{"id":10028,"date":"2007-06-21T12:24:00","date_gmt":"2007-06-21T12:24:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=10028"},"modified":"2007-06-21T12:24:00","modified_gmt":"2007-06-21T12:24:00","slug":"o-religioso-e-o-sagrado-numa-sociedade-laica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-religioso-e-o-sagrado-numa-sociedade-laica\/","title":{"rendered":"O religioso e o sagrado numa sociedade laica"},"content":{"rendered":"<p>Passei o 10 de Junho em Paris com os nossos emigrantes. A Igreja em Fran\u00e7a celebrava nesse Domingo a festa lit\u00fargica do Corpo de Deus. A minha ida tinha a ver com o encontro dos portugueses na catedral de Notre D\u00e2me, igreja m\u00e3e de Paris. Arcebispo da Diocese, Embaixador de Portugal, padres que trabalham com os portugueses na regi\u00e3o parisiense, centenas de nossos compatriotas aos quais pude falar, sobre a liturgia, o Dia de Portugal, de Cam\u00f5es e das Comunidades. Momento festivo de encontro nacional. <\/p>\n<p>Na manh\u00e3 desse dia, no Santu\u00e1rio de Nossa Senhora de F\u00e1tima, igreja confiada aos portugueses h\u00e1 j\u00e1 20 anos, celebrei, com uma multid\u00e3o de compatriotas, a festa do Corpo de Deus, com prociss\u00e3o pela rua. Fam\u00edlias, crian\u00e7as, jovens, gente do norte, centro e sul, c\u00e2nticos portugueses, ar de festa no templo, na rua e nos rostos, gente \u00e0s janelas, carros a parar para ver. Tudo com serenidade e normalidade, em Paris de 2007.<\/p>\n<p>H\u00e1 anos, tivera eu, na cidade cosmopolita de Col\u00f3nia, Alemanha, a mesma experi\u00eancia religiosa. Uma prociss\u00e3o mariana, \u00e0 noite, para a famosa catedral da cidade, com regresso no dia seguinte, \u00e0 igreja de S. Martinho, de onde se partira de v\u00e9spera. Respeito total das pessoas que iam na rua, se cruzavam ou estavam nos caf\u00e9s das esplanadas da cidade, naquela tarde de Domingo via-se o entusiasmo e o fervor das centenas de portugueses emigrantes que participavam no cortejo lit\u00fargico. O cardeal convidou-me para, no dia seguinte, contar aos seus padres mais novos, que nessa manh\u00e3 de segunda feira participavam na forma\u00e7\u00e3o permanente, como tudo tinha acontecido. Pareciam n\u00e3o acreditar. Como tinham os portugueses coragem para tanto? <\/p>\n<p>Fran\u00e7a e Alemanha s\u00e3o rep\u00fablicas laicas, com regime de separa\u00e7\u00e3o entre a Igreja e o Estado. Nem num, nem noutro pa\u00eds vi qualquer express\u00e3o de menos respeito ou enfado por aqueles actos p\u00fablicos, marcadamente religiosos. E n\u00e3o foi por sermos estrangeiros, mas sim porque eles respeitam e aceitam a diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>O Estado laico n\u00e3o tem por que organizar manifesta\u00e7\u00f5es religiosas, qualquer que seja a igreja de perten\u00e7a dos cidad\u00e3os. Mas, tamb\u00e9m, n\u00e3o tem por que as dificultar, nem muito menos proibir. Na tarde de Domingo, cruzei-me em Paris com um desfile de milhares de pessoas em patins. A pol\u00edcia ordenava o tr\u00e2nsito. Tudo normal. Por que n\u00e3o tamb\u00e9m, com o mesmo direito, um desfile religioso, se for caso de se fazer com dignidade? <\/p>\n<p>A democracia esclarecida, mesmo quando o Estado \u00e9 laico, respeita os cidad\u00e3os,  maiorias e minorias. Est\u00e1 ao servi\u00e7o de todos, n\u00e3o imp\u00f5e ideologias, n\u00e3o rasga nem esquece a hist\u00f3ria, n\u00e3o controla as convic\u00e7\u00f5es pol\u00edticas ou religiosas, n\u00e3o dificulta as leg\u00edtimas express\u00f5es, ainda que sejam p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Os crist\u00e3os e a Igreja, com as suas diversas institui\u00e7\u00f5es, t\u00eam de aprender, se ainda o n\u00e3o sabem, a viver em ambientes que, por si, n\u00e3o favorecem, porventura como anos atr\u00e1s, as express\u00f5es religiosas, pessoais ou colectivas. Mas n\u00e3o se devem resignar ante as atitudes antidemocr\u00e1ticas de quem apenas aceita ou legitima o dom\u00ednio privado e a consci\u00eancia individual. Viver sem sobranceria nem nostalgia, mas sem medo ou vergonha de manifestar convic\u00e7\u00f5es, valores morais e \u00e9ticos, refer\u00eancias fundamentais da vida, procurando tudo testemunhar, com a convic\u00e7\u00e3o da sua validade numa sociedade que caminha para fazer do ef\u00e9mero e do vazio um ideal de vida, \u00e9 hoje um dever e um direito dos crist\u00e3os esclarecidos e convictos.<\/p>\n<p>A sociedade laica precisa, para seu bem, de ser confrontada. Um confronto que n\u00e3o se credencie por gl\u00f3rias do passado, mas por compromissos no presente.<\/p>\n<p>Na laicidade assumida, est\u00e1 o pluralismo, com o respeito que o mesmo exige e aconselha, est\u00e1 a autonomia dos espa\u00e7os humanos que se complementam, a conviv\u00eancia equilibrada que gera paz e contribui para a verdade e para justi\u00e7a nas rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>A cidadania n\u00e3o se traduz apenas por toler\u00e2ncia ou satisfa\u00e7\u00e3o de exig\u00eancias c\u00edvicas. Ela n\u00e3o pode dispensar a abertura ao transcendente, que d\u00e1 \u00e0 pessoa a sua verdadeira dimens\u00e3o e, por isso mesmo, a torna capaz de di\u00e1logo alargado e de compromissos em comum. Nem o Estado, nem os grupos laicos podem esquecer que o caminho \u00e9 por aqui.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Passei o 10 de Junho em Paris com os nossos emigrantes. A Igreja em Fran\u00e7a celebrava nesse Domingo a festa lit\u00fargica do Corpo de Deus. A minha ida tinha a ver com o encontro dos portugueses na catedral de Notre D\u00e2me, igreja m\u00e3e de Paris. 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