{"id":10025,"date":"2007-06-21T12:19:00","date_gmt":"2007-06-21T12:19:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=10025"},"modified":"2007-06-21T12:19:00","modified_gmt":"2007-06-21T12:19:00","slug":"carta-de-amigo-muculmano-ao-sacerdote-caldeu-assassinado-no-iraque","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/carta-de-amigo-muculmano-ao-sacerdote-caldeu-assassinado-no-iraque\/","title":{"rendered":"Carta de amigo mu\u00e7ulmano ao sacerdote caldeu assassinado no Iraque"},"content":{"rendered":"<p>Carta de Adnan Mokrani, mu\u00e7ulmano, professor de Islamismo da Universidade Gregoriana de Roma, ao Pe. Ragheed Aziz Ganni, sacerdote caldeu assassinado no dia 3 de Junho com tr\u00eas subdi\u00e1conos.<\/p>\n<p>ADNAN MOKRANI<\/p>\n<p>Em nome de Deus, clemente e misericordioso, Ragheed, meu irm\u00e3o:<\/p>\n<p>Eu te pe\u00e7o perd\u00e3o, irm\u00e3o, por n\u00e3o ter estado ao teu lado quando os criminosos abriram fogo contra ti e teus irm\u00e3os, mas as balas que trespassaram o teu corpo puro e inocente trespassaram-me tamb\u00e9m o cora\u00e7\u00e3o e a alma.<\/p>\n<p>Foste uma das primeiras pessoas que eu conheci ao chegar a Roma, nos passeios do Angelicum [Universidade Pontif\u00edcia de S\u00e3o Tom\u00e1s], onde nos conhecemos e onde beb\u00edamos os dois o nosso \u201ccapuccino\u201d no caf\u00e9 da universidade. Tu tinhas-me impressionado pela tua inoc\u00eancia, alegria, sorriso terno e puro que n\u00e3o te abandonava nunca. Eu n\u00e3o posso deixar de te imaginar a sorrir, feliz, cheio de alegria de viver. Ragheed, para mim, \u00e9s a inoc\u00eancia feita pessoa, uma inoc\u00eancia s\u00e1bia, que leva no seu cora\u00e7\u00e3o as preocupa\u00e7\u00f5es do seu povo infeliz. Recordo que um dia, no restaurante da universidade, quando o Iraque estava sob embargo, tu me disseste que o pre\u00e7o de um s\u00f3 \u201ccapuccino\u201d teria podido sanar as necessidades de uma fam\u00edlia iraquiana durante todo um dia, como se te sentisses de algum modo culpado por estares distante do teu povo assediado e de n\u00e3o compartilhares os seus sofrimentos&#8230; <\/p>\n<p>Depois voltaste ao Iraque, n\u00e3o s\u00f3 para compartilhar com as pessoas o seu destino de sofrimentos, mas tamb\u00e9m para unir o teu sangue ao de milhares de iraquianos que morrem em cada dia. N\u00e3o poderei nunca esquecer o dia da tua ordena\u00e7\u00e3o na Universidade Urbaniana&#8230; Com l\u00e1grimas nos olhos, disseste-me: \u201cHoje morri para mim\u201d&#8230; uma frase muito dura.<\/p>\n<p>Na altura, n\u00e3o a compreendi bem, ou talvez n\u00e3o a levasse a s\u00e9rio como deveria&#8230; Mas hoje, atrav\u00e9s de teu mart\u00edrio, compreendi esta frase&#8230; Tu morreste na tua alma e no teu corpo para ressuscitar no teu bem-amado e mestre, e para que Cristo ressuscite em ti, apesar dos sofrimentos e das tristezas, apesar do caos e da loucura.<\/p>\n<p>Em nome de que deus da morte te mataram? Em nome de que paganismo te crucificaram? Sabiam verdadeiramente o que faziam?