{"id":595,"date":"2018-11-19T16:07:47","date_gmt":"2018-11-19T16:07:47","guid":{"rendered":"https:\/\/site.manuelpedreiro.net\/escutar-o-clamor-dos-pobres-por-pedro-vaz-patto\/"},"modified":"2018-11-19T16:07:47","modified_gmt":"2018-11-19T16:07:47","slug":"escutar-o-clamor-dos-pobres-por-pedro-vaz-patto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/escutar-o-clamor-dos-pobres-por-pedro-vaz-patto\/","title":{"rendered":"ESCUTAR O CLAMOR DOS POBRES por Pedro Vaz Patto"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\">ESCUTAR O CLAMOR DOS POBRES<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\" title=\"\"><\/a>[1]<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quero, antes de mais, agradecer o convite para vos falar, saudar o Sr. Bispo e a todos, e exprimir a minha alegria por estar hoje aqui convosco.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Serve-nos de inspira\u00e7\u00e3o para a celebra\u00e7\u00e3o deste Dia Mundial dos Pobres a mensagem do Santo Padre que alude no seu t\u00edtulo \u00e0 escuta e resposta ao clamor dos pobres (<i>Sl <\/i>34,7). Diz o Papa nessa mensagem (n. 2), referindo-se ao clamor, ou brado, dos pobres: \u00ab<i>como \u00e9 poss\u00edvel que este brado, que sobe \u00e0 presen\u00e7a de Deus, n\u00e3o consiga chegar aos nossos ouvidos e nos deixe indiferentes e impass\u00edveis? Num&nbsp;Dia&nbsp;como este, somos chamados a fazer um s\u00e9rio exame de consci\u00eancia para compreender se somos verdadeiramente capazes de escutar os pobres<\/i>.\u00bb Por muito merit\u00f3ria que seja uma qualquer a\u00e7\u00e3o social, h\u00e1 que ver se ela nasce dessa escuta do clamor dos pobres, das suas ang\u00fastias e sofrimentos, tal como Deus escuta esse clamor, essas ang\u00fastias e sofrimentos.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Serve-nos de inspira\u00e7\u00e3o para a celebra\u00e7\u00e3o deste Dia Mundial dos Pobres a mensagem do Santo Padre que alude no seu t\u00edtulo \u00e0 escuta e resposta ao clamor dos pobres (<i>Sl <\/i>34,7). Diz o Papa nessa mensagem (n. 2), referindo-se ao clamor, ou brado, dos pobres: \u00ab<i>como \u00e9 poss\u00edvel que este brado, que sobe \u00e0 presen\u00e7a de Deus, n\u00e3o consiga chegar aos nossos ouvidos e nos deixe indiferentes e impass\u00edveis? Num&nbsp;Dia&nbsp;como este, somos chamados a fazer um s\u00e9rio exame de consci\u00eancia para compreender se somos verdadeiramente capazes de escutar os pobres<\/i>.\u00bb Por muito merit\u00f3ria que seja uma qualquer a\u00e7\u00e3o social, h\u00e1 que ver se ela nasce dessa escuta do clamor dos pobres, das suas ang\u00fastias e sofrimentos, tal como Deus escuta esse clamor, essas ang\u00fastias e sofrimentos.<\/p>\n<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Gostaria de come\u00e7ar por evocar um evento em que participei h\u00e1 pouco tempo, por ocasi\u00e3o do Dia Internacional para a Erradica\u00e7\u00e3o da Pobreza, uma efem\u00e9rida do \u00e2mbito civil. Essa efem\u00e9ride serviu de ocasi\u00e3o para uma iniciativa ecum\u00e9nica que reuniu crist\u00e3os de v\u00e1rias denomina\u00e7\u00f5es em torno da tem\u00e1tica da Mensagem b\u00edblica como \u00ab<i>fundamento e contributo para a erradica\u00e7\u00e3o da pobreza<\/i>\u00bb (assim se designava a iniciativa) .<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A este respeito, do contributo que pode dar a inspira\u00e7\u00e3o b\u00edblica no combate \u00e0 pobreza no mundo, recordei um livro de um rabino brit\u00e2nico muito conhecido (recebeu o pr\u00e9mio Templeton, uma esp\u00e9cie de pr\u00e9mio Nobel para a religi\u00e3o), Jonathan Sachs. O livro tem por t\u00edtulo <i>Not in my name<\/i> (<i>N\u00e3o em meu nome<\/i>) e pretende demonstrar como a mensagem b\u00edblica bem interpretada e n\u00e3o instrumentalizada \u00e9 o melhor ant\u00eddoto contra a utiliza\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o para