{"id":497,"date":"2017-02-11T18:43:53","date_gmt":"2017-02-11T18:43:53","guid":{"rendered":"https:\/\/site.manuelpedreiro.net\/desigualdade-justica-e-fraternidade\/"},"modified":"2017-02-11T18:43:53","modified_gmt":"2017-02-11T18:43:53","slug":"desigualdade-justica-e-fraternidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/desigualdade-justica-e-fraternidade\/","title":{"rendered":"Desigualdade, Justi\u00e7a e Fraternidade"},"content":{"rendered":"<p>Por iniciativa da O.N.U., comemora-se a 20 de fevereiro o Dia Internacional da Justi\u00e7a Social.<\/p>\n<p>Evocar a justi\u00e7a social \u00e9 particularmente oportuno quando olhamos para o estado atual do nosso mundo no que diz respeito \u00e0 reparti\u00e7\u00e3o da riqueza.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Por iniciativa da O.N.U., comemora-se a 20 de fevereiro o Dia Internacional da Justi\u00e7a Social.<\/p>\n<p>Evocar a justi\u00e7a social \u00e9 particularmente oportuno quando olhamos para o estado atual do nosso mundo no que diz respeito \u00e0 reparti\u00e7\u00e3o da riqueza.<\/p>\n<p>Segundo um estudo da organiza\u00e7\u00e3o <em>Oxfam International<\/em>, publicado em janeiro deste ano, intitulado <em>An Economy for the 99%<\/em>, 1% da popula\u00e7\u00e3o mundial det\u00e9m uma riqueza equivalente aos restantes 99% e oito pessoas det\u00e9m uma riqueza equivalente \u00e0 da metade mais pobre de toda a popula\u00e7\u00e3o mundial. E esta desigualdade vem-se acentuando. Entre os fatores que a explicam contam-se as distor\u00e7\u00f5es do sistema fiscal: evas\u00e3o, para\u00edsos fiscais, reduzida tributa\u00e7\u00e3o dos rendimentos de capitais face aos rendimentos do trabalho.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem pretenda justificar a desigualdade alegando que a riqueza de poucos pode beneficiar a todos, porque desse modo se estimula o crescimento econ\u00f3mico.<\/p>\n<p>\u00c9 conhecida a tese do fil\u00f3sofo John Rawls: ser\u00e3o leg\u00edtimas as desigualdades na estrita medida em que elas, por serem condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria e suficiente para incentivar a cria\u00e7\u00e3o de riqueza, beneficiam a sociedade no seu todo, em especial os menos favorecidos. Mas o n\u00edvel de desigualdade que conhece hoje o mundo (e que conhece a sociedade portuguesa) vai muito para al\u00e9m do que, de acordo com a tese de John Rawls, seria estritamente necess\u00e1rio para incentivar a cria\u00e7\u00e3o de riqueza e beneficiar, assim, a sociedade no seu todo. A desigualdade assim legitimada seria uma desigualdade m\u00ednima, quando conhecemos uma desigualdade m\u00e1xima. A experi\u00eancia destes trinta anos tem revelado que os mais desfavorecidos n\u00e3o t\u00eam beneficiado todos, mesmo em termos absolutos, do crescimento econ\u00f3mico.<\/p>\n<p>Um outro estudo, publicado em maio de 2015, da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f3mico (O.C.D.E.), intitulado <em>In it together \u2013 why less inequality benefits all<\/em>, revela que a desigualdade a todos prejudica no longo prazo, pois retira oportunidades de investimento na educa\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o, o que funciona como trav\u00e3o do crescimento econ\u00f3mico.<\/p>\n<p>O soci\u00f3logo Zygmunt Bauman, recentemente falecido, abordou esta quest\u00e3o, baseando-se em estudos v\u00e1rios, no seu livro <em>Does the richness of the few benefits us all?<\/em> (Polity Press, 2013). &nbsp;A riqueza de poucos n\u00e3o beneficia a todos, porque essa riqueza nem sempre gera investimento e, sobretudo, porque nas sociedades mais desiguais cresce a ang\u00fastia, a depress\u00e3o, a criminalidade e o medo (a infelicidade, em suma).&nbsp;<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da reparti\u00e7\u00e3o da riqueza n\u00e3o pode ser vista s\u00f3 \u00e0 luz do pragmatismo utilitarista, sem atender \u00e0 justi\u00e7a. \u00c9 importante estimular a cria\u00e7\u00e3o da riqueza. Mas a riqueza criada n\u00e3o o \u00e9 apenas por alguns. De um empres\u00e1rio ou um gestor depende o sucesso de uma empresa, mas todos os seus trabalhadores para ela contribuem.<\/p>\n<p>Os n\u00edveis crescentes de desigualdade colidem, pois, com as exig\u00eancias da justi\u00e7a social. Contrariam o princ\u00edpio do destino universal dos bens (Deus criou os bens da terra para o servi\u00e7o de todas as pessoas sem exce\u00e7\u00e3o), princ\u00edpio b\u00e1sico da doutrina social da Igreja.<\/p>\n<p>E colidem tamb\u00e9m com o princ\u00edpio da fraternidade. Uma sociedade com um abismo t\u00e3o grande a separar os seus membros n\u00e3o poder\u00e1 ser uma sociedade com um forte sentimento comum de perten\u00e7a, coesa, unida e fraterna.<\/p>\n<p>Pedro Vaz Patto<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por iniciativa da O.N.U., comemora-se a 20 de fevereiro o Dia Internacional da Justi\u00e7a Social. 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