{"id":819,"date":"2023-07-28T16:08:51","date_gmt":"2023-07-28T16:08:51","guid":{"rendered":"https:\/\/site.manuelpedreiro.net\/por-um-descanso-que-sobreviva-as-ferias\/"},"modified":"2023-07-28T16:08:51","modified_gmt":"2023-07-28T16:08:51","slug":"por-um-descanso-que-sobreviva-as-ferias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/por-um-descanso-que-sobreviva-as-ferias\/","title":{"rendered":"POR UM DESCANSO QUE SOBREVIVA \u00c0S F\u00c9RIAS"},"content":{"rendered":"<h1>Por um descanso que sobreviva \u00e0s f\u00e9rias<\/h1>\n<h1>Comiss\u00e3o Justi\u00e7a e Paz da Arquidiocese de Braga<\/h1>\n<h1>Ver\u00e3o 2023<\/h1>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tempo de f\u00e9rias est\u00e1 a chegar, ou j\u00e1 chegou, para muitos. Para alguns, \u00e9, por isso, tempo de trabalho redobrado. As f\u00e9rias de uns s\u00e3o, como se sabe, o trabalho de outros. E h\u00e1 ainda aqueles para quem este n\u00e3o \u00e9 tempo de f\u00e9rias nem de trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 invulgar as f\u00e9rias serem um ant\u00f3nimo de descanso, um acr\u00e9scimo de trabalho. Vivemos, ali\u00e1s, um per\u00edodo hist\u00f3rico em que as fronteiras entre trabalho e descanso se t\u00eam dilu\u00eddo. Esse foi para muitos trabalhadores um efeito da crise mundial de sa\u00fade p\u00fablica. O trabalho \u00e0 dist\u00e2ncia, poss\u00edvel gra\u00e7as \u00e0 Internet e \u00e0s novas tecnologias, veio alterar \u2013 ou acelerar a altera\u00e7\u00e3o \u2013 dos ritmos convencionais, estabelecendo um cont\u00ednuo onde antes havia barreiras. O emprego ocupou a casa, que era at\u00e9 h\u00e1 pouco lugar de descanso, mesmo que algo perme\u00e1vel a algum trabalho ocasional.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tempo de f\u00e9rias est\u00e1 a chegar, ou j\u00e1 chegou, para muitos. Para alguns, \u00e9, por isso, tempo de trabalho redobrado. As f\u00e9rias de uns s\u00e3o, como se sabe, o trabalho de outros. E h\u00e1 ainda aqueles para quem este n\u00e3o \u00e9 tempo de f\u00e9rias nem de trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 invulgar as f\u00e9rias serem um ant\u00f3nimo de descanso, um acr\u00e9scimo de trabalho. Vivemos, ali\u00e1s, um per\u00edodo hist\u00f3rico em que as fronteiras entre trabalho e descanso se t\u00eam dilu\u00eddo. Esse foi para muitos trabalhadores um efeito da crise mundial de sa\u00fade p\u00fablica. O trabalho \u00e0 dist\u00e2ncia, poss\u00edvel gra\u00e7as \u00e0 Internet e \u00e0s novas tecnologias, veio alterar \u2013 ou acelerar a altera\u00e7\u00e3o \u2013 dos ritmos convencionais, estabelecendo um cont\u00ednuo onde antes havia barreiras. O emprego ocupou a casa, que era at\u00e9 h\u00e1 pouco lugar de descanso, mesmo que algo perme\u00e1vel a algum trabalho ocasional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os ecr\u00e3s, como in\u00fameros especialistas, particularmente neurologistas, n\u00e3o t\u00eam cessado de apontar, tornaram-se um grave factor de perturba\u00e7\u00e3o dos momentos de descanso. Eles est\u00e3o na origem da priva\u00e7\u00e3o aguda ou cr\u00f3nica do sono, designadamente de crian\u00e7as e adolescentes, como transmitem os resultados de diversas investiga\u00e7\u00f5es. As notifica\u00e7\u00f5es constantes das redes sociais disputam a aten\u00e7\u00e3o de todos, sobressaltando os que repousam ou acordando os que dormem. \u201cOs ecr\u00e3s constituem uma conex\u00e3o permanente com um mundo que nunca dorme, no qual o sol nunca se deita\u201d [1]. O sossego parece imposs\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, no entanto, \u201cs\u00f3 avan\u00e7a quem descansa\u201d, como diz o t\u00edtulo de uma obra do Padre Vasco Pinto de Magalh\u00e3es [2]. Numa das entrevistas que encerram o livro, o autor observa que \u201co tempo de f\u00e9rias pode ser muito amb\u00edguo, porque \u00e9 uma paragem no trabalho que \u00e0s vezes visa mais o descanso f\u00edsico e psicol\u00f3gico do que o descanso espiritual\u201d e explica que, de facto, \u201co que nos descansa \u00e9 o equil\u00edbrio, a boa consci\u00eancia e n\u00e3o se pode descansar uma parte sem a outra\u201d. O que sucede \u00e9 que, muitas vezes, \u201cn\u00e3o se descansa nada nas f\u00e9rias porque se est\u00e1 cheio de pressa de fazer coisas\u201d. O logro est\u00e1, portanto, segundo o autor, na circunst\u00e2ncia de \u201ca pressa e o medo ou ansiedade\u201d se conjugarem para impedir qualquer descanso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A imprensa d\u00e1, ami\u00fade, testemunho da exist\u00eancia dessa dificuldade em rela\u00e7\u00e3o ao descanso nas f\u00e9rias, de cada vez que d\u00e1 conta do n\u00edvel de desassossego em que se transformaram ou que julga necess\u00e1rio dar conselhos sobre o que se imp\u00f5e fazer para alcan\u00e7ar um m\u00f3dico de serenidade.