tentar justificar a viol\u00eancia (a viol\u00eancia em nome de Deus). E come\u00e7a por salientar um aspeto do que representa a novidade dessa mensagem no contexto da hist\u00f3ria da humanidade e da hist\u00f3ria das religi\u00f5es: um Deus que se coloca do lado dos pobres (que houve o seu clamor), dos vulner\u00e1veis e que n\u00e3o t\u00eam poder. As religi\u00f5es polite\u00edstas, pelo contr\u00e1rio, serviam de justifica\u00e7\u00e3o do poder hier\u00e1rquico pol\u00edtico e social; nelas, o fara\u00f3, o imperador ou o rei eram, de v\u00e1rios modos, equiparados a Deus; nelas, o divino estava do lado do poder humano e era instrumento de fortalecimento desse poder. A novidade da B\u00edblia hebraica (o Antigo Testamento, para os crist\u00e3os) est\u00e1 na valoriza\u00e7\u00e3o de qualquer pessoa como \u00abi<i>magem e semelhan\u00e7a de Deus<\/i>\u00bb, de um Deus que interv\u00e9m na hist\u00f3ria para libertar os que n\u00e3o t\u00eam poder, em defesa dos mais pobres, fracos e vulner\u00e1veis. Os profetas b\u00edblicos criticam e enfrentam o poder e promovem uma ordem social de justi\u00e7a, amor e paz. E a prop\u00f3sito da viol\u00eancia, salienta Jonathan Sachs que o caminho da viol\u00eancia em nome da religi\u00e3o \u00e9 o da vontade do poder, o de Caim, n\u00e3o o do Deus revelado na B\u00edblia, que a essa viol\u00eancia de Caim responde: \u00ab<i>A voz do sangue do teu irm\u00e3o clama da terra at\u00e9 mim<\/i>\u00bb (<i>Gn<\/i> 4, 10).<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com o Novo Testamento \u2013 podemos n\u00f3s acrescentar \u00e0 tese de Jonathan Sachs \u2013 um outro passo \u00e9 dado no sentido da identifica\u00e7\u00e3o do Deus omnipotente com os mais pobres e impotentes. Jesus, o Homem-Deus, considera feito a Si o que fazemos ao mais pequeno e mais fraco dos nossos irm\u00e3os (<i>Mt<\/i>, 25, 31-46). Foi o que procurei salientar nessa iniciativa realizada por ocasi\u00e3o do Dia Mundial para a Erradica\u00e7\u00e3o da Pobreza, que tinha por tem\u00e1tica a B\u00edblia \u00ab<i>como fundamento e contributo para a erradica\u00e7\u00e3o da pobreza<\/i>\u00bb: n\u00e3o encontro motiva\u00e7\u00e3o e convic\u00e7\u00e3o interior mais fortes do que esta para combater a pobreza como viola\u00e7\u00e3o da dignidade humana \u2013 Deus que considera feito a Si o que fazemos aos mais pobres. Aqui reside o maior \u00ab<i>fundamento e contributo<\/i>\u00bb (como sugeria o t\u00edtulo desse evento) da B\u00edblia para a erradica\u00e7\u00e3o da pobreza.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Considerar a esta luz o combate pela erradica\u00e7\u00e3o da pobreza n\u00e3o pode deixar de ter consequ\u00eancias. Se Deus considera feito a Si o que fazemos aos mais pobres, imp\u00f5e-se que, na nossa rela\u00e7\u00e3o com os pobres afastemos qualquer sobranceria paternalista que os menoriza e fere na sua dignidade, tal como a indiferen\u00e7a e frieza burocr\u00e1ticas que os trata como n\u00fameros de estat\u00edstica.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando nesse Dia Mundial para a Erradica\u00e7\u00e3o da Pobreza fui interpelado na rua por um ou dois pedintes (como certamente vos sucede com alguma frequ\u00eancia), associei esses dois factos: aquele pobre e a efem\u00e9ride desse dia, relativa \u00e0 erradica\u00e7\u00e3o da pobreza; um sinal claro da pobreza a eliminar que me interpelava. \u00c9 claro que me veio \u00e0 mente a ideia de que n\u00e3o era certamente a minha esmola que iria erradicar a pobreza, nem sequer aquela de que notoriamente padecia aquele pedinte. Mas tamb\u00e9m me ocorreu a advert\u00eancia do Evangelho: naquela pessoa vejo a imagem de Jesus, Deus feito Homem. E isso n\u00e3o pode deixar de ter consequ\u00eancias na minha atitude para com ele, para al\u00e9m da esmola.