Lê mais!

Educar… hoje “Entrei pela porta de um livro e fechei-me lá dentro com as palavras acesas e as luzes apagadas. (…)

Era a primeira vez na minha vida que eu me fechava dentro de um livro. (…)

O livro era agora o meu refúgio e a minha casa, uma casa onde tudo era imprevisível e estranho e onde as letras tinham espessura e cheiro como se fossem humanas. Confesso que me perdi lá dentro, como já antes me perdera no labirinto de esferovite do parque de diversões que animava os meses de Verão da minha terra.”

José Jorge Letria, A mão esquerda de Cervantes, Biblioteca Prestígio

Noutro dia, um amigo contava-me uma experiência de Leitura do seu filho. Tinha de ler a peça de Gil Vicente Falar Verdade a Mentir e não havia maneira de começar. Que fez o pai? Pegou na obra e começou a ler em voz alta, fazendo as falas das diferentes personagens. A certa altura, parou. E ouviu a interpelação do filho: “Lê mais!” Mas inverteram-se os papéis e o filho de ouvinte passou a leitor.

Quando, recentemente, um jornalista conhecido concedeu uma entrevista ao jornal de uma escola de Aveiro, o conselho que deu aos alunos, e a mim que também o ouvi atentamente, foi um “Leiam, leiam muito” e apontou para os jornais e revistas que o circundavam. Relembrou as leituras da sua infância e adolescência, comparou a sua atitude com a dos seus filhos “que não lêem tanto como eu gostava!”, e foi peremptório: ler é a base para se ser um bom profissional seja de que profissão for. Uma dica: nos quartos, não há televisão, nem computador.

Estas são duas das variadíssimas formas de incentivar à Leitura. Claro que nem todos os pais pegam nas obras que os filhos têm de ler e as lêem eles próprios. Mas há muitos que o fazem, ou que lêem porque gostam de ler e inculcam nos filhos o mesmo prazer. Aliás, confessava-me noutro dia um aluno, quando lhe sugeri que lesse deter-minadas obras “A minha mãe também é uma devoradora de livros. Deve lá ter esses em casa.” O papel dos pais é, pois, muito importante.

Outro parceiro decisivo no incremento do gosto da Leitura é, sem dúvida, o Professor. Às vezes, mais preocupados em “dar matéria”, muitos são aqueles que relegam o tempo da Leitura para casa. Mas proporcionar na sala de aula períodos semanais para o prazer de ler é uma mais-valia para o desenvolvimento de determinadas competências, que estão na base da aprendizagem: a da concentração; a da responsabilidade; a da Leitura propriamente dita; entre outras. É certo que as experiências que se fazem nem sempre têm sucesso a 100 por cento, mas uns arrastam os outros. Pode, por exemplo, estipular-se um tempo para a Leitura semanal (ou com uma periodicidade mais curta, nunca muito mais longa), para que os alunos leiam o que estão a ler, fora das obrigatoriedades escolares, ou dentro desses constrangimentos. Chegado o momento, suponhamos dez minutos antes do término da aula, muitos agitam-se e começam a fazer sinal ao Professor de que a hora está a chegar. Outros não aguentam esperar tanto tempo, e abrem o livro logo no início da aula…

E quem não subscreve este contrato de ler durante a aula, pode ser que se sinta contagiado ao fim de vários momentos de Leitura, em que colegas e professor se recolhem ao mundo dos livros, e o silêncio impera na sala.

Desde as bibliotecas de turma aos contratos de leitura, passando pelos textos obrigatórios, o que importa é dar tempo à Leitura.