{"id":10144,"date":"2007-07-04T15:03:00","date_gmt":"2007-07-04T15:03:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=10144"},"modified":"2007-07-04T15:03:00","modified_gmt":"2007-07-04T15:03:00","slug":"porque-meu-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/porque-meu-deus\/","title":{"rendered":"Porqu\u00ea, meu Deus?"},"content":{"rendered":"<p>Sou pai e av\u00f4. Tenho f\u00e9. E na f\u00e9 busco a esperan\u00e7a. E na esperan\u00e7a, procuro o equil\u00edbrio num mundo atordoado pelo mal, pela indiferen\u00e7a, pelo ego\u00edsmo, pela cultura da morte e da indignidade.<\/p>\n<p>Nas entranhas da minha alma o desaparecimento daquela menina inglesa no Algarve, como antes de outros meninos e meninas que nos chegam pela imagens ou pela aus\u00eancia delas, provocam-me uma mistura dolorosa de compaix\u00e3o, de impot\u00eancia, de medo, de absurdo absoluto. <\/p>\n<p>Abstraindo-me da parafern\u00e1lia dos media, e imergindo silenciosamente na ess\u00eancia e n\u00e3o na circunst\u00e2ncia, sinto-me dentro daquelas crian\u00e7as na fragilidade e na mem\u00f3ria do meu ser crian\u00e7a. E dentro dos seus sofridos pais na vulnerabilidade do meu ser impotente, na compaix\u00e3o do meu ser sens\u00edvel. <\/p>\n<p>Nestas ocasi\u00f5es, sentimos a injusti\u00e7a de ver os nossos problemas como os maiores, ainda que significantes ou insignificantes. Para a maioria deles que nos ocupam e consomem, n\u00e3o somos n\u00f3s que os resolvemos, mas os acontecimentos que os dissolvem.<\/p>\n<p>Nestes casos, por\u00e9m, no vazio da aus\u00eancia esventrada, no absurdo de um mal infinito, nada se pode dissolver na mente e no cora\u00e7\u00e3o daqueles pais. \u00c9 um sofrimento que n\u00e3o tem medida por a ter demais. Porque \u00e9 invasivo at\u00e9 \u00e0 mais profunda e \u00ednfima frac\u00e7\u00e3o da natureza e da dignidade de condi\u00e7\u00e3o humana. Porque \u00e9 corrosivo nos mais rec\u00f4nditos poros da alma e da sensibilidade. Porque n\u00e3o tem intervalos no imagin\u00e1rio da felicidade interrompida e da perf\u00eddia contra a inoc\u00eancia e a pureza. Porque \u00e9 destrutivo entre a esperan\u00e7a que n\u00e3o desvanece e o luto que n\u00e3o acontece. Porque o futuro parece n\u00e3o ter lugar para al\u00e9m da mem\u00f3ria do passado e da inquietude totalit\u00e1ria do presente.<\/p>\n<p>Perante tudo isto, transporto-me para uma ang\u00fastia solid\u00e1ria onde me apetece chorar mesmo que sem l\u00e1grimas. Em sil\u00eancio interior, que \u00e9 a minha maneira de estar com eles todos. E de rezar. Em comunh\u00e3o, porque \u00e9 o meu modo de os ajudar.<\/p>\n<p>E de reler o Evangelho para n\u00e3o perder a esperan\u00e7a: Jesus, chamando uma crian\u00e7a, p\u00f4-la no meio deles e disse: \u2018Na verdade vos digo que, se n\u00e3o vos converterdes e vos tornardes como crian\u00e7as, n\u00e3o entrareis no reino dos c\u00e9us. Aquele, pois, que se fizer pequeno como esta crian\u00e7a, esse ser\u00e1 o maior no reino dos c\u00e9us. E quem receber em Meu nome uma crian\u00e7a como esta, \u00e9 a Mim que recebe. Por\u00e9m, quem escandalizar um destes pequeninos, que cr\u00eaem em Mim, melhor fora que lhe pendurassem ao pesco\u00e7o a m\u00f3 de um moinho e que o lan\u00e7assem ao fundo do mar (Mt, 18, 1-6).<\/p>\n<p>Imagino, dolorosamente, o olhar de uma crian\u00e7a eleita de Deus, na aus\u00eancia dos seus pais e do seu anjo da guarda. Mas ser\u00e1 que tenho mesmo capacidade para imaginar essa dor t\u00e3o infinita quanto injusta? N\u00e3o, certamente que n\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>E pergunto, inconformado, porqu\u00ea, meu Deus?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sou pai e av\u00f4. Tenho f\u00e9. E na f\u00e9 busco a esperan\u00e7a. E na esperan\u00e7a, procuro o equil\u00edbrio num mundo atordoado pelo mal, pela indiferen\u00e7a, pelo ego\u00edsmo, pela cultura da morte e da indignidade. 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