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesse dia, foi tamb\u00e9m interpelado por jornalistas enquanto presidente da Comiss\u00e3o Nacional Justi\u00e7a e Paz. E recordei, a prop\u00f3sito, uma resolu\u00e7\u00e3o da Assembleia da Rep\u00fablica de h\u00e1 v\u00e1rios anos que partiu da iniciativa dessa Comiss\u00e3o quando era presidida por Alfredo Bruto da Costa (de saudosa mem\u00f3ria, que dedicou toda a sua vida a esta causa, como poucos em Portugal), resolu\u00e7\u00e3o aprovada por unanimidade, que define a pobreza como viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos, ou seja, como afronta \u00e0 dignidade da pessoa humana. N\u00e3o sou, como era Alfredo Bruto da Costa, especialista nesta \u00e1rea e, por isso, n\u00e3o soube responder \u00e0 pergunta concreta sobre que medidas devem ser tomadas para erradicar a pobreza em Portugal. Mas quis salientar que considerar a pobreza como viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos d\u00e1 uma prioridade ao objetivo da sua erradica\u00e7\u00e3o que n\u00e3o pode ser esquecida, mas que tem sido esquecida com frequ\u00eancia. \u00c9, antes de mais, uma prioridade, que deve sobrepor-se a outros objetivos de pol\u00edtica econ\u00f3mica e social, como v\u00e1rias vezes salientou Alfredo Bruto da Costa.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Recordo que, segundo dados do Eurostat (organismo de estat\u00edstica da Uni\u00e3o Europeia) revelados tamb\u00e9m nesse Dia Mundial da Erradica\u00e7\u00e3o da Pobreza, 23, 3% da popula\u00e7\u00e3o portuguesa corre risco de pobreza ou exclus\u00e3o social.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Conv\u00e9m salientar o seguinte, para n\u00e3o alimentar equ\u00edvocos. Quando falamos da pobreza como viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos a erradicar, falamos da car\u00eancia de bens necess\u00e1rios a uma vida conforme \u00e0 dignidade humana num determinado contexto social, falamos de mis\u00e9ria. Outra \u00e9 a no\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m surge no Evangelho da pobreza como bem-aventuran\u00e7a ou como virtude, que implica a ren\u00fancia volunt\u00e1ria ao sup\u00e9rfluo, mas n\u00e3o a priva\u00e7\u00e3o do que \u00e9 necess\u00e1rio a uma vida digna. \u00c9 neste outro sentido que Santa Teresa de \u00c1vila, citada na mensagem do Papa para este dia (n. 9), fala da pobreza como \u00ab<i>um bem que encerra em si todos os bens do mundo; assegura-nos um grande dom\u00ednio; quero dizer que nos torna senhores de todos os bens terrenos, uma vez que nos leva a desprez\u00e1-los<\/i>\u00bb.&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ver Jesus no pobre tem consequ\u00eancias nas a\u00e7\u00f5es de proximidade (o amor ao pr\u00f3ximo no sentido da pessoa concreta que est\u00e1 fisicamente pr\u00f3xima de n\u00f3s), mas tamb\u00e9m em a\u00e7\u00e3o de \u00e2mbito estrutural (tamb\u00e9m todos os pobres que desconhe\u00e7o, todos eles v\u00edtimas das estruturas que geram a pobreza, s\u00e3o, um \u201cpr\u00f3ximo\u201d para amar, tamb\u00e9m eles s\u00e3o imagem de Jesus).<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Justifica-se que me detenha nestes dois aspectos, que por vezes se contrap\u00f5em, mas que n\u00e3o devem ser contrapostos.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; H\u00e1 que combater as causas estruturais da pobreza. O Papa Francisco vem salientando este aspeto, a partir da exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica <i>Evangelii Gaudium<\/i>. A a\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o Nacional Justi\u00e7a e Paz incide sobretudo neste plano e numa perspetiva de forma\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o, da mentalidade, no \u00e2mbito da Igreja e no \u00e2mbito da sociedade: criar e favorecer uma opini\u00e3o e uma mentalidade que atenda \u00e0s causas estruturais da pobreza, mais do que situa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas de pobreza que