{"id":504,"date":"2017-04-06T09:19:19","date_gmt":"2017-04-06T09:19:19","guid":{"rendered":"https:\/\/site.manuelpedreiro.net\/era-forasteiro-e-recebeste-me\/"},"modified":"2017-04-06T09:19:19","modified_gmt":"2017-04-06T09:19:19","slug":"era-forasteiro-e-recebeste-me","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/era-forasteiro-e-recebeste-me\/","title":{"rendered":"Era forasteiro e recebeste-me"},"content":{"rendered":"<p>A tem\u00e1tica das migra\u00e7\u00f5es e do acolhimento de refugiados e imigrantes vem sendo presen\u00e7a recorrente nas mensagens do Papa Francisco. A tal n\u00e3o ser\u00e3o estranhas as suas pr\u00f3prias origens: neto de imigrantes, vindo de um pa\u00eds constru\u00eddo por vagas sucessivas de imigrantes. Mas este \u00e9 um fen\u00f3meno hoje incontorn\u00e1vel em qualquer parte do mundo globalizado. Quando sopram com cada vez mais for\u00e7a os ventos hostis \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o (que Donald Trump qualificou como um privil\u00e9gio, e n\u00e3o um direito), a voz do Papa ressoa contra a corrente. H\u00e1 quem o acuse de irrealismo ing\u00e9nuo. Mas em v\u00e1rias ocasi\u00f5es j\u00e1 mostrou que o seu pensamento tem s\u00f3lidas ra\u00edzes e n\u00e3o deve ser encarado como express\u00e3o de superficialidade emotiva.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>A tem\u00e1tica das migra\u00e7\u00f5es e do acolhimento de refugiados e imigrantes vem sendo presen\u00e7a recorrente nas mensagens do Papa Francisco. A tal n\u00e3o ser\u00e3o estranhas as suas pr\u00f3prias origens: neto de imigrantes, vindo de um pa\u00eds constru\u00eddo por vagas sucessivas de imigrantes. Mas este \u00e9 um fen\u00f3meno hoje incontorn\u00e1vel em qualquer parte do mundo globalizado. Quando sopram com cada vez mais for\u00e7a os ventos hostis \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o (que Donald Trump qualificou como um privil\u00e9gio, e n\u00e3o um direito), a voz do Papa ressoa contra a corrente. H\u00e1 quem o acuse de irrealismo ing\u00e9nuo. Mas em v\u00e1rias ocasi\u00f5es j\u00e1 mostrou que o seu pensamento tem s\u00f3lidas ra\u00edzes e n\u00e3o deve ser encarado como express\u00e3o de superficialidade emotiva.<\/p>\n<p>Uma dessas ocas\u00f5es foi a do seu <a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/speeches\/2017\/february\/documents\/papa-francesco_20170221_forum-migrazioni-pace.html\" target=\"_blank\">discurso aos participantes no Forum Internacional sobre Migra\u00e7\u00f5es e Paz<\/a>, de 21 de fevereiro passado. Um discurso em que s\u00e3o constantes as refer\u00eancias ao magist\u00e9rio dos seus antecessores, como sinal da continuidade em rela\u00e7\u00e3o a esse magist\u00e9rio.<\/p>\n<p><em>Acolher, proteger, promover e integrar<\/em> s\u00e3o&nbsp; as linhas-for\u00e7a da resposta comum que o Papa prop\u00f5e nesse discurso. Estes quatro verbos representam um dever de justi\u00e7a, de civiliza\u00e7\u00e3o e de solidariedade. Um dever de justi\u00e7a decorrente de desigualdades econ\u00f3micas contr\u00e1rias ao princ\u00edpio do destino universal dos bens da Terra. Um dever de civiliza\u00e7\u00e3o como <em>\u00abaplica\u00e7\u00e3o daqueles princ\u00edpios e valores de acolhimento e fraternidade que constituem um patrim\u00f3nio comum de humanidade e sabedoria (&#8230;) historicamente codificados na Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos do Homem\u00bb. Um dever de solidariedade que nasce da \u00abcapacidade de compreender as necessidades do irm\u00e3o e da irm\u00e3 em dificuldade, e de as assumir\u00bb<\/em>, onde se <em>\u00abfunda o valor sagrado da hospitalidade, presente nas tradi\u00e7\u00f5es religiosas\u00bb<\/em>. Para os crist\u00e3os, <em>\u00aba hospitalidade concedida ao forasteiro necessitado de amparo \u00e9 oferecida ao pr\u00f3prio Jesus Cristo, que se identificou com o estrangeiro: \u201cEu era forasteiro e v\u00f3s recebestes-me\u201d (Mt&nbsp;25, 35)\u00bb<\/em>.