{"id":770,"date":"2022-03-08T11:49:02","date_gmt":"2022-03-08T11:49:02","guid":{"rendered":"https:\/\/site.manuelpedreiro.net\/a-paz-podera-vencer-a-guerra-por-pedro-vaz-patto\/"},"modified":"2022-03-08T11:49:02","modified_gmt":"2022-03-08T11:49:02","slug":"a-paz-podera-vencer-a-guerra-por-pedro-vaz-patto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/a-paz-podera-vencer-a-guerra-por-pedro-vaz-patto\/","title":{"rendered":"A PAZ PODER\u00c1 VENCER A GUERRA por Pedro Vaz Patto"},"content":{"rendered":"<h1 align=\"center\">A PAZ PODER\u00c1 VENCER A GUERRA<\/h1>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Estamos no s\u00e9culo XXI e isto n\u00e3o acontece muito longe das vossas fronteiras<\/em>\u00bb &#8211; Esta frase foi insistentemente repetida por um professor da Universidade Cat\u00f3lica da Ucr\u00e2nia numa videoconfer\u00eancia da assembleia das comiss\u00f5es Justi\u00e7a e Paz europeias em que participei. Esse orador repetia essa frase ao descrever o que se passa no seu pa\u00eds. Particularmente impressionante foi verificar as condi\u00e7\u00f5es em que proferiu tal relato: disse que iria fazer uma declara\u00e7\u00e3o curta e sair logo de imediato, porque tinham tocado as sirenes e teria de correr para um ref\u00fagio subterr\u00e2neo que o protegia de poss\u00edveis bombardeamentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este facto (pessoas abrigadas em ref\u00fagios) fez-me recordar hist\u00f3rias que ouvi v\u00e1rias vezes a quem viveu a Segunda Guerra Mundial e que pensava arquivadas num passado remoto. Tamb\u00e9m as imagens de pessoas desesperadas a fugir para a fronteira mais pr\u00f3xima fazem lembrar esse passado, que parecia bem distante (na Europa, \u00e9 certo, porque noutros continentes, mais afastados de n\u00f3s, n\u00e3o tem sido assim).<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Estamos no s\u00e9culo XXI e isto n\u00e3o acontece muito longe das vossas fronteiras<\/em>\u00bb &#8211; Esta frase foi insistentemente repetida por um professor da Universidade Cat\u00f3lica da Ucr\u00e2nia numa videoconfer\u00eancia da assembleia das comiss\u00f5es Justi\u00e7a e Paz europeias em que participei. Esse orador repetia essa frase ao descrever o que se passa no seu pa\u00eds. Particularmente impressionante foi verificar as condi\u00e7\u00f5es em que proferiu tal relato: disse que iria fazer uma declara\u00e7\u00e3o curta e sair logo de imediato, porque tinham tocado as sirenes e teria de correr para um ref\u00fagio subterr\u00e2neo que o protegia de poss\u00edveis bombardeamentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este facto (pessoas abrigadas em ref\u00fagios) fez-me recordar hist\u00f3rias que ouvi v\u00e1rias vezes a quem viveu a Segunda Guerra Mundial e que pensava arquivadas num passado remoto. Tamb\u00e9m as imagens de pessoas desesperadas a fugir para a fronteira mais pr\u00f3xima fazem lembrar esse passado, que parecia bem distante (na Europa, \u00e9 certo, porque noutros continentes, mais afastados de n\u00f3s, n\u00e3o tem sido assim).<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\"><span style=\"text-align: justify;\">Onde foi parar a tese do \u201cfim da Hist\u00f3ria\u201d (um mundo pac\u00edfico e baseado na universaliza\u00e7\u00e3o da democracia liberal e da economia de mercado) depois queda do muro de Berlim?. At\u00e9 h\u00e1 pouco, falava-se j\u00e1 do regresso da \u201cguerra fria\u201d, agora assistimos a uma guerra \u201cquente\u201d na Europa, o que leva a que se fale na mais grave crise de seguran\u00e7a neste continente desde o final da Segunda Guerra Mundial.