{"id":816,"date":"2023-05-29T15:42:12","date_gmt":"2023-05-29T15:42:12","guid":{"rendered":"https:\/\/site.manuelpedreiro.net\/a-guerra-do-iraque-vinte-anos-depois-por-pedro-vaz-patto\/"},"modified":"2023-05-29T15:42:12","modified_gmt":"2023-05-29T15:42:12","slug":"a-guerra-do-iraque-vinte-anos-depois-por-pedro-vaz-patto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/a-guerra-do-iraque-vinte-anos-depois-por-pedro-vaz-patto\/","title":{"rendered":"A GUERRA DO IRAQUE VINTE ANOS DEPOIS por Pedro Vaz Patto"},"content":{"rendered":"<h1>A GUERRA DO IRAQUE VINTE ANOS DEPOIS<\/h1>\n<div>&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Passados vinte anos sobre o in\u00edcio da guerra do Iraque, \u00e9 oportuno refletir sobre as li\u00e7\u00f5es que dela podemos colher. \u00c9 verdade que essa guerra p\u00f4s termo a um regime opressor, mas tamb\u00e9m deu origem a d\u00e9cadas de viol\u00eancia e terrorismo, que vitimaram de um modo particularmente intenso a comunidade crist\u00e3 desse pa\u00eds. As famigeradas \u201carmas de destrui\u00e7\u00e3o maci\u00e7a\u201d, que para o desencadear dessa guerra serviram de pretexto, afinal n\u00e3o existiam\u2026<\/div>\n<div>&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Uma das pessoas que, apesar da sua sa\u00fade j\u00e1 debilitada, mais esfor\u00e7os envidou para evitar essa guerra, foi S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, com os seus insistentes apelos dirigidos \u00e0 consci\u00eancia e bom senso dos principais atores pol\u00edticos (acompanhados de dilig\u00eancias diplom\u00e1ticas junto do presidente norte-americano), apelos que n\u00e3o foram ouvidos,&nbsp;<span style=\"text-align: left;\">como se de meras aspira\u00e7\u00f5es ut\u00f3picas se tratasse. Mas n\u00e3o eram, eram apelos racionais e respons\u00e1veis, como se veio a verificar no futuro mais ou menos imediato. Esse futuro&nbsp;<\/span><span style=\"text-align: left;\">veio a demonstrar como a guerra \u00e9 sempre, na express\u00e3o repetida desse Papa, \u00abuma aventura sem retorno\u00bb.<\/span><\/div>\n<p><!--more--><\/p>\n<div>&nbsp;<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">Passados vinte anos sobre o in\u00edcio da guerra do Iraque, \u00e9 oportuno refletir sobre as li\u00e7\u00f5es que dela podemos colher. \u00c9 verdade que essa guerra p\u00f4s termo a um regime opressor, mas tamb\u00e9m deu origem a d\u00e9cadas de viol\u00eancia e terrorismo, que vitimaram de um modo particularmente intenso a comunidade crist\u00e3 desse pa\u00eds. As famigeradas \u201carmas de destrui\u00e7\u00e3o maci\u00e7a\u201d, que para o desencadear dessa guerra serviram de pretexto, afinal n\u00e3o existiam\u2026<\/div>\n<div>&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Uma das pessoas que, apesar da sua sa\u00fade j\u00e1 debilitada, mais esfor\u00e7os envidou para evitar essa guerra, foi S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II, com os seus insistentes apelos dirigidos \u00e0 consci\u00eancia e bom senso dos principais atores pol\u00edticos (acompanhados de dilig\u00eancias diplom\u00e1ticas junto do presidente norte-americano), apelos que n\u00e3o foram ouvidos,&nbsp;como se de meras aspira\u00e7\u00f5es ut\u00f3picas se tratasse. Mas n\u00e3o eram, eram apelos racionais e respons\u00e1veis, como se veio a verificar no futuro mais ou menos imediato. Esse futuro&nbsp;veio a demonstrar como a guerra \u00e9 sempre, na express\u00e3o repetida desse Papa, \u00abuma aventura sem retorno\u00bb.