Conhecer para acolher

Dias Positivos FRANKFURT. Acontece todos os anos e é, talvez, o evento cultural mais influente do mundo, embora se trate de uma influência difusa. É onde se negoceia e se compra aquilo que vamos ler dentro de meses – o que explica a presença de dezenas (talvez chegue à centena) de editores portugueses. Refiro-me à Feira do Livro de Frankfurt, a maior do mundo, na cidade que, desde Gutenberg, é a capital do livro. A versão moderna da feira, depois da II Guerra Mundial, começou na igreja de São Paulo (Paulskirche) com 200 expositores, em 1949. Nos anos seguin-tes, os estrangeiros já eram mais do que os alemães. Hoje, Frankfurt é o ponto de encontro da literatura mundial. A feira deste ano foi de 6 a 10 de Outubro (coincide sempre com a divulgação do Nobel da Literatura, que há dias foi atribuído à austríaca Elfriede Jelinek).

ÁRABES. A Feira de 2004 teve como convidado de honra o “Mundo Árabe”, acolhendo 17 países e 200 autores para “actualizar a imagem difusa do Oriente no mundo Ocidental e mostrar raízes culturais comuns entre países”. Por outras palavras: conhecer para compreen-der; e compreender para acolher. Já dizia Aristóteles que “só se ama aquilo que se conhece”.

Cinco países dos 22 da Liga Árabe ficaram de fora: Marrocos, Argélia, Kuwait, Líbia e Iraque (a Turquia, por exemplo, é um país muçulmano mas não é árabe). Mas isso não retira importância ao acontecimento – tanto mais necessário quanto alastra a identificação perigosa e errónea entre cultura árabe e terrorismo.

É natural que dentro de algum tempo apareçam no mercado português mais autores árabes. Isso é fundamental para o diálogo das civilizações.

TRADUÇÕES. O outro lado da tradução de literatura árabe para as línguas ocidentais – coisa que Frankfurt vai incentivar – é a tradução de autores ocidentais na língua árabe. A esse propósito foram divulgados dados que explicam claramente porque é que o mundo árabe (ou parte dele) abomina o mundo ocidental: num universo de 275 milhões de pessoas são traduzidos por ano 300 livros (três vezes menos que na Grécia); no período de um milénio – dados da ONU – traduziram-se menos livros no mundo árabe do que em Espanha num ano.

O mundo árabe não conhece o Ocidente. Está nitidamente fechado. E isso é muito preocupante.

EQUÍVOCO. Há dois anos, numa conferência sobre a globalização, promovida pela Gulbenkian, em Lisboa, um professor universitário marroquino proferiu uma comunicação em que usava indistintamente expressões como “sociedade cristã”, “cristianismo”, “sociedade ocidental” ou “Ocidente”. Não era um professor qualquer. Era um destacado intelectual de Marrocos. Entre os ouvintes, algumas pessoas sentiam-se nitidamente incomodadas com a identificação. E o caso não era para menos. Para nós, ocidentais, há pontos de contacto entre cristianismo e Ocidente (tal como há entre cristianismo e Oriente ou Cultura Africana), mas nunca uma identificação. Essa comunicação pareceu-me um exemplo claro da forma equivocada como o mundo árabe nos perce-pciona. O que há a fazer? Da parte deles, conhecer-nos melhor. E vice-versa da nossa parte.