{"id":10117,"date":"2007-07-04T12:13:00","date_gmt":"2007-07-04T12:13:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=10117"},"modified":"2007-07-04T12:13:00","modified_gmt":"2007-07-04T12:13:00","slug":"portas-abertas-para-os-pobres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/portas-abertas-para-os-pobres\/","title":{"rendered":"Portas abertas para os pobres"},"content":{"rendered":"<p>Pensar a par\u00f3quia <!--more--> O servi\u00e7o dos pobres faz parte indiscut\u00edvel da miss\u00e3o da Igreja. Este servi\u00e7o reveste, conforme as circunst\u00e2ncias e necessidades, uma variedade de formas que a hist\u00f3ria, quase sempre, regista com verdade. Jesus \u00e9 claro nas suas op\u00e7\u00f5es e nos seus ensinamentos. As comunidades primitivas criam um estilo de vida interpelante para o meio em que se situam, causando admira\u00e7\u00e3o e simpatia: vede como se amam; p\u00f5em tudo em comum; n\u00e3o h\u00e1 necessitados. <\/p>\n<p>Estas express\u00f5es, ainda que representem mais um ideal do que uma realidade generalizada, manifestam a rela\u00e7\u00e3o entranh\u00e1vel que existe entre a pr\u00e1tica da caridade, a partilha de bens e a luta contra a pobreza. S\u00e3o tr\u00eas elementos indissoci\u00e1veis. A reflex\u00e3o doutrinal \u2013 de que a Patr\u00edstica \u00e9 porta-voz qualificada \u2013 chega a afirmar que os pobres s\u00e3o \u201cvig\u00e1rios de Cristo\u201d, \u201csacramentos\u201d da sua presen\u00e7a e ac\u00e7\u00e3o, seu rosto para ser reconhecido e sua voz para ser ouvida. Quem despreza o pobre insulta a Deus.<\/p>\n<p>O vigor teol\u00f3gico da rela\u00e7\u00e3o profunda entre a autenticidade da f\u00e9 e a pr\u00e1tica da caridade nem sempre brilha com igual intensidade. Longos per\u00edodos da hist\u00f3ria atestam n\u00e3o o seu ocaso, mas o seu encobrimento por \u201cnuvens\u201d de cumplicidade com as for\u00e7as dominantes, quer no campo do poder pol\u00edtico, quer no da compreens\u00e3o religiosa. Apesar disso \u2013 que hoje se avalia de forma muito negativa \u2013, h\u00e1 sempre algu\u00e9m que ergue a voz e suscita a resposta poss\u00edvel. E quem tiver olhos \u201csem traves nem argueiros\u201d pode ver nos s\u00e9culos passados uma linda hist\u00f3ria de amor, feita de pequenos gestos e de grandes acontecimentos, protagonizados por pessoas an\u00f3nimas ou por gente ilustre. A seiva fertilizante desta hist\u00f3ria \u00e9 a caridade que \u2013 qual arco-\u00edris \u2013 reveste as cores das necessidades humanas e sociais.<\/p>\n<p>O protagonismo da Igreja no servi\u00e7o dos pobres \u00e9 afectado pela progressiva tomada de consci\u00eancia do poder pol\u00edtico organizado em Estado. Os \u00faltimos s\u00e9culos, sobretudo o 19 e o 20 \u2013 mostram de forma clara esta evolu\u00e7\u00e3o. Os poderes p\u00fablicos chamam a si as tarefas assistenciais, ainda que tenham de \u201ccilindrar\u201d institui\u00e7\u00f5es de bem-fazer credenciadas. As correntes liberais, republicanas, colectivistas e tantas outras que adv\u00eam, for\u00e7am os factos e criam situa\u00e7\u00f5es adversas a estas institui\u00e7\u00f5es, limitando-as ou banindo-as. A Igreja, por meio das par\u00f3quias, miseric\u00f3rdias, ordens religiosas e outros grupos benem\u00e9ritos, \u00e9 profundamente abalada e muitas das suas obras s\u00e3o espoliadas e transitam para a administra\u00e7\u00e3o do Estado. <\/p>\n<p>Esta passagem \u201cfor\u00e7ada\u201d deixa a claro, com frequ\u00eancia, que as organiza\u00e7\u00f5es da Igreja ficam livres de ocupa\u00e7\u00f5es, mas impelidas pela for\u00e7a da caridade come\u00e7am a prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0s novas necessidades surgidas. E a \u201cquest\u00e3o social\u201d vem aumentar e agravar o n\u00famero dos pobres com a classe dos prolet\u00e1rios. Aquela passagem deixa igualmente a claro que o Estado n\u00e3o tem alma e reduz quase tudo a medidas legais, alguns subs\u00eddios rigidamente atribu\u00eddos e fiscalizados, esquecendo que a necessidade n\u00e3o tem hora e todo o pobre \u00e9 pessoa. Deixa ainda a claro que a efic\u00e1cia dos servi\u00e7os est\u00e1 condicionada n\u00e3o s\u00f3 pela compet\u00eancia t\u00e9cnica dos funcion\u00e1rios \u2013 sempre indispens\u00e1vel \u2013 mas pela rela\u00e7\u00e3o de ajuda, de proximidade e de compreens\u00e3o. A ningu\u00e9m pode ser retirado o direito de ser pessoa, com tudo o que esta verdade comporta e exige.