nos sejam pr\u00f3ximas. A prop\u00f3sito da import\u00e2ncia do combate \u00e0s causas estruturais da pobreza, Alfredo Bruto da Costa usava esta imagem: se n\u00e3o combatemos as causas da pobreza, tamb\u00e9m no plano pol\u00edtico, podemos estar a enxugar o ch\u00e3o de uma casa inundada sem fechar a torneira que est\u00e1 na origem dessa inunda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas isso n\u00e3o dispensa a\u00e7\u00f5es imediatas de proximidade que podem sempre atenuar o fen\u00f3meno (<i>dar de comer a quem tem fome<\/i>) at\u00e9 que sejam alteradas essas causas estruturais, altera\u00e7\u00e3o que, de resto, poder\u00e1 demorar mais tempo do que o tempo de vida que resta a muitos pobres. Muitos de v\u00f3s certamente combatem a pobreza deste modo e atrav\u00e9s destas a\u00e7\u00f5es de proximidade. \u00c9 errado esquecer a import\u00e2ncia de combater as causas estruturais da pobreza. Mas tamb\u00e9m \u00e9 errada e contra o Evangelho uma outra atitude corrente, que desvaloriza estas a\u00e7\u00f5es imediatas de proximidade e que, sob o pretexto da necessidade de combater as causas estruturais da pobreza, pensa em delegar na pol\u00edtica e no Estado o combate \u00e0 pobreza, como se cada um de n\u00f3s individualmente se pudesse eximir a essa responsabilidade, esquecendo a imagem de Jesus naquele pobre que passa ao meu lado e que n\u00e3o pode esperar que se eliminem tais causas estruturais.<\/p>\n<p>Esta quest\u00e3o, destas duas dimens\u00f5es necess\u00e1rias do combate \u00e0 pobreza, tamb\u00e9m se liga \u00e0 da rela\u00e7\u00e3o entre a justi\u00e7a e a caridade, um ponto fulcral da doutrina social da Igreja.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A palavra \u201ccaridade\u201d tem muitas vezes um sentido pejorativo, como simples assistencialismo. N\u00e3o \u00e9 esse o seu verdadeiro sentido. Afirma o Papa em\u00e9rito Bento XVI, na enc\u00edclica <i>Caritas in veritate <\/i>(n.1): \u00ab<i>A caridade na verdade, que Jesus Cristo testemunhou com a sua vida terrena e sobretudo com a sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o, \u00e9 a for\u00e7a propulsora principal para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira. O amor \u2014 <\/i>\u201ccaritas\u201d<i> \u2014 \u00e9 uma for\u00e7a extraordin\u00e1ria, que impele as pessoas a comprometerem-se, com coragem e generosidade, no campo da justi\u00e7a e da paz. \u00c9 uma for\u00e7a que tem a sua origem em Deus, Amor eterno e Verdade absoluta.<\/i>\u00bb<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas importa salientar o que s\u00e3o deveres de justi\u00e7a, que s\u00e3o um pressuposto da caridade. Quando falamos em erradica\u00e7\u00e3o da pobreza como viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos, falamos de um dever de justi\u00e7a, que pode ser exigido como tal, e n\u00e3o pode depender da simples boa vontade de uma ou mais pessoas. Tamb\u00e9m nesta perspetiva, de pouco valer\u00e1 uma oferta a obras sociais da Igreja (que poderia ser movida pela caridade) quando n\u00e3o se paga um sal\u00e1rio justo ou n\u00e3o se pagam os impostos legalmente devidos (que s\u00e3o deveres de justi\u00e7a).<\/p>\n<p>Afirma a este respeito o Papa em\u00e9rito &nbsp;Bento XVI, tamb\u00e9m na enc\u00edclica <i>Caritas in veritate <\/i>(n.6): \u00ab<i>Em primeiro lugar, a justi\u00e7a.&nbsp;<\/i>Ubi societas, ibi ius<i>: cada sociedade elabora um sistema pr\u00f3prio de justi\u00e7a.