u00e3o tornou-se, tragicamente, ainda mais atual, com o massacre na Universidade de Garissa, no Qu\u00e9nia. E outros acontecimentos an\u00e1logos continuam a verificar-se desde ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Durante muito tempo, imperou a este respeito, sobretudo na sociedade civil, mas tamb\u00e9m na Igreja, a ignor\u00e2ncia, ou uma aten\u00e7\u00e3o muito t\u00e9nue, desproporcionada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 gravidade da situa\u00e7\u00e3o. Ainda hoje, estes atentados \u00e0 vida e \u00e0 liberdade religiosa, que algu\u00e9m j\u00e1 qualificou como das mais graves viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos do in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, parecem n\u00e3o receber manifesta\u00e7\u00f5es de rep\u00fadio t\u00e3o intensas como as de outros atentados n\u00e3o t\u00e3o graves e frequentes.<\/p>\n<p>Sobre esta quest\u00e3o foi publicado um livro,&nbsp;<em>Le Livre Noir de la Condition des Chr\u00e9tiens dans le Monde<\/em>&nbsp;(XO \u00c9ditions), que recolhe contributos de setenta colaboradores de v\u00e1rias partes do mundo, coordenados pelo bispo franc\u00eas Jean Michel di Falco, o dominicano ingl\u00eas Timothy Radcliffe e o historiador italiano Andrea Riccardi. Num artigo introdut\u00f3rio desse livro, o jornalista norte-americano John Allen Jr. analisa as poss\u00edveis raz\u00f5es desse sil\u00eancio, na sociedade e na Igreja. Identifica v\u00e1rias: a dist\u00e2ncia geogr\u00e1fica das zonas onde se verifica a persegui\u00e7\u00e3o; a hostilidade contra os crist\u00e3os na opini\u00e3o mais influente no Ocidente; o h\u00e1bito de encarar os crist\u00e3os como maioria opressora (com a mem\u00f3ria hist\u00f3rica da Inquisi\u00e7\u00e3o) e n\u00e3o como minoria perseguida e socialmente marginalizada; o n\u00e3o alinhamento desta causa entre as causas ideologicamente mais marcadas (na express\u00e3o do intelectual franc\u00eas R\u00e9gis Debray, estes crist\u00e3os s\u00e3o \u00abdemasiado crist\u00e3os para interessar a esquerda e demasiado estrangeiros para interessar a direita\u00bb); o receio de perturbar o di\u00e1logo intercultural e inter-religioso e de alimentar o chamado&nbsp;<em>conflito de civiliza\u00e7\u00f5es<\/em>; o desconforto que o enfoque no sofrimento e no mart\u00edrio destes crist\u00e3os provoca numa vis\u00e3o da religi\u00e3o como fator de serenidade e paz interior.<\/p>\n<p>Nenhuma destas raz\u00f5es pode justificar o sil\u00eancio perante este drama. De modo particular no M\u00e9dio Oriente, est\u00e1 em s\u00e9rio perigo a presen\u00e7a dos crist\u00e3os, que remonta aos primeiros tempos do cristianismo. A persegui\u00e7\u00e3o aos crist\u00e3os nesses locais n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 de hoje: ao longo da hist\u00f3ria sucederam-se per\u00edodos de conviv\u00eancia pac\u00edfica e outros de persegui\u00e7\u00e3o (tenho um amigo brasileiro de origem s\u00edria cujos antepassados fugiram para o Brasil das persegui\u00e7\u00f5es aos crist\u00e3os). Ma nunca como hoje esteve t\u00e3o pr\u00f3ximo o completo desaparecimento da presen\u00e7a crist\u00e3 nessas terras.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de pregar uma nova cruzada contra o Isl\u00e3o ou outras religi\u00f5es. Tamb\u00e9m fieis mu\u00e7ulmanos e de outras religi\u00f5es s\u00e3o v\u00edtimas do extremismo fundamentalista que atinge os crist\u00e3os. Os expoentes mais representativos dessas religi\u00f5es tamb\u00e9m repudiam esse extremismo (sendo que o deveriam fazer mais intensamente \u2013 \u00e9 certo). O di\u00e1logo e a reconcilia\u00e7\u00e3o s\u00f3 s\u00e3o aut\u00eanticos quando assentam na verdade e na justi\u00e7a (recordou-o o Papa Francisco a prop\u00f3sito do genoc\u00eddio dos arm\u00e9nios).