<\/p>\n<p>Advoga, ent\u00e3o o Papa uma pol\u00edtica, que os seus cr\u00edticos consideram irrealista e irrespons\u00e1vel, de aboli\u00e7\u00e3o de fronteiras e descontrolo dos fluxos migrat\u00f3rios?<\/p>\n<p>Num outro <a href=\"http:\/\/w2.vatican.va\/content\/francesco\/pt\/speeches\/2017\/january\/documents\/papa-francesco_20170109_corpo-diplomatico.html\" target=\"_blank\">discurso, aos membros do Corpo Diplom\u00e1tico<\/a> acreditado junto da Santa S\u00e9, de 9 de janeiro \u00faltimo, o Papa afastou essa ideia, ao afirmar que \u00e9 necess\u00e1rio <em>\u00absaber conjugar o direito de cada ser humano a \u201ctransferir-se para outras comunidades pol\u00edticas e nelas domiciliar-se\u201d&nbsp;e, ao mesmo tempo, garantir a possibilidade duma integra\u00e7\u00e3o dos migrantes nos tecidos sociais onde se inserem, sem que estes sintam amea\u00e7ada a sua seguran\u00e7a, a sua pr\u00f3pria identidade cultural e os seus pr\u00f3prios equil\u00edbrios pol\u00edtico-sociais. Por outro lado, os pr\u00f3prios migrantes n\u00e3o devem esquecer que t\u00eam o dever de respeitar as leis, a cultura e as tradi\u00e7\u00f5es dos pa\u00edses onde s\u00e3o acolhidos.\u00bb<\/em> E acrescentou: <em>\u00abUma abordagem prudente por parte das autoridades p\u00fablicas n\u00e3o envolve a implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de fechamento aos migrantes, mas implica avaliar, com sabedoria e clarivid\u00eancia, at\u00e9 que ponto o seu pa\u00eds \u00e9 capaz, sem lesar o bem comum dos cidad\u00e3os, de oferecer uma vida decente aos migrantes, especialmente \u00e0queles que t\u00eam real necessidade de prote\u00e7\u00e3o.\u00bb<\/em><\/p>\n<p>A respeito da integra\u00e7\u00e3o (quest\u00e3o que vem a prop\u00f3sito das pol\u00e9micas relativas ao uso do v\u00e9u isl\u00e2mico), disse o Papa, tamb\u00e9m no discurso de 21 de fevereiro, que ela <em>\u00abn\u00e3o \u00e9 assimila\u00e7\u00e3o nem incorpora\u00e7\u00e3o, constitui um processo bidirecional, que se baseia essencialmente no m\u00fatuo reconhecimento da riqueza cultural do outro: n\u00e3o se trata de nivelamento de uma cultura sobre a outra, nem sequer de isolamento rec\u00edproco, com o risco de\u201cguetiza\u00e7\u00f5es\u201d nefastas e perigosas\u00bb<\/em>.&nbsp;<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 quem alerte para os danos que o acolhimento de povos de outras culturas possam provocar na identidade crist\u00e3 da Europa. A esta quest\u00e3o, respondeu o Papa no discurso que deixou escrito quando visitou a Universidade Roma Tre, em 17 de fevereiro passado: <em>\u00abConsiderando que a primeira amea\u00e7a \u00e0 cultura crist\u00e3 da Europa vem precisamente do seio da Europa, o fechamento em si mesmos ou na pr\u00f3pria cultura nunca \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o para voltar a dar esperan\u00e7a e realizar uma renova\u00e7\u00e3o social e cultural. Uma cultura consolida-se atrav\u00e9s da abertura e do confronto com as outras culturas, desde que haja uma consci\u00eancia clara e madura dos pr\u00f3prios princ\u00edpios e valores\u00bb<\/em>. Na verdade, a perda da identidade crist\u00e3 da Europa vem da sua pr\u00f3pria infidelidade, n\u00e3o de uma qualquer \u201cinvas\u00e3o\u201d. E uma cultura forte n\u00e3o se perde no contacto com outras, antes com este se consolida e enriquece.<\/p>\n<p>Pedro Vaz Patto<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A tem\u00e1tica das migra\u00e7\u00f5es e do acolhimento de refugiados e imigrantes vem sendo presen\u00e7a recorrente nas mensagens do Papa Francisco. 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