Luz e sombras

Querubim Silva Padre. Diretor

Querubim Silva
Padre. Diretor

A semana em que iniciamos a Quaresma, tempo de convite à conversão, isto é, ao acolhimento da Misericórdia do Pai, na pessoa do Seu Filho, dóceis às inspirações do Espírito, é marcada por dois acontecimentos eclesiais de monta.
Para o Dia Mundial do Doente, o Papa Francisco escreveu palavras que se inserem perfeitamente neste caminho de “amar ao modo de Deus”. “A doença, sobretudo se grave, põe sempre em crise a existência humana e suscita interrogativos que nos atingem em profundidade. Por vezes, o primeiro momento pode ser de rebelião: Porque havia de acontecer precisamente a mim? Podemos sentir-nos desesperados, pensar que tudo está perdido, que já nada tem sentido…”. Reconhecer esta fragilidade, sentir o turbilhão dos sentimentos diante das questões primeiras da vida, interrogar-se sobre Deus no meio de tudo isto, é uma vivência estrutural que abre ao ser humano os horizontes do transcendente.
E, como diz o Bispo de Roma, “nestas situações, a fé em Deus se, por um lado, é posta à prova, por outro, revela toda a sua força positiva; e não porque faça desaparecer a doença, a tribulação ou os interrogativos que daí derivam, mas porque nos dá uma chave para podermos descobrir o sentido mais profundo daquilo que estamos a viver; uma chave que nos ajuda a ver como a doença pode ser o caminho para chegar a uma proximidade mais estreita com Jesus, que caminha ao nosso lado, carregando a Cruz. E esta chave é-nos entregue pela Mãe, Maria, perita deste caminho.”
A fé é, em verdade, uma chave de interpretação da vida, naquilo que ela tem de luz e sombras, de júbilo e sofrimento. E Maria de Nazaré, a serva do Senhor, que mantém o seu “sim” até ao despojamento total, pela entrega generosa do seu divino Filho, é um modela prático dessa interpretação da vida.
No dia 12, o Papa inicia a sua viagem rumo ao México. Pelo caminho, protagoniza um encontro ecuménico histórico: em Havana, Cuba, vai encontrar-se com o Patriarca Cirilo de Moscovo, líder de primeira grandeza da irmã Igreja Ortodoxa. É o salto de um fosso de quase mil anos de separação, muitas vezes de hostilidade! Bem merece este acontecimento o interesse espiritual dos fiéis de ambas as Igrejas, para que seja um passo decisivo no caminho da Unidade.
Pena que estes momentos de luz se misturem com tantas sombras. As guerras fratricidas, sobretudo aquelas que resultam de verdadeira blasfémia, a de evocar o nome de Deus como fundamento e justificação. A indiferença da Comunidade Internacional, face ao drama dos refugiados, à perseguição das minorias étnicas e religiosas.
Por cá também são muitas as sombras: tanta burla e corrupção, tanto roubo descarado, tanta nebulosidade da justiça. E a sensação do subtil desenvolvimento de uma “ditadura ideológica”, que faz lembrar os tempos pouco dignos. Liberdade?… Só para os funcionários do “aparelho”?… Para o povo a sobrecarga das ousadias, que não foram votadas pela maioria dos portugueses, e as benesses para os amigos e a dita classe política? Precisamos de sol purificador destas “bactérias” resistentes à liberdade, ao exercício da cidadania!