&nbsp;A caridade supera a justi\u00e7a, porque amar \u00e9 dar, oferecer ao outro do que \u00e9 \u201cmeu\u201d; mas nunca existe sem a justi\u00e7a, que induz a dar ao outro o que \u00e9 \u201cdele\u201d, o que lhe pertence em raz\u00e3o do seu ser e do seu agir. N\u00e3o posso \u201cdar\u201d ao outro do que \u00e9 meu, sem antes lhe ter dado aquilo que lhe compete por justi\u00e7a. Quem ama os outros com caridade \u00e9, antes de mais nada, justo para com eles. A justi\u00e7a n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 alheia \u00e0 caridade, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 um caminho alternativo ou paralelo \u00e0 caridade, mas \u00e9 \u201cinsepar\u00e1vel da caridade\u201d, \u00e9-lhe intr\u00ednseca. A justi\u00e7a \u00e9 o primeiro caminho da caridade ou, como chegou a dizer Paulo VI, \u201ca medida m\u00ednima\u201d dela, parte integrante daquele amor \u201cpor a\u00e7\u00f5es e em verdade\u201d (1 Jo&nbsp;3, 18) a que nos exorta o ap\u00f3stolo Jo\u00e3o. Por um lado, a caridade exige a justi\u00e7a: o reconhecimento e o respeito dos leg\u00edtimos direitos dos indiv\u00edduos e dos povos. Aquela empenha-se na constru\u00e7\u00e3o da \u201ccidade do homem\u201d segundo o direito e a justi\u00e7a. Por outro, a caridade supera a justi\u00e7a e completa-a com a l\u00f3gica do dom e do perd\u00e3o. A \u201ccidade do homem\u201d n\u00e3o se move apenas por rela\u00e7\u00f5es feitas de direitos e de deveres, mas antes e sobretudo por rela\u00e7\u00f5es de gratuidade, miseric\u00f3rdia e comunh\u00e3o. A caridade manifesta sempre, mesmo nas rela\u00e7\u00f5es humanas, o amor de Deus; d\u00e1 valor teologal e salv\u00edfico a todo o empenho de justi\u00e7a no mundo.<\/i>\u00bb<\/p>\n<p>Ou seja, a caridade pressup\u00f5e a justi\u00e7a, mas vai para al\u00e9m dela, porque s\u00f3 a caridade (corretamente entendida, como plena doa\u00e7\u00e3o de si mesmo) permite alcan\u00e7ar a aut\u00eantica e completa harmonia social. Erradicar a pobreza enquanto car\u00eancia de bens materiais b\u00e1sicos \u00e9 uma exig\u00eancia da justi\u00e7a, mas h\u00e1 dimens\u00f5es da pobreza e do sofrimento humano que s\u00f3 a caridade, mais do que qualquer medida pol\u00edtica, permite enfrentar.<\/p>\n<p>Diz, a este respeito, o Papa em\u00e9rito Bento XVI na enc\u00edclica <i>Deus caritas est <\/i>(n. 28):<\/p>\n<p>\u00ab<i>O amor \u2014&nbsp;<\/i>caritas&nbsp;<i>\u2014 ser\u00e1 sempre necess\u00e1rio, mesmo na sociedade mais justa. N\u00e3o h\u00e1 qualquer ordenamento estatal justo que possa tornar sup\u00e9rfluo o servi\u00e7o do amor. Quem quer desfazer-se do amor, prepara-se para se desfazer do homem enquanto homem. Sempre haver\u00e1 sofrimento que necessita de consola\u00e7\u00e3o e ajuda. Haver\u00e1 sempre solid\u00e3o. Existir\u00e3o sempre tamb\u00e9m situa\u00e7\u00f5es de necessidade material, para as quais \u00e9 indispens\u00e1vel uma ajuda na linha de um amor concreto ao pr\u00f3ximo.&nbsp; Um Estado, que queira prover a tudo e tudo a\u00e7ambarque, torna-se no fim de contas uma inst\u00e2ncia burocr\u00e1tica, que n\u00e3o pode assegurar o essencial de que o homem sofredor \u2014 todo o homem \u2014 tem necessidade: a amorosa dedica\u00e7\u00e3o pessoal. N\u00e3o precisamos de um Estado que regule e domine tudo, mas de um Estado que generosamente reconhe\u00e7a e apoie, segundo o princ\u00edpio de subsidiariedade, as iniciativas que nascem das diversas for\u00e7as sociais e conjugam espontaneidade e proximidade aos homens carecidos de ajuda<\/i>\u00bb.<\/p>\n<p>Recordo a prop\u00f3sito a a\u00e7\u00e3o de Santa Teresa de Calcut\u00e1, que ia muito para al\u00e9m da distribui\u00e7\u00e3o de alimentos. E vem tamb\u00e9m a prop\u00f3sito evocar as not\u00edcias que t\u00eam sido divulgadas sobre o plano do governo brit\u00e2nico para enfrentar a solid\u00e3o como problema de sa\u00fade p\u00fablica\u2026<\/p>\n<p>Este \u00e9 um aspeto que torna oportuna a concretiza\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio da subsidiariedade, um princ\u00edpio b\u00e1sico da doutrina social da Igreja, no \u00e2mbito da pol\u00edtica social.