<\/p>\n<p>A evolu\u00e7\u00e3o do Estado moderno chega a configurar-se no Estado de bem-estar social, que pretende cuidar dos cidad\u00e3os \u201cdo ber\u00e7o \u00e0 sepultura\u201d. Em poucos pa\u00edses se consegue realizar tal objectivo. Nem admira. O Estado n\u00e3o constitui uma entidade propriet\u00e1ria das pessoas, nem uma organiza\u00e7\u00e3o \u00e0 margem da sociedade e superior a ela. N\u00e3o \u00e9 fun\u00e7\u00e3o sua forjar o cidad\u00e3o, assenhoreando-se da educa\u00e7\u00e3o, usurpando a escola ou manipulando os grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o lhe pertence invadir o santu\u00e1rio da consci\u00eancia ou da fam\u00edlia, nem fazer das minorias aguerridas a voz da Na\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Mas, na feliz express\u00e3o de Pio XII, na mensagem de Natal de 1944, durante a II Grande Guerra, \u201cdeve ser a unidade org\u00e2nica e organizadora dum verdadeiro povo\u201d, um servi\u00e7o \u00e0 sociedade civil a fim desta se organizar e fazer convergir todos os seus esfor\u00e7os, potencialidades, projectos e institui\u00e7\u00f5es para o bem comum, ou seja, de todas as pessoas e da pessoa toda.<\/p>\n<p>A melhor prova da sua legitimidade consiste na pr\u00e1tica universal dos direitos humanos fundamentais. A haver discrimina\u00e7\u00e3o \u2013 que seja positiva \u2013 a favor dos que se encontram em situa\u00e7\u00e3o de exclus\u00e3o social, de desemprego cr\u00f3nico ou de longa dura\u00e7\u00e3o, de pobreza extrema ou mis\u00e9ria hist\u00f3rica. O teste da autenticidade das suas pol\u00edticas sociais coincide com a ajuda efectiva aos pobres para que se libertem da pobreza.<\/p>\n<p>\u00c9 miss\u00e3o da Igreja ser consci\u00eancia cr\u00edtica da dignidade da pessoa humana e, nela, de tudo o que a favorece, menospreza ou degrada. Manifesta esta consci\u00eancia pela interven\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os \u2013 cidad\u00e3os como quaisquer outros \u2013 em todos os espa\u00e7os sociais, pol\u00edticos, econ\u00f3micos, religiosos. Est\u00e1 em causa a \u201cconstru\u00e7\u00e3o\u201d de uma sociedade digna da condi\u00e7\u00e3o humana que, por sua vez, \u00e9 \u201cespelho\u201d do ser original do nosso Deus. <\/p>\n<p>A par\u00f3quia surge como um dos espa\u00e7os religiosos privilegiados: congrega assembleias significativas, faz celebra\u00e7\u00f5es em que reconhece os limites (pecados) e as capacidades dos seres humanos, proclama uma palavra divina de fraternidade universal, sela esta palavra com gestos de comunh\u00e3o e de paz, proclama e oferece continuamente o exemplo de Jesus Cristo que se fez pobre para nos enriquecer, organiza servi\u00e7os de atendimento pessoal no domic\u00edlio ou noutros locais, desperta energias de humanidade e encaminha-as para formas de voluntariado social e mission\u00e1rio, apela continuamente \u00e0 renova\u00e7\u00e3o dos seus membros, para saberem estar presentes e serem solid\u00e1rios numa sociedade em que as desigualdades se agravam progressivamente, apesar dos esfor\u00e7os contr\u00e1rios de muitos cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>A par\u00f3quia, enquanto Igreja de \u201cportas abertas\u201d, interage com o meio em que se situa. Recebe e d\u00e1. Faz a permuta de dons. \u201cOs pobres s\u00e3o a sua cruz e alegria\u201d. Por eles, todos os seus membros se devem interessar. Com eles, muitos devem estar. Como eles, alguns devem ficar e trabalhar para, juntamente, avan\u00e7arem nos caminhos da sua promo\u00e7\u00e3o libertadora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pensar a par\u00f3quia<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[59],"tags":[],"class_list":["post-10117","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-formacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10117","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10117"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10117\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10117"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10117"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10117"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}