{"id":10168,"date":"2007-07-11T14:56:00","date_gmt":"2007-07-11T14:56:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=10168"},"modified":"2007-07-11T14:56:00","modified_gmt":"2007-07-11T14:56:00","slug":"espaco-e-comunidade-de-educacao-da-consciencia-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/espaco-e-comunidade-de-educacao-da-consciencia-social\/","title":{"rendered":"Espa\u00e7o e comunidade de educa\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia social"},"content":{"rendered":"<p>Pensar a Par\u00f3quia <!--more--> A ac\u00e7\u00e3o em favor da justi\u00e7a e a transforma\u00e7\u00e3o do mundo fazem parte irrenunci\u00e1vel da miss\u00e3o da Igreja entendida como um servi\u00e7o de reden\u00e7\u00e3o da humanidade e de liberta\u00e7\u00e3o de toda a situa\u00e7\u00e3o opressora. Esta afirma\u00e7\u00e3o tem a autoridade de Paulo VI e surge no contexto do S\u00ednodo de 1971.<\/p>\n<p>Este contexto denota a passagem de um ambiente de optimismo geral, t\u00edpico de uma sociedade opulenta, a um outro em que se expande um crescente pessimismo e se acentuam desequil\u00edbrios caracter\u00edsticos de uma \u00e9poca de crise. Sirva de ilustra\u00e7\u00e3o a turbul\u00eancia ocorrida com o petr\u00f3leo, os efeitos da cessa\u00e7\u00e3o da Guerra Fria, a independ\u00eancia de novos pa\u00edses, as tens\u00f5es surgidas na Igreja e na Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica, o surgimento e a difus\u00e3o da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, a s\u00e9rie de importantes documentos publicados pelo Magist\u00e9rio eclesial, designadamente a \u201cOctogesimo Adveniens\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 nesta carta pessoal que Paulo VI  sublinha a responsabilidade das comunidades crist\u00e3s em rela\u00e7\u00e3o ao \u201capostolado social\u201d, \u00e0 ac\u00e7\u00e3o a empreender contra as situa\u00e7\u00f5es de pobreza. As comunidades devem analisar com objectividade as situa\u00e7\u00f5es envolventes e ilumin\u00e1-las com o Evangelho a fim de haurirem princ\u00edpios de reflex\u00e3o, normas de avalia\u00e7\u00e3o e directrizes de ac\u00e7\u00e3o. Em Portugal, a Carta Pastoral comemorativa do 10\u00ba anivers\u00e1-rio da \u201cPacem in Terris\u201d, em Junho de 1973, faz uma significativa aplica\u00e7\u00e3o destas orienta\u00e7\u00f5es. Nessa altura, \u00e9 j\u00e1 intensa a movimenta\u00e7\u00e3o clandestina pol\u00edtico-militar que conduz \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o do 25 de Abril.<\/p>\n<p>A par\u00f3quia constitui uma destas comunidades, a par de outras integradas no seio da Igreja diocesana. A indica\u00e7\u00e3o pontif\u00edcia aplica-se directamente ao campo social, isto \u00e9, das realidades temporais, ou seja, \u00e0 vida e \u00e0 fam\u00edlia, \u00e0 cultura, \u00e0 economia, ao trabalho, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 pol\u00edtica. A ela compete, neste enquadramento, estar consciente do que acontece e dos dinamismos que se entrecruzam na teia dos factos, a fim de encontrar o meio adequado \u00e0 ac\u00e7\u00e3o a realizar. <\/p>\n<p>Por isso, examinar o fen\u00f3meno da pobreza exige que se analise o da riqueza, falar de pobres implica que se fale de ricos, tratar das rela\u00e7\u00f5es de interdepend\u00eancia comporta necessariamente as rela\u00e7\u00f5es sociais, pol\u00edticas e econ\u00f3micas que configuram a cultura da nossa sociedade.<\/p>\n<p>A originalidade da presen\u00e7a e da ac\u00e7\u00e3o da Igreja na luta contra a pobreza e a exclus\u00e3o social em benef\u00edcio dos pobres e dos marginalizados n\u00e3o est\u00e1 tanto no que se faz, mas nas raz\u00f5es mais profundas da sua interven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como qualquer pessoa, sem mais \u201cadjectivos\u201d, o crist\u00e3o actua por raz\u00f5es humanit\u00e1rias. A ajuda nasce do impulso da consci\u00eancia c\u00edvica e expressa-se nas formas aptas para satisfazer a necessidade e para dar um passo na promo\u00e7\u00e3o de quem \u00e9 \u201cassistido\u201d. Nada nem ningu\u00e9m pode razoavelmente impedir esta solidariedade prim\u00e1ria. <\/p>\n<p>A escala para atingir a autonomia pessoal tem n\u00edveis que formam