<\/p>\n<p>O Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica refere- se a esse princ\u00edpio nestes termos (n. 186):<\/p>\n<p><i>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00abCom base neste princ\u00edpio, todas as sociedades de ordem superior devem p\u00f4r-se em atitude de ajuda&nbsp;<\/i><i>(\u201cs<\/i>ubsidium<i>\u201d) \u2014&nbsp;e portanto de apoio, promo\u00e7\u00e3o e incremento&nbsp;\u2014&nbsp;em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s menores. Desse modo os corpos sociais interm\u00e9dios podem cumprir adequadamente as fun\u00e7\u00f5es que lhes competem, sem ter que ced\u00ea-las injustamente a outros entes sociais de n\u00edvel superior, pelas quais acabariam por ser absorvidos e substitu\u00eddos, e por ver-se negar, ao fim e ao cabo, dignidade pr\u00f3pria e espa\u00e7o vita<\/i>l.\u00bb<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O princ\u00edpio da subsidiariedade contraria uma conce\u00e7\u00e3o de Estado omnipresente, monopolista e centralizador, que suprime a liberdade, mas tamb\u00e9m a responsabilidade, das pessoas e dos grupos sociais menores. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o se confunde com a conce\u00e7\u00e3o liberal do Estado m\u00ednimo. Estado supletivo, ou subsidi\u00e1rio, n\u00e3o \u00e9 o Estado omisso ou indiferente, \u00e9 o Estado que regula as iniciativas da sociedade civil em fun\u00e7\u00e3o do bem comum, as apoia quando o bem comum o exige e supre as suas insufici\u00eancias tamb\u00e9m quando o bem comum o exige. Em suma, n\u00e3o deve dizer-se: \u201c<i>quanto mais Estado, melhor<\/i>\u201d; mas tamb\u00e9m n\u00e3o deve dizer-se: \u201c<i>quanto menos Estado, melhor<\/i>\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ser\u00e1 particularmente oportuno ter presente esse princ\u00edpio quando se discutem quest\u00f5es relativas \u00e0 reforma do Estado Social. Podemos dizer que na raiz do Estado Social est\u00e1 o princ\u00edpio da solidariedade. O desafio da reforma do Estado Social deve passar n\u00e3o pela desvaloriza\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio da solidariedade que est\u00e1 na sua base, mas pela articula\u00e7\u00e3o desse princ\u00edpio com o da subsidiariedade.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; As iniciativas da sociedade (entre elas as da Igreja) no \u00e2mbito da solidariedade social s\u00e3o marcadas pela proximidade das situa\u00e7\u00f5es concretas, pela espontaneidade de quem \u00e9 movido por ideais (\u00e9 este o seu \u201cdever ser\u201d), pela caridade corretamente entendida, ou seja, pela doa\u00e7\u00e3o plena de si mesmo. Toda a comunidade ganha com isso, com a genuinidade de uma motiva\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se imp\u00f5e ou decreta. N\u00e3o se trata, pois, apenas de poupar despesas ao Estado, mas de dar aquilo que o Estado, enquanto tal, n\u00e3o pode dar.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A prop\u00f3sito das dimens\u00f5es da pobreza que s\u00f3 a caridade como doa\u00e7\u00e3o plena de si mesmo permite enfrentar, gostaria de partilhar convosco a impress\u00e3o marcante que em mim deixou uma iniciativa que conheci por ocasi\u00e3o do \u00faltimo encontro das comiss\u00f5es justi\u00e7a e paz europeias que decorreu em Barcelona.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A igreja de Sant\u00b4Ana, monumento de estilo g\u00f3tico, situa-se em pleno centro de Barcelona, numa zona hoje quase desprovida de residentes, repleta de lojas e hot\u00e9is. Os paroquianos residentes escasseiam e o destino de algumas igrejas em zonas como esta de outros pa\u00edses europeus tem sido a venda para outros fins que n\u00e3o o culto, por vezes at\u00e9 o de restaurantes ou bares. Neste contexto, a op\u00e7\u00e3o dos respons\u00e1veis da par\u00f3quia foi a de acolher durante doze horas por dia alguns dos poucos habitantes permanentes que permanecem nestas zonas, isto \u00e9, os \u201csem-abrigo\u201d. Durante esse per\u00edodo, a igreja est\u00e1 aberta para os acolher, para lhes oferecer algum alimento, mas sobretudo para os escutar (\u00ab<i>escutar o