{"id":515,"date":"2017-09-16T11:32:41","date_gmt":"2017-09-16T11:32:41","guid":{"rendered":"https:\/\/site.manuelpedreiro.net\/morreu-um-homem-bom-e-um-grande-bispo\/"},"modified":"2017-09-16T11:32:41","modified_gmt":"2017-09-16T11:32:41","slug":"morreu-um-homem-bom-e-um-grande-bispo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/morreu-um-homem-bom-e-um-grande-bispo\/","title":{"rendered":"\u00abMorreu um homem bom e um grande bispo\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Quando morre um homem bom o mundo fica mais pobre. Hoje, Portugal e a sua Igreja perderam um desses homens que nos fazem falta: D. Ant\u00f3nio Francisco, o bispo do Porto. Reconhecidamente um homem bom.<\/p>\n<p>[Gra\u00e7a Franco, <a href=\"http:\/\/rr.sapo.pt\/artigo\/93063\/morreu_um_homem_bom_e_um_grande_bispo\" target=\"_blank\">Renascen\u00e7a<\/a>]<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Quando morre um homem bom o mundo fica mais pobre. Hoje, Portugal e a sua Igreja perderam um desses homens que nos fazem falta: D. Ant\u00f3nio Francisco, o bispo do Porto. Reconhecidamente um homem bom.<\/p>\n<p>O pastor que escolhera como lema episcopal \u201cNas tuas m\u00e3os\u201d morreu, inesperadamente, de ataque card\u00edaco, quando nada o fazia prever, deixando em estado de choque todos os que com ele conviveram nos \u00faltimos dias como se a sua divisa tivesse sido integralmente cumprida. E o primeiro coment\u00e1rio das mais variadas bocas foi exactamente este repetitivo, mas genu\u00edno, perdemos \u201cum homem bom\u201d. O verdadeiro Pastor com cheiro a ovelhas, que o Papa Francisco gostava que fosse a marca de todos os bispos.<br \/>Um homem de uma simplicidade intoc\u00e1vel desde o tempo da sua inf\u00e2ncia em Cinf\u00e3es, mas que a sabedoria, adquirida nos tempos dos estudos de Sociologia, Filosofia e Teologia em Paris, alargara a vis\u00e3o e a experi\u00eancia de vida enriquecera, permitindo-lhe uma coragem e frontalidade que lhe permitia dizer \u201cbasta de sacrif\u00edcios impostos aos mais pobres\u201d ainda nos anos da troika, em nome dos mais fr\u00e1geis sem que se lhe manchasse nunca uma esp\u00e9cie de do\u00e7ura que justificava de quem n\u00e3o o conhecia esta pergunta: quem \u00e9 este homem? Este Pastor que se confunde como mais um no meio do rebanho e aparenta conhecer de cor o nome das \u201covelhas\u201d?<\/p>\n<p>Foi essa a pergunta que fiz aos seus diocesanos de Aveiro j\u00e1 a meio da sua estadia por essa diocese quando o vi pela primeira vez no final de uma actividade promovida pelas jovens diocesanas. Percebi depois porque a sa\u00edda de D. Ant\u00f3nio, alguns anos mais tarde, pareceu deix\u00e1-los numa esp\u00e9cie de orfandade, que nada tinha a ver com o perfil do seu sucessor.<\/p>\n<p>Talvez a lideran\u00e7a das Equipas de Nossa Senhora e a presen\u00e7a enquanto director espiritual do movimento dos Cursilhos de Cristandade tivesse contribu\u00eddo para esse conhecimento apurado dos problemas reais das fam\u00edlias que o rodeavam e o seguiam de perto, t\u00e3o perto, que se confundia como uma esp\u00e9cie de p\u00e1roco de todas as freguesias. Entrando na intimidade de centenas, sobretudo de casais ainda muito jovens, como se fosse apenas mais um membro da fam\u00edlia. O laicado daquela diocese mostrava uma vitalidade inusitada.<\/p>\n<p>Vi-o depois um sem-n\u00famero de vezes. E acabou tamb\u00e9m por gerar em mim o mesmo sentimento de proximidade. Conhecia-nos em fam\u00edlia pelos nomes, perguntava por alegrias e tristezas. A sua mod\u00e9stia n\u00e3o lhe ter\u00e1 facilitado a entrada na grande diocese do Porto, deixando-lhe transparecer uma certa nostalgia pela experiencia passada.