<\/span><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse professor, na verdade, aludia, precisamente, \u00e0 hist\u00f3ria da Segunda Guerra Mundial. \u00ab<em>A Hist\u00f3ria repete-se<\/em>\u00bb &#8211; disse v\u00e1rias vezes. Estamos de novo perante um ditador paranoico que quer dominar o mundo espezinhando os direitos dos povos mais fracos. E citou o c\u00e9lebre discurso em que Wiston Churchill manifestava o prop\u00f3sito de a sua na\u00e7\u00e3o lutar por todo o lado (\u00ab<em>nos mares e nas praias<\/em>\u00bb) e nunca se render. Declarou que o povo ucraniano est\u00e1 a sacrificar-se pela sua liberdade, que \u00e9 tamb\u00e9m a liberdade de todos os europeus. N\u00e3o pediu que outras na\u00e7\u00f5es se envolvessem na guerra que atinge o seu pa\u00eds, mas fez um apelo a outro tipo de ajudas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez seja exagerado comparar Putin a Hitler. Mas alguns factos paralelos permitem afirmar que a Hist\u00f3ria se repete mesmo, e, sobretudo, que h\u00e1 quem n\u00e3o aprenda as li\u00e7\u00f5es da Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como salientou a Comiss\u00e3o Nacional Justi\u00e7a e Paz na sua nota recentemente publicada, parecem oportunas e atuais as palavras de Pio XII na sua radiomensagem de 24 de agosto de 1939, quando estava iminente o in\u00edcio da Segunda Guerra Mundial:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00ab<em>\u00c9 com a for\u00e7a da raz\u00e3o, n\u00e3o com a das armas, que a Justi\u00e7a progride. E os imp\u00e9rios que n\u00e3o s\u00e3o fundados sobre a Justi\u00e7a n\u00e3o s\u00e3o aben\u00e7oados por Deus. A pol\u00edtica emancipada da moral atrai\u00e7oa aqueles mesmos que a desejam. O perigo \u00e9 iminente, mas ainda h\u00e1 tempo. Nada se perde com a paz. Tudo pode ser perdido com a guerra<\/em>\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A alus\u00e3o de Pio XII (que n\u00e3o era, seguramente, e como aqui se v\u00ea, o \u201cpapa de Hitler\u201d) aos \u00ab<em>imp\u00e9rios que n\u00e3o s\u00e3o fundados sobre a Justi\u00e7a<\/em>\u201d e \u00e0 \u00ab<em>pol\u00edtica emancipada da moral<\/em>\u00bb tinha implicitamente em vista os planos agressores do nazismo. E pode aplicar-se hoje (salvaguardas as devidas propor\u00e7\u00f5es) aos planos agressores do governo russo. Hoje, como ent\u00e3o, pretende-se justificar falsamente uma guerra de agress\u00e3o com a alegada defesa de minorias nacionais (os alem\u00e3es de ent\u00e3o, da regi\u00e3o dos sudetas, na Checoslov\u00e1quia, ou de zonas da Pol\u00f3nia, s\u00e3o hoje as minorais russas que vivem em zonas da Ucr\u00e2nia).&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando nesse discurso Pio XII afirmava que \u00ab<em>tudo pode ser perdido com a guerra<\/em>\u00bb, estava a prever as consequ\u00eancias catastr\u00f3ficas que o desencadear da guerra de ent\u00e3o viria trazer. Hoje, tamb\u00e9m verificamos como a guerra da Ucr\u00e2nia prejudica, sim e antes de mais, o povo ucraniano, mas, verdadeiramente, n\u00e3o \u00e9 o povo russo, nem as minorias russas que vivem na Ucr\u00e2nia, que dela ir\u00e3o beneficiar. E, hoje como ent\u00e3o, sabemos como a guerra come\u00e7ou, n\u00e3o sabemos como vai acabar. Verdadeiramente, com esta guerra toda a humanidade perder\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dos escombros da Segunda Guerra Mundial e das li\u00e7\u00f5es que dela podemos colher, nasceu a Carta das Na\u00e7\u00f5es Unidas, que condena a guerra de agress\u00e3o ou como instrumento de regula\u00e7\u00e3o de conflitos internacionais. Ao \u201cdireito da for\u00e7a\u201d, quis-se substituir a \u201cfor\u00e7a do direito\u201d (\u00ab<em>\u00c9 com a for\u00e7a da raz\u00e3o, e n\u00e3o com a das armas que progride a Justi\u00e7a<\/em>\u00bb &#8211; j\u00e1 proclamava Pio XII naquele discurso de 1939). Nessa mudan\u00e7a estava a chave para que a terr\u00edvel e mort\u00edfera experi\u00eancia da Segunda Guerra Mundial n\u00e3o voltasse a repetir-se. A guerra da Ucr\u00e2nia revelou que essa li\u00e7\u00e3o foi esquecida por alguns.<\/p>\n<p>Esta guerra da Ucr\u00e2nia leva-nos, pois, a recordar tal li\u00e7\u00e3o. Mas deve servir tamb\u00e9m para dela colhermos outras li\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Surpreende-nos a disposi\u00e7\u00e3o de muitos ucranianos a sacrificar a sua vida pela liberdade da sua P\u00e1tria (que, est\u00e1 visto, n\u00e3o \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o, nem uma constru\u00e7\u00e3o pol\u00edtica artificial). Neste nosso mundo cada vez globalizado e uniformizado, v\u00ea-se aqui que o sentimento nacional permanece vivo e que projetos de unifica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, como