clamor dos pobres<\/i>\u00bb, como diz o Papa Francisco na sua mensagem para este dia), para comungar das suas ang\u00fastias e anseios. Mais do que algum apoio social que outras institui\u00e7\u00f5es prestam, e para as quais ser\u00e3o encaminhados se for necess\u00e1rio, \u00e9 \u00e0 escuta desses \u201csem-abrigo\u201d que se dedicam os volunt\u00e1rios (com algum apoio profissional) que a\u00ed passam essas horas. \u201c<i>Hospital de campanha<\/i>\u201d &#8211; foi a designa\u00e7\u00e3o escolhida para a iniciativa, como eco da conhecida imagem que o Papa Francisco tem usado para caracterizar a miss\u00e3o da Igreja hoje. O acolhimento decorre na pr\u00f3pria igreja, n\u00e3o nalgum seu anexo, numa zona separada da do sacr\u00e1rio, mas n\u00e3o muito longe dele.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O facto de o acolhimento ocorrer na pr\u00f3pria igreja, e n\u00e3o noutro espa\u00e7o que a par\u00f3quia tamb\u00e9m poderia ter dispon\u00edvel, \u00e9 propositado e teologicamente fundamentado, de acordo com os respons\u00e1veis da iniciativa. Outros poder\u00e3o n\u00e3o compreender esta escolha e ficar at\u00e9 escandalizados com a utiliza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o da igreja para este fim, que, al\u00e9m do mais, exige acrescidos esfor\u00e7os dos servi\u00e7os de limpeza. Ou pensar que a igreja se torna, assim, mais pr\u00f3xima de uma simples institui\u00e7\u00e3o de apoio social (uma simples <i>ONG<\/i>). A fundamenta\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica dessa op\u00e7\u00e3o de acolher os \u201csem-abrigo\u201d na pr\u00f3pria igreja foi-nos explicada deste modo: a porta da igreja deve ser uma s\u00f3, a mesma porta serve para a liturgia e para a a\u00e7\u00e3o de amor aos pobres. Jesus est\u00e1 presente no sacr\u00e1rio e tamb\u00e9m est\u00e1 presente nos pobres; a eucaristia \u00e9 o corpo de Jesus, como os pobres s\u00e3o a carne de Jesus.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 por acaso que esta a\u00e7\u00e3o de acolhimento e escuta decorre entre as imagens sacras que desde h\u00e1 s\u00e9culos embelezam aquela igreja. A imagem da <i>Piet\u00e1 <\/i>a\u00ed presente leva muitos daqueles pobres a identificar-se com Jesus morto acolhido pela sua m\u00e3e. Ou a pensar que um dia poder\u00e3o estar no lugar de Maria como uma m\u00e3e que acolhe um filho sofredor. A a\u00e7\u00e3o deste \u201c<i>hospital de campanha<\/i>\u201d tem levado alguns dos feridos que nele s\u00e3o acolhidos (daqueles \u201csem-abrigo\u201d) a aproximarem-se de Deus e dos sacramentos, ou das suas fam\u00edlias de que h\u00e1 muito tempo estavam afastados; n\u00e3o todos certamente, porque o fen\u00f3meno dos \u201csem-abrigo\u201d \u00e9, como \u00e9 sabido, muito complexo e de dif\u00edcil acompanhamento. O que nos disseram foi que estes, como os pobres que tocam o abismo do desespero, com frequ\u00eancia se tornam profundamente revoltados ou, ent\u00e3o, profundamente religiosos. Pensando nestes frutos de convers\u00e3o a Deus, \u00e9 claro que esta a\u00e7\u00e3o se distingue bem da de uma simples <i>ONG<\/i>.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N\u00e3o digo que esta iniciativa seja um modelo a reproduzir em qualquer contexto, mas parece-me significativa e merecedora de reflex\u00e3o neste Dia Mundial dos Pobres, em que somos convidados a escutar o seu clamor.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Gostaria agora de sublinhar alguns aspetos da mensagem do Papa para este Dia.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nela se aborda a quest\u00e3o da colabora\u00e7\u00e3o com outras institui\u00e7\u00f5es, p\u00fablicas ou privadas, unidas num mesmo prop\u00f3sito de solidariedade para com os pobres. Essa colabora\u00e7\u00e3o \u00e9 enaltecida sem que com ela se deva perder o que \u00e9 pr\u00f3prio da a\u00e7\u00e3o da Igreja. Afirma o Papa (n. 7): \u00ab<i>Somos movidos pela f\u00e9 e pelo imperativo da caridade, mas sabemos reconhecer outras formas de ajuda e solidariedade que se prop\u00f5em, em parte, os mesmos objetivos; desde que n\u00e3o transcuremos aquilo que nos \u00e9 pr\u00f3prio, ou seja, conduzir todos a Deus e \u00e0 santidade<\/i>\u00bb.