<\/div>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Esses infatig\u00e1veis esfor\u00e7os do Papa polaco levaram a que muitos advogassem que lhe fosse atribu\u00eddo nesse ano o pr\u00e9mio Nobel da Paz. Seria certamente bem merecido, sendo que tamb\u00e9m houve quem dissesse que a in\u00e9dita atribui\u00e7\u00e3o de um tal pr\u00e9mio a um Papa poderia n\u00e3o se ajustar bem \u00e0 sua miss\u00e3o. Tamb\u00e9m houve quem a isso se opusesse receando que viesse a suceder o que havia sucedido com a atribui\u00e7\u00e3o desse pr\u00e9mio a Teresa de Calcut\u00e1, a qual, com palavras claras e firmes, quando recebeu tal pr\u00e9mio condenou o aborto como grave atentado \u00e0 paz (uma verdade j\u00e1 ent\u00e3o contr\u00e1ria \u00e0 corrente da cultura dominante). Na verdade, para Jo\u00e3o Paulo II, como para Teresa de Calcut\u00e1, a defesa da vida e da paz representavam um todo coerente, como ele recordou precisamente nessa altura no seu discurso ao corpo diplom\u00e1tico acreditado junto da Santa S\u00e9 de 13 janeiro de 2003.<\/div>\n<div>&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II recordou ent\u00e3o os crit\u00e9rios de legitimidade de uma guerra de acordo com a doutrina da Igreja e foi claro na rejei\u00e7\u00e3o da legitimidade da chamada \u201cguerra preventiva\u201d, onde se enquadraria a guerra contra o ex\u00e9rcito iraquiano pretensamente possuidor de \u201carmas de destrui\u00e7\u00e3o maci\u00e7a\u201d. A legitimidade de uma guerra defensiva sup\u00f5e uma agress\u00e3o j\u00e1 iniciada ou iminente. Essa verdade foi reafirmada ent\u00e3o pelo Papa e por episcopados de todo o mundo (n\u00e3o o foi, por\u00e9m por alguns cat\u00f3licos apoiantes do governo norte-americano da altura, os chamados teocons, que n\u00e3o deixaram de invocar a doutrina tradicional da \u201cguerra justa\u201d como foi formulada na Idade M\u00e9dia, esquecendo o seu desenvolvimento mais recente e posterior ao Conc\u00edlio Vaticano II). Essa rejei\u00e7\u00e3o da legitimidade da \u201cguerra preventiva\u201d veio a constar posteriormente do Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja (n. 501). O Papa Francisco, na enc\u00edclica Fratelli tutti, tamb\u00e9m reafirmou agora essa rejei\u00e7\u00e3o, salientando o risco de dessa forma se pretender justificar uma qualquer guerra de agress\u00e3o (n. 258).<\/div>\n<div>&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Essas posi\u00e7\u00f5es do Papa S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II encontraram eco em Portugal tamb\u00e9m numa declara\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o Nacional Justi\u00e7a e Paz, datada de 31 de janeiro de 2003 e intitulada A Paz \u00e9 Poss\u00edvel e Obrigat\u00f3ria. Recordo bem esse texto, al\u00e9m do mais porque havia iniciado precisamente nessa altura a minha participa\u00e7\u00e3o nessa Comiss\u00e3o.<\/div>\n<div>&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Essa declara\u00e7\u00e3o come\u00e7a por afirmar: \u00ab(\u2026) h\u00e1 que contrariar a perspetiva de quem considera a pol\u00edtica, em particular a pol\u00edtica internacional, desvinculada da Moral e sujeita apenas a crit\u00e9rios de interesses. A pol\u00edtica internacional n\u00e3o \u00e9 uma \u201czona franca\u201d imune \u00e0s leis da Moral e do Direito. Vamo-nos habituando a an\u00e1lises e coment\u00e1rios das rela\u00e7\u00f5es internacionais como simples jogos de poder pol\u00edtico ou econ\u00f3mico. Trata-se de um pragmatismo de vistas curtas que se vem a revelar sempre prejudicial a longo prazo, porque mina as pr\u00f3prias bases da conviv\u00eancia entre os Estados e entre os povos. \u00c9 outro tipo de an\u00e1lise, de alcance \u00e9tico, que importa fazer quando est\u00e3o em causa decis\u00f5es t\u00e3o nefastas como o desencadear de uma guerra\u00bb. Foi esta an\u00e1lise de alcance \u00e9tico que faltou na guerra do Iraque e essa falta n\u00e3o deixou de acarretar graves consequ\u00eancias.&nbsp;<\/div>\n<div>&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">A prop\u00f3sito da \u201cguerra preventiva\u201d, afirma essa declara\u00e7\u00e3o: \u00abAlargar o conceito de leg\u00edtima defesa para al\u00e9m das situa\u00e7\u00f5es de agress\u00e3o actual e iminente \u00e9 tamb\u00e9m abrir a porta \u00e0 possibilidade de abusos. Quando n\u00e3o estamos perante a imin\u00eancia de uma agress\u00e3o, os riscos de erros de aprecia\u00e7\u00e3o e de abusos s\u00e3o muitos maiores. Muitas ser\u00e3o as situa\u00e7\u00f5es em que se poder\u00e3o invocar mais ou menos long\u00ednquos perigos provindos de v\u00e1rios Estados do planeta e, por isso, a possibilidade de eclos\u00e3o de guerras injustificadas ser\u00e1 muito maior\u00bb. A inexist\u00eancia de \u201carmas de destrui\u00e7\u00e3o maci\u00e7a\u201d na posse do governo iraquiano veio a demonstrar isto mesmo.