a da Europa, n\u00e3o podem suprimi-lo. Aplica-se ao sentimento nacional o que diz o papa Francisco na enc\u00edclica <em>Fratelli tutti<\/em>: a globaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve uniformizar e destruir \u00ab<em>a riqueza e singularidade de cada pessoa e de cada povo<\/em>\u00bb (n. 100); \u00ab<em>As v\u00e1rias culturas, cuja riqueza se foi criando ao longo dos s\u00e9culos, devem ser salvaguardadas, para que o mundo n\u00e3o fique mais pobre<\/em>\u00bb (n. 134); <em>\u00abN\u00e3o me encontro com o outro se n\u00e3o possuo um substrato onde estou firme e enraizado, pois \u00e9 a partir dele que posso acolher o dom do outro e oferecer-lhe algo de aut\u00eantico\u00bb<\/em>; \u00ab<em>cada qual ama e cuida, com particular responsabilidade, da sua terra e preocupa-se com o seu pa\u00eds, assim como deve amar e cuidar da pr\u00f3pria casa<\/em>\u00bb (n. 143).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas essa enc\u00edclica tamb\u00e9m denuncia vigorosamente os \u00ab<em>nacionalismos fechados, exacerbados, ressentidos e agressivos<\/em>\u00bb (n.\u00ba 11). \u00c9 esse tipo de nacionalismo, inimigo da fraternidade universal, que est\u00e1 na origem da agress\u00e3o russa \u00e0 Ucr\u00e2nia. O metropolita Onofre, da Igreja ortodoxa ucraniana ligada ao Patriarcado de Moscovo, depois de afirmar que os povos russo e ucraniano s\u00e3o irm\u00e3os, comparou a a\u00e7\u00e3o do governo russo a um fratic\u00eddio, ao pecado de Caim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez nunca como agora, assistimos a uma guerra em que interv\u00e9m diretamente uma pot\u00eancia nuclear, que se confronta com a poss\u00edvel rea\u00e7\u00e3o de outras pot\u00eancias nucleares. O receio de que armas nucleares n\u00e3o sirvam apenas de amea\u00e7a e dissuas\u00e3o, e sejam mesmo usadas, por muito irracional que possa ser tal hip\u00f3tese (mas tamb\u00e9m muito pouco racional foi o desencadear desta guerra a que assistimos), deixa toda a humanidade em suspens\u00e3o. O Papa Francisco tem pugnado pela elimina\u00e7\u00e3o total das armas nucleares e considerou \u201cprof\u00e9tico\u201d o Tratado internacional que, sob a \u00e9gide das Na\u00e7\u00f5es Unidas, pretende essa elimina\u00e7\u00e3o. Esta deveria ser uma ocasi\u00e3o para n\u00e3o desistir desse objetivo, porque uma paz s\u00f3lida e duradoura n\u00e3o pode basear-se no \u201cequil\u00edbrio do terror\u201d. \u00c9 claro que &#8211; e isso tamb\u00e9m o revela o atual contexto &#8211; s\u00f3 um desarmamento multilateral ser\u00e1 vi\u00e1vel. N\u00e3o \u00e9 certamente de esperar que uma pot\u00eancia nuclear d\u00ea um primeiro passo, sem as outras fazerem o mesmo (quem o fizesse ficaria na situa\u00e7\u00e3o em que est\u00e1 hoje a Ucr\u00e2nia, que entregou \u00e0 R\u00fassia o seu armamento nuclear depois da sua independ\u00eancia). S\u00f3 um desarmamento multilateral contribuir\u00e1 verdadeiramente para essa paz s\u00f3lida e duradoura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, e sobretudo, nestes dias da guerra tamb\u00e9m impressiona a mobiliza\u00e7\u00e3o de solidariedade para com as v\u00edtimas que invade (outro tipo de invas\u00e3o) quase todo o mundo. Na pr\u00f3pria R\u00fassia muitos s\u00e3o os manifestantes contra a guerra que s\u00e3o, por isso, perseguidos. Disp\u00f5em-se a acolher refugiados, sem hesita\u00e7\u00f5es, pa\u00edses que noutras ocasi\u00f5es n\u00e3o revelaram tal abertura. Em Portugal, estreitam-se fortemente os la\u00e7os com a comunidade de imigrantes ucranianos. Tamb\u00e9m talvez nunca tenha havido uma mobiliza\u00e7\u00e3o de solidariedade planet\u00e1ria como esta. Deste t\u00e3o alargado rep\u00fadio da guerra pode, na verdade, nascer uma mais consciente e forte cultura de paz. Se assim for, a Paz poder\u00e1 vencer a guerra.<\/p>\n<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Pedro Vaz Patto<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A PAZ PODER\u00c1 VENCER A GUERRA Estamos no s\u00e9culo XXI e isto n\u00e3o acontece muito longe das vossas fronteiras\u00bb &#8211; Esta frase foi 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