<\/p>\n<p>O facto de Aveiro ser uma diocese nova (o que s\u00e3o 75 anos contra os cinco s\u00e9culos de vida de dioceses como a do Porto?) ter\u00e1 permitido que se sentisse a\u00ed de tal forma em casa que s\u00f3 por obedi\u00eancia ter\u00e1 aceitado a passagem para a lideran\u00e7a da diocese do Porto (ainda por cima sucedendo a uma figura como a de D. Manuel Clemente). Via-se que n\u00e3o fazia carreira eclesi\u00e1stica e que as honrarias pr\u00f3prias da import\u00e2ncia do cargo lhe pesavam mais do que lhe agradavam, como uma roupa que lhe estivesse larga demais para a mod\u00e9stia das suas ambi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso o novo bispo chegou ao Porto rodeado de aveirenses a quem na sua homilia inicial agradeceu o apoio e pediu ora\u00e7\u00f5es. Ordenado bispo no dia de S\u00e3o Jos\u00e9, via-se como esse santo a quem Deus trocara frequentemente as voltas. Aos sacerdotes falou como \u201cirm\u00e3os\u201d. Citando Santo Agostinho, comunicou-lhes que queria \u201c ser bispo para v\u00f3s e irm\u00e3o convosco\u201d, fazendo lembrar a chegada ao papado do outro Francisco em cujos gestos e ac\u00e7\u00f5es se revia por inteiro e quase antecipava.<\/p>\n<p>Um ano depois, no balan\u00e7o desses primeiros 365 dias numa not\u00e1vel entrevista \u00e0 Renascen\u00e7a, feita pelo jornalista Henrique Cunha, ergueu a sua voz em nome dos pobres. \u201cBasta\u201d, afirmou, defendendo: \u201cPrecisamos de uma forma de ser l\u00edder e ser protagonista, de ser governante e de ser respons\u00e1vel deste pa\u00eds\u201d. Uma nova forma que passava, em seu entender, por \u201cdizer a verdade aos cidad\u00e3os\u201d. Vale a pena reler o texto integral.<\/p>\n<p>Nesse Fevereiro de 2015, a oito meses das elei\u00e7\u00f5es legislativas, acrescentava: \u201c\u00c9 tempo de dizermos que h\u00e1 caminhos novos a percorrer. O esfor\u00e7o tem de ter o seu resultado e o trabalho que se realizou at\u00e9 aqui tem agora de criar patamares novos de desenvolvimento da economia e da justi\u00e7a social de equidade entre todos para que as prova\u00e7\u00f5es e as dificuldades n\u00e3o pesem sobre aqueles que menos t\u00eam.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o foi apenas algum Porto que n\u00e3o entendeu todo o significado das suas palavras, foi tamb\u00e9m boa parte do pa\u00eds. A incomodidade com o novo bispo cresceu um pouco em v\u00e1rios sectores da vida pol\u00edtico-social. T\u00ednhamos de novo um bispo do Porto a afirmar preto no branco que o futuro n\u00e3o se \u201cfaz s\u00f3 com grupos, s\u00f3 com partidos, s\u00f3 com determinadas pessoas\u201d.<\/p>\n<p>Na sua \u00faltima entrevista \u00e0 Renascen\u00e7a, dada a 14 de Julho ao Miguel Coelho, ouvimo-lo mais uma vez falar do Porto j\u00e1 como a sua cidade que n\u00e3o se pode \u201cresumir a monumentos, \u00e9 alma, vida e gente\u201d. Mas nada de vozes do Restelo. Sem saudosismos, falou de um Porto desertificado muito antes da invas\u00e3o de turistas, almas bem-vindas (\u201ctamb\u00e9m quem nos visita \u00e9 gente!\u201d) para dar vida \u00e0 nova cidade, desde que esta n\u00e3o perca as suas gentes que sabem acolher como ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Homem de fazer pontes e promover encontros n\u00e3o deixou de envolver todos incluindo as outras confiss\u00f5es religiosas num mesmo di\u00e1logo. Preocupado com a cidade, abriu as portas da Igreja aos n\u00e3o crentes, fazendo-a participar na vida comum e enriquecendo o patrim\u00f3nio tur\u00edstico, quer com a enorme reabilita\u00e7\u00e3o dos Cl\u00e9rigos, quer com a abertura da sua pr\u00f3pria casa (o frio, mas lind\u00edssimo Pa\u00e7o Episcopal), uma pequena maravilha at\u00e9 aqui escondida dos olhos dos portuenses e estrangeiro.<\/p>\n<p>Homem pr\u00e1tico arranjou tamb\u00e9m com isso novas receitas para uma Igreja depauperada.<\/p>\n<p>Ganhou o respeito de empres\u00e1rios e comerciantes e nem os militares ficaram de fora desse espirito de proximidade e coopera\u00e7\u00e3o. O Porto voltou a perder um D. Ant\u00f3nio que marcar\u00e1 de novo a cidade enquanto bispo. Ambos t\u00e3o perto da doutrina que Francisco nos pede, ansiosamente, para adoptar. Partiu inesperadamente este homem bom que adoptou como divisa episcopal \u201cnas tuas m\u00e3os\u201d. Hoje, subitamente, cumpriu-se a divisa.<\/p>\n<p>[Gra\u00e7a Franco,&nbsp;<a href=\"http:\/\/rr.sapo.pt\/artigo\/93063\/morreu_um_homem_bom_e_um_grande_bispo\" target=\"_blank\">Renascen\u00e7a<\/a>]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando morre um homem bom o mundo fica mais pobre. 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