<\/p>\n<p>Aos crentes, ofereceu Santa Teresa de \u00c1vila uma s\u00e1bia recomenda\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u201cNada te inquiete \/ nada te assuste \/ tudo passa \/ Deus n\u00e3o muda \/ a paci\u00eancia \/ tudo alcan\u00e7a \/ quem a Deus tem \/ nada lhe falta \/ S\u00f3 Deus basta\u201d [3].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vasco Pinto de Magalh\u00e3es di-lo de outro modo: \u201cO crist\u00e3o deveria estar sempre consciente da presen\u00e7a de Deus para viver descansado. Descansar \u00e9 um treino para o descanso eterno, que \u00e9 o c\u00e9u, e esse \u00e9 o nosso objectivo na vida. O nosso objectivo n\u00e3o \u00e9 trabalhar, mas sim trabalhar para estar cada vez mais descansado, mais equilibrado, mais saud\u00e1vel, mais em Deus\u201d. Ou seja: \u201cAquilo que mais nos descansa \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel com outra pessoa, o sentir-se amado, o poder ser eu perante uma pessoa sem ter de me estar a defender, a mascarar ou a arranjar conversa, e isso \u00e9 o que acontece com Deus\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No trabalho ou nas f\u00e9rias, o que importa que esteja no horizonte \u00e9 o descanso, ainda que estes tempos o procurem ocultar. A ansiedade e o stress e a exaust\u00e3o n\u00e3o t\u00eam de ser fatalidades que, tantas vezes sem sucesso, se tentam esquecer durante algumas semanas estivais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que vale a pena \u00e9 \u201cuma revolu\u00e7\u00e3o temporal que permita dar in\u00edcio a um tempo completamente diferente\u201d, como preconiza o fil\u00f3sofo Byung-Chul Han [4]. Constata ele que \u201choje, n\u00e3o temos outro tempo que n\u00e3o seja o tempo de trabalho\u201d, considerando que perdemos h\u00e1 muito o tempo de festa. \u201cO fim do dia de trabalho, enquanto v\u00e9spera da festa, anuncia um tempo sagrado. Se se abolir a fronteira ou o limite que separa o sagrado do profano, nada mais resta do que o banal e o quotidiano, ou seja, o simples tempo de trabalho\u201d. \u00c9 premente que o domingo seja plenamente recuperado como tempo de descanso, ele tem de ser resgatado do tempo \u201cexplorado pelo imperativo do desempenho e da efici\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se, como Byung-Chul Han afirma, \u201ca pol\u00edtica temporal do neoliberalismo aboliu por completo o tempo do outro, a d\u00e1diva\u201d, o que agora \u201c\u00e9 necess\u00e1rio \u00e9 uma pol\u00edtica temporal diferente. Ao contr\u00e1rio do tempo do eu, que nos isola e separa, o tempo do outro cria a comunidade, ou melhor, o tempo comum, que \u00e9 o tempo <em>bom<\/em>\u201d. O \u201ctempo <em>bom<\/em>\u201d \u00e9, pois, o que contribui para refor\u00e7ar os la\u00e7os com a fam\u00edlia, com os amigos, com todos companheiros de caminho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 essencial mudar a rela\u00e7\u00e3o com o tempo. \u201c\u00c9 importante que o verbo descansar seja conjugado em todos os tempos e modos ao longo do ano porque descansar \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o de soberania\u201d, explicou o Padre Jo\u00e3o Aguiar Campos [5]: \u201cSoberania sobre a cria\u00e7\u00e3o. Soberania sobre n\u00f3s e soberania sobre a tenta\u00e7\u00e3o do ter, possuir, fazer e acumular. \u00c9 preciso afirmar a soberania do ser para o outro, para mim e para Deus\u201d.<\/p>\n<p>Bom descanso.<\/p>\n<p>[1] \u201c<em>Entretien avec Cynthia Fleury \u2013 L\u2019empire de la lumi\u00e8re\u201d<\/em>. <em>Philosophie Magazine<\/em>. Hors-s\u00e9rie n.\u00ba 56. Hiver 2023.<\/p>\n<p>[2] Secretariado Nacional do Apostolado da Ora\u00e7\u00e3o. 2019 (7.\u00aa edi\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p>[3] <em>Seta de Fogo. 22 Poemas<\/em>. Ass\u00edrio &amp; Alvim, 2010<\/p>\n<p>[4] <em>Capitalismo e puls\u00e3o de morte<\/em>. Rel\u00f3gio d\u2019\u00c1gua, 2023<\/p>\n<p>[5] \u201c<em>O descanso \u00e9 um caminho<\/em>\u201d, entrevista concedida a Lu\u00eds Filipe Santos. Ag\u00eancia <em>Ecclesia<\/em>, 10 de Agosto de 2018. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-descanso-e-um-caminho-2\/\">https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-descanso-e-um-caminho-2\/<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por um descanso que sobreviva \u00e0s f\u00e9rias Comiss\u00e3o Justi\u00e7a e Paz da Arquidiocese de Braga Ver\u00e3o 2023 O tempo de f\u00e9rias est\u00e1 a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[23],"tags":[],"class_list":["post-819","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos-cdjps"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/819","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=819"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/819\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=819"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=819"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cnjp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=819"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}