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sublinha-se a import\u00e2ncia de nos colocarmos numa atitude de verdadeiro servi\u00e7o, que d\u00e1 ao pobre a primazia, e de evitar a tenta\u00e7\u00e3o do protagonismo. Diz o Papa (n. 2) referindo-se aos pobres: \u00ab<i>Necessitamos da escuta silenciosa para reconhecer a sua voz. Se n\u00f3s falarmos demasiado, n\u00e3o conseguiremos escut\u00e1-los a eles. Muitas vezes, temo que tantas iniciativas, apesar de merit\u00f3rias e necess\u00e1rias, visem mais comprazer-nos a n\u00f3s mesmos do que acolher verdadeiramente o clamor do pobre.<\/i>\u00bb E diz tamb\u00e9m o Papa (n. 7): \u00ab<i>Quando encontramos o modo para nos aproximar dos pobres, saibamos que a primazia compete a Ele <\/i>(a Deus) <i>que abriu os nossos olhos e o nosso cora\u00e7\u00e3o \u00e0 convers\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 de protagonismo que os pobres t\u00eam necessidade, mas de amor que sabe esconder-se e esquecer o bem realizado<\/i>\u00bb.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O Papa quer que a celebra\u00e7\u00e3o deste dia seja marcada pela alegria. Afirma (n. 6): \u00ab<i>Muitos encontraram o calor duma casa, a alegria duma refei\u00e7\u00e3o festiva e a solidariedade de quantos quiseram compartilhar a mesa de forma simples e fraterna. Gostaria que, tamb\u00e9m neste ano e para o futuro, este&nbsp;Dia&nbsp;fosse celebrado sob o signo da alegria pela reencontrada capacidade de estar juntos. Rezar juntos em comunidade e compartilhar a refei\u00e7\u00e3o no dia de domingo \u00e9 uma experi\u00eancia que nos leva de volta \u00e0 primitiva comunidade crist\u00e3, que o evangelista Lucas descreve em toda a sua originalidade e simplicidade: \u201cEram ass\u00edduos ao ensino dos Ap\u00f3stolos, \u00e0 uni\u00e3o fraterna, \u00e0 fra\u00e7\u00e3o do p\u00e3o e \u00e0s ora\u00e7\u00f5es. (\u2026) Todos os crentes viviam unidos e possu\u00edam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribu\u00edam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um\u201d (<\/i>At&nbsp;<i>2, 42.44-45)<\/i>\u00bb.<\/p>\n<p>E a mensagem conclui com um apelo \u00e0 evangeliza\u00e7\u00e3o: que este dia seja ocasi\u00e3o de uma nova evangeliza\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o no sentido em que nos caiba a n\u00f3s evangelizar os pobres; eles tamb\u00e9m nos evangelizam a n\u00f3s. Afirma o Papa (n. 10): \u00ab<i>Os pobres evangelizam-nos, ajudando-nos a descobrir cada dia a beleza do Evangelho. N\u00e3o deixemos cair em saco roto esta oportunidade de gra\u00e7a. Neste dia, sintamo-nos todos devedores para com eles, a fim de que, estendendo reciprocamente as m\u00e3os uns para os outros, se realize o encontro salv\u00edfico que sustenta a f\u00e9, torna concreta a caridade e habilita a esperan\u00e7a a prosseguir segura no caminho rumo ao Senhor que vem.<\/i>\u00bb<\/p>\n<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Coimbra, 18 de novembro de 2018<\/p>\n<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Pedro Maria Godinho Vaz Patto&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Presidente da Comiss\u00e3o Nacional Justi\u00e7a e Paz<\/p>\n<div><br clear=\"all\" \/><\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\" title=\"\"><\/a>[1] Comunica\u00e7\u00e3o apresentada na celebra\u00e7\u00e3o do Dia Mundial dos Pobres que decorreu na diocese de Coimbra<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ESCUTAR O CLAMOR DOS POBRES[1] &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 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