<\/p>\n<p>\u00d3 Deus, n\u00f3s n\u00e3o vos pedimos vingan\u00e7a ou repres\u00e1lia, mas vit\u00f3ria&#8230; vit\u00f3ria do justo sobre o falso, da vida sobre a morte, da inoc\u00eancia sobre a perf\u00eddia, do sangue sobre a espada&#8230; O teu sangue n\u00e3o ter\u00e1 sido derramado em v\u00e3o, querido Ragheed, porque santificaste a terra do teu pa\u00eds&#8230; e teu sorriso terno continuar\u00e1 a iluminar desde o c\u00e9u as trevas das nossas noites e anunciando-nos um amanh\u00e3 melhor.<\/p>\n<p>Eu te pe\u00e7o perd\u00e3o, irm\u00e3o, mas quando os vivos se encontram, cr\u00eaem que t\u00eam todo o tempo para conversar, visitar-se e comunicar os sen-timentos pr\u00f3prios e os pensamentos&#8230; Tinhas-me convidado para ir ao Iraque&#8230; Eu sonhava sempre com isso&#8230; visitar a tua casa, os teus pais, o teu escrit\u00f3rio&#8230; Nunca teria pensado que seria o teu t\u00famulo o que um dia visitaria ou que teriam sido os vers\u00edculos de meu Cor\u00e3o os que recitaria para o repouso de tua alma&#8230;<\/p>\n<p>Um dia, acompanhei-te a comprar lembran\u00e7as e presentes para a tua fam\u00edlia nas v\u00e9speras de tua primeira visita ao Iraque, ap\u00f3s uma longa aus\u00eancia. Tinhas-me falado do teu trabalho futuro: \u201cQueria reinar sobre as pessoas antes na base da caridade do que da justi\u00e7a\u201d. Ent\u00e3o era-me dif\u00edcil imaginar-te como \u201cjuiz\u201d can\u00f3nico&#8230; Mas hoje o teu sangue e o teu mart\u00edrio pronunciaram sua palavra, veredicto de fidelidade e de paci\u00eancia, de esperan\u00e7a contra todo o sofrimento e de sobreviv\u00eancia, apesar da morte, apesar do nada.<\/p>\n<p>Irm\u00e3o, o teu sangue n\u00e3o foi derramado em v\u00e3o&#8230; e o altar da tua igreja n\u00e3o era uma farsa&#8230; Tu assumiste o teu papel com profunda seriedade, at\u00e9 ao fim, com um sorriso que nada poder\u00e1 apagar&#8230; nunca.<\/p>\n<p>Teu irm\u00e3o que te ama,<\/p>\n<p>Adnan Mokrani <\/p>\n<p>Roma, 4 de Junho de 2007<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Zenit. Adapta\u00e7\u00e3o: CV<\/p>\n<p>Pe. Ragheed Aziz Ganni e os di\u00e1conos Basman Yousef Daoud, Ghasan Bidawid e Wadid Hanna foram assassinados no dia 3 de Junho, perto da Igreja do Esp\u00edrito Santo, em Mossul (Iraque). O sacerdote, de 34 anos, tinha acabado de presidir \u00e0 Eucaristia.<\/p>\n<p>O padre e os tr\u00eas di\u00e1conos da comunidade cat\u00f3lica caldeia (uma das mais antigas do mundo, com ritos em aramaico) foram v\u00edtimas do disparo de armas autom\u00e1ticas. Algum tempo depois dos factos, \u201cos corpos ainda estavam nas ruas, porque ningu\u00e9m ousava recuper\u00e1-los, devido ao clima de tens\u00e3o\u201d que os extremistas isl\u00e2micos fomentam, refere a ag\u00eancia \u00c1siaNews.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carta de Adnan Mokrani, mu\u00e7ulmano, professor de Islamismo da Universidade Gregoriana de Roma, ao Pe. Ragheed Aziz Ganni, sacerdote caldeu assassinado no dia 3 de Junho com tr\u00eas subdi\u00e1conos. 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