Páscoa – Passagem

Querubim Silva Padre. Diretor

Querubim Silva
Padre. Diretor

A paixão de Jesus Cristo é o vértice da Sua incarnação: é no momento em que assume o extremo limite da natureza humana que completa o “aniquilamento” da Sua divindade, para Se “sujar” com a pequenez humana – termos do Papa Francisco – a fim de a limpar, de a recriar pela Sua passagem – Páscoa – da morte à vida gloriosa de ressuscitado, abrindo a todos e cada um de nós esses horizontes ilimitados, libertos do espaço e do tempo, que são os horizontes da plenitude da vida, da superação do tempo, da alegria da eternidade.
Evocar essa paixão nunca é uma lembrança do passado. É, antes, abeirarmo-nos da humanidade que vive, em todos os tempos, o sofrimento, a dor, a morte, com os olhos da esperança. A tarde do calvário cobriu-se de trevas durante três horas. O silêncio do túmulo prolongou-se por três dias – parte de três dias. Mas o sol voltou a brilhar. E o silêncio da morte explodiu numa manhã de alegria. O amor não morre num madeiro! O amor não apodrece num túmulo!
Às vezes, as dolorosas trevas das pessoas, dos grupos sociais, dos povos, prolongam-se por semanas, meses, por anos, com uma esteira de vítimas inocentes que nos aproximam daquela situação de fragilidade, de surpresa ou mesmo de revolta, que se pergunta: “Deus, onde estás”? O medo, a solidão, a traição, vêm de formas surpreendentes: os senhores do poder, os fundamentalismos, os egoístas interesses secretos, a teia da suja finaça…, fazem-nos gritar à beira do abismo do desespero.
Jesus é erguido entre o céu e a terra, como alguém de ninguém, recusado e abandonado de todos, até parecer esquecido pelo próprio Pai. Solta os gemidos de toda a gente abandonada, excluída, massacrada: “Meu Deus, meu Deus por que me abandonastes?”. Mas é esse mesmo Senhor que derrama o perfume da misericórdia, do carinho, sobre todos nós: “Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem!”. E entrega-nos ao cuidado de Maria, que não é deusa, mas a Mulher Única, solícita e próxima de quantos se encontram em provação: “Eis a tua Mãe!”. E, serenamente, abre a janela da entrega confiante: “Pai, nas tuas mãos entrego o Meu espírito!”.
A manhã de Páscoa tornará claro o sentido desta passagem de Jesus Cristo pelo vértice da Sua incarnação. Uma nova primavera desponta para a humanidade. E a história replica continuamente este mistério de passagem: noites de densas trevas, de dor incontida e de morte, que desabrocham em auroras de vida nova. O grão de trigo semeado não ficou só, porque se deixou morrer. E brotou a nova planta, que dará sempre renovado fruto.