E agora?

Querubim Silva
Padre. Diretor

A discussão sobre o que falhou não é prioritária. A primeira preocupação deve ir – estamos de acordo – para obviar ao fundamental de quem ficou sem nada, ao apoio espiritual àqueles que perderam os seus familiares, à regeneração de uma confiança social que permita recuperar a esperança. Prestar os cuidados necessários a quem está ferido. E dar sepultura aos que tentaram desesperadamente continuar a viver.
Tudo isso está em marcha, enquanto prosseguem os esforços para debelar definitivamente a força gigantesca desse surpreendente “ladrão”, que não avisa nem se compadece com as nossas distrações. E não podemos deixar de assinalar a onda de generosidade que se gerou à volta desta tragédia. O povo é assim: sente deveras na alma o drama do seu semelhante e não regateia ajuda, quando lhe chega o grito aflitivo do coração de quem está esmagado pela infortuna. “Distribui afetos”, que concretiza na roupa, no leite, na água, … em tudo o que é necessário para a sobrevivência imediata. E fá-lo prodigamente.
Deus deu-nos, entretanto, qualidades essenciais, capazes de observar as situações e procurar adequar regras e sistemas às conjunturas que se nos deparam, ultrapassando as próprias leis físicas. E aqui reside a questão. A preparação de todo o sistema de combate aos incêndios obedece a um calendário pré-fixado e inamovível ou conforma-se às condições com que a natureza nos surpreende? Como é que o Plano contra Incêndios não é avaliado há quatro anos? Só a partir de 1 de julho é que há incêndios? E as Leis para proteger a floresta estão emperradas na AR desde abril por que razão? Será porque são impopulares e o calendário político não aconselha a causar desagrados?
Do mesmo modo a prevenção dos acidentes nas praias: depende de um dia “oficial” de abertura da época balnear ou das condições atmosféricas que fazem acorrer às praias antes da “abertura da caça”? O sábado é que foi feito para o homem e não o homem para o sábado!
E, com isto tudo, já lá vão dezenas de mortos por afogamento. Não está em causa a dedicação daqueles que, no terreno, arriscam a vida, para salvar bens e pessoas, para preservar a natureza. Trata-se de visão e decisão política!
O País está em choque. Foram demasiado pesados os custos desta tragédia. O apelo ao civismo, ao respeito pelo bem comum, tem de ser veemente e sacudir a consciência de todos os cidadãos. Mas aos decisores políticos cabe o ónus de tomar e fazer executar as medidas adequadas, agradáveis ou não, que previnam prováveis conjunturas semelhantes, mesmo que isso lhes retire votos. Afinal, eles estão para servir, não para segurar o poder.