<\/div>\n<div>&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Esta declara\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o Nacional Justi\u00e7a e Paz analisa tamb\u00e9m outro crit\u00e9rio de legitimidade de uma guerra (de cada vez mais dif\u00edcil verifica\u00e7\u00e3o, perante as cada vez mais desastrosas consequ\u00eancias de qualquer guerra): que ela \u00abn\u00e3o acarrete males e desordens mais graves do que o mal a eliminar\u00bb (Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, n. 2099). Salienta esta declara\u00e7\u00e3o a este prop\u00f3sito os ent\u00e3o previs\u00edveis males que poderia acarretar a guerra do Iraque: os mortos de um e outro lado, militares e civis; as feridas e conflitos que haveriam de subsistir e ser agravados depois da guerra; a revolta de povos \u00e1rabes contra o Ocidente, que potenciaria a ades\u00e3o a grupos extremistas e terroristas. Males que, na verdade, vieram a verificar-se.<\/div>\n<div>&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Hoje, passados vinte anos, \u00e9 oportuno refletir nas li\u00e7\u00f5es que podemos colher da guerra do Iraque quando somos confrontados com outra guerra que tamb\u00e9m envolve, direta ou indiretamente, as principais pot\u00eancias mundiais.<\/div>\n<div>&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Por um lado, agora n\u00e3o se questiona a legitimidade da defesa da Ucr\u00e2nia em face de uma agress\u00e3o atual da R\u00fassia. N\u00e3o a questionam os bispos ucranianos e n\u00e3o a questiona o Papa Francisco e a diplomacia do Vaticano.<\/div>\n<div>&nbsp;<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">Mas, com o prolongar de uma guerra sem fim \u00e0 vista, \u00e9 leg\u00edtimo analisar o referido crit\u00e9rio de legitimidade da guerra: at\u00e9 que ponto ela n\u00e3o acarreta males mais graves do que aqueles que pretende evitar (como acarretou a guerra do Iraque). Certamente a paz n\u00e3o pode ser obtida \u00e0 custa de uma injusti\u00e7a que premeia o infrator. Mas nunca se deve desistir de tentar uma paz negociada (\u201csem vencedores, nem vencidos\u201d), com ced\u00eancias rec\u00edprocas n\u00e3o injustas e com recurso (como tamb\u00e9m j\u00e1 afirmou o Papa Francisco) \u00e0 criatividade da diplomacia. Porque a morte e a destrui\u00e7\u00e3o provocadas por esta guerra n\u00e3o param. Porque, como afirmou enfaticamente S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II h\u00e1 vinte anos, a guerra \u00e9 sempre \u00abuma aventura sem retorno\u00bb, \u00abnunca \u00e9 uma fatalidade\u00bb e \u00e9 sempre \u00abuma derrota para a humanidade\u00bb.<\/div>\n<div>&nbsp;<\/div>\n<div>Pedro Vaz Patto<\/div>\n<div>&nbsp;<\/div>\n<div>(artigo originalmente publicado no jornal digital Sete Margens)<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A GUERRA DO IRAQUE VINTE ANOS DEPOIS &nbsp; Passados vinte anos sobre o in\u00edcio da guerra do Iraque, \u00e9 oportuno refletir sobre as [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[44],"tags":[],"class_list":["post-816","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-reflexoes-dos-membros-da-cnjp"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/816","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=816"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/816\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=816"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=816"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=816"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}