<\/p>\n<p>Esteve entre n\u00f3s h\u00e1 pouco tempo Paul Bhatti, irm\u00e3o de Shabaz Bhatti (o ativista assassinado por defender os direitos dos crist\u00e3os e outras minorias paquistanesas) que continua hoje o trabalho deste. Do seu testemunho, impressionou-me a sua capacidade de perd\u00e3o e o seu empenho na causa do di\u00e1logo e coopera\u00e7\u00e3o entre pessoas de diferentes credos. Muito longe de qualquer esp\u00edrito de \u201cguerra religiosa\u201d.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o se trata de alimentar o choque de civiliza\u00e7\u00f5es. N\u00e3o estamos perante uma causa que oponha o Ocidente ao mundo \u00e1rabe (e n\u00e3o podemos deixar que assim seja falsamente apresentada). Os crist\u00e3os do M\u00e9dio Oriente est\u00e3o plenamente enraizados e integrados na cultura \u00e1rabe, n\u00e3o s\u00e3o \u201cagentes do Ocidente\u201d, como pretendem muitos dos que os perseguem. E o mesmo se deve dizer dos crist\u00e3os africanos, indianos, paquistaneses ou chineses em rela\u00e7\u00e3o a essas culturas.<\/p>\n<p>E n\u00e3o se trata de uma causa apenas dos crist\u00e3os, uma causa sectorial ou corporativa. Trata-se de uma causa de defesa dos direitos humanos, que tamb\u00e9m interessa outras minorias. Muitos mu\u00e7ulmanos mais clarividentes consideram a presen\u00e7a dos crist\u00e3os no M\u00e9dio Oriente uma garantia de abertura, pluralismo e democraticidade.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o podemos esquecer que os crist\u00e3os (de todas as denomina\u00e7\u00f5es) t\u00eam um especial dever de prote\u00e7\u00e3o dos seus irm\u00e3os na f\u00e9, do mesmo modo que qualquer pessoa tem um especial dever de prote\u00e7\u00e3o da sua fam\u00edlia. Se n\u00e3o formos n\u00f3s a faz\u00ea-lo, quem o far\u00e1?<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que Jesus Cristo prometeu a persegui\u00e7\u00e3o aos que O seguissem e a muitos destes crist\u00e3os est\u00e1 reservada a gl\u00f3ria do mart\u00edrio. Mas isso n\u00e3o significa que n\u00e3o seja nosso dever fazer tudo o que est\u00e1 ao nosso alcance, no quadro da \u00e9tica e do direito, para evitar atentados contra a vida e a liberdade destes nossos irm\u00e3os. Porque a nossa omiss\u00e3o pode tornar-nos c\u00famplices dos perseguidores.<\/p>\n<p>O apelo a que ningu\u00e9m pode ficar indiferente \u00e9, pois, o do Papa Francisco na ora\u00e7\u00e3o Regina Caeli de 6 de abril: que a comunidade internacional n\u00e3o continue \u00abmuda e inerte\u00bb perante esta situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pedro Vaz Patto<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Comiss\u00e3o Nacional Justi\u00e7a e Paz publicou na Semana Santa uma&nbsp;nota sobre a persegui\u00e7\u00e3o aos crist\u00e3os&nbsp;em v\u00e1rias partes do mundo, com o t\u00edtulo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[44],"tags":[],"class_list":["post-369","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-reflexoes-dos-membros-da-cnjp"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/369","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=369"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/369\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=369"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=369"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=369"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}