Os pastelões dos noticiários televisivos

Chegamos ao cúmulo de ter, diariamente, maratonas que começam às 13 e acabam depois das 14 h, e à hora do jantar nada se faz por menos de hora e meia.

Assim sendo, os portugueses deveriam ser os melhor informados da Europa. Mas não! O “lixo” informativo em altas doses não serve para nada, a não ser para entreter os incautos e preencher, a baixo custo, a antena.

Numa competição, a meu ver insólita, os canais abertos de televisão em Portugal transmitem à hora do almoço e do jantar uns autênticos pastelões informativos!

Ao contrário dos países mais evoluídos, cujos canais são pródigos e selectivos nos telejornais, raramente ultrapassando os 20 ou 30 minutos, em Portugal é um fartar de pequenas, médias e grandes notícias.

Chegamos ao cúmulo de ter, diariamente, maratonas que começam às 13 e acabam depois das 14 h, e à hora do jantar nada se faz por menos de hora e meia.

A macedónia de notícias cobre tudo: política, crime, curiosidades, desastres, violência, julgamentos, “sexocracia”, treinos de futebol, publicidade encapotada, entrevistas sobre tudo e quase nada.

Há notícias nacionais, internacionais, regionais, locais, paroquiais, domésticas, todas misturadas, e não raro repetidas como se novas fossem. E se uma estação diz mata, logo outra diz esfola!

Assim sendo, os portugueses deveriam ser os melhor informados da Europa. Mas não! O “lixo” informativo em altas doses não serve para nada, a não ser para entreter os incautos e preencher, a baixo custo, a antena.

O alinhamento, esse então é um verdadeiro labirinto. Nunca se sabe como abre um telejornal; e a passagem de uma notícia à seguinte é um verdadeiro mistério da lógica informativa.

De há uns tempos a esta parte, ainda temos que conviver com um ecrã prenhe de pseudo informação: além da hora, que é a única informação útil para os retardatários, temos as temperaturas (mesmo se em Bombaim ou Quito!), os semáforos do trânsito em Lisboa ou Porto, quase sempre ficcionados, e que muito devem “interessar” para Bragança ou Aveiro, a imagem em formato pequeno da notícia a ser dada, o cenário se possível dantesco atrás do pivot (fogo, catástrofe, violência…) e, para quem se quiser distrair, uma banda corrida de resumo noticioso sem critério, mal concisa e, não raro, cheia de erros de ortografia. Confesso que já estive mais longe de concretizar a ideia de tapar a parte inferior do ecrã, para não ter que suportar aquela mistela de dicas noticiosas.

Ah! Depois, há os opinadores profissionais em dia certo e os entrevistados ocasionais em dia incerto da semana. Os primeiros, implacáveis, ditam sentenças, os segundos quando podem, respondem no intervalo das longas perguntas que mais parecem comentários. Tudo isto, além dos directos a não perder, por causa do joelho de um jogador ou de um “ciclone” de 40 quilómetros por hora, feitos por jornalistas que mais parecem em estágio do Fundo Social Europeu!

Claro que há coisas boas: alguns pivots excelentes, alguns comentadores preparados e alguns repórteres apetrechados. Mas o resto…

Noticiar tantas coisas boas que acontecem no nosso país não capta audiência. Se só nos orientássemos pelo caudal noticioso, o país era, por certo, não recomendável…

É um facto que já não temos censura de lápis azul. Mas passou a haver um insidioso e anestesiado meio de direccionar os noticiários: a omissão. O que não dá não existe e para existir é preciso que apareça. Nessa matéria, há mestres e agências especializadas…

Por que não voltar aos noticiários de meia-hora? Por que não dispensar o abominável histrionismo com que vemos lidas notícias estapafúrdias? Por que não um curso de português que evite os “vão haver”, os “interviu”, os “tem a haver” (em vez do “tem a ver”). Fresquinho na minha memória está a voz de ontem num noticiário a comentar a nova encíclica papal e a falar com mestria de “agapé” (assim se leu, mais parecendo “água-pé”…), em vez de ágape. Santo Deus!

Merecemos todos mais! Ou não?