uma unidade. Esta unidade expressa-se n\u00e3o s\u00f3 em a pessoa se bastar a si mesma, mas em poder prestar socorro a outros para que ousem sair da situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria ou mesmo de pobreza em que se encontram. <\/p>\n<p>No seu humanismo, o crist\u00e3o-cidad\u00e3o pode incluir, \u00e0 maneira de seiva, uma energia religiosa. A realidade continua a mesma, mas a motiva\u00e7\u00e3o adquire uma nova consist\u00eancia. Os agentes sociais fazem os mesmos programas, mas a rela\u00e7\u00e3o pessoal e comunit\u00e1ria sai refor\u00e7ada pela cren\u00e7a ou pela religi\u00e3o que se professa. O benefici\u00e1rio mant\u00e9m o mesmo rosto humano, mas o brilho do olhar com que \u00e9 visto adquire outra intensidade. O acto humano de bem-fazer identifica-se com o acto religioso de alcance transcendente.<\/p>\n<p>Na sua religiosidade, o crist\u00e3o-cidad\u00e3o-cat\u00f3lico \u201ccapta\u201d n\u00e3o apenas uma energia oculta mas uma pessoa nova, aquela que se identifica com os pobres em qualquer n\u00edvel de necessidades. Capta esta presen\u00e7a e deixa-se impelir pelo amor que dela brota. Sem descurar em nada o que faz, aperfei\u00e7oa-o, se poss\u00edvel, personalizando a motiva\u00e7\u00e3o. \u201cO que fizestes a um destes Meus irm\u00e3os, a Mim o fizestes\u201d \u2013 garante Jesus Cristo.<\/p>\n<p>Em Jesus Cristo, a ac\u00e7\u00e3o social crist\u00e3 encontra o seu fundamento mais s\u00f3lido. Ele, melhor que ningu\u00e9m, sabe valorar a rela\u00e7\u00e3o com o pr\u00f3ximo na modalidade de dom, sabe relativizar a for\u00e7a da utilidade mercantil na forma de interc\u00e2mbio e reciprocidade, sabe medir o alcance das leis e situ\u00e1-las no enquadramento do direito justo. Esta sabedoria que nos adv\u00e9m do proceder de Jesus deve inspirar o agir respons\u00e1vel dos seus disc\u00edpulos-ap\u00f3stolos.<\/p>\n<p>O dom faz-se doa\u00e7\u00e3o, alimenta la\u00e7os de proximidade e cria v\u00ednculos comunit\u00e1rios. O pobre \u00e9 o meu pr\u00f3ximo a quem devo amar como a mim mesmo. O interc\u00e2mbio utilit\u00e1rio abre horizontes \u00e0 posse e ao uso dos bens. O pobre \u2013 como qualquer pessoa \u2013 necessita dos bens indispens\u00e1veis a uma vida digna para si e para os seus. N\u00e3o pode ser tratado apenas como cliente de um mercado livre, porque n\u00e3o tem posses para comprar, embora necessite absolutamente desses bens. A lei regula o funcionamento dos espa\u00e7os sociais e das rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas, delimita a fun\u00e7\u00e3o da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica e estabelece o papel do Estado. Deve ser sempre o rosto do direito justo que d\u00e1 harmonia e coes\u00e3o ao todo da sociedade em ordem ao bem-estar de cada um. Por isso, os recursos dispon\u00edveis ou a produzir em qualquer sociedade est\u00e3o ao servi\u00e7o do Bem Comum, comportam uma entranhada fun\u00e7\u00e3o social e devem chegar a todos segundo a justi\u00e7a e a equidade. A caridade impregna estas regras que s\u00e3o virtudes e, por vezes, suplanta-as de modo humanizante. <\/p>\n<p>A par\u00f3quia tem uma fun\u00e7\u00e3o insubstitu\u00edvel a desempenhar: educar a consci\u00eancia social dos crist\u00e3os, servir a causa dos pobres como \u201ccora\u00e7\u00e3o\u201d da comunidade eclesial e \u201ccerne\u201d da sociedade, situar a pobreza no contexto de riqueza que a provoca, rever as obras de que \u00e9 \u201cgestora\u201d \u00e0 luz da \u00e9tica social evang\u00e9lica, celebrar em festa a solidariedade vivida e potenciada, estabelecer parcerias adequadas \u00e0 urg\u00eancia das respostas a implementar. A par\u00f3quia, pelo seu ser e agir, expressa e configura a solicitude da Igreja pelos pobres, sinal de que o Reino de Deus se vai implantando entre n\u00f3s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pensar a Par\u00f3quia<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[59],"tags":[],"class_list":["post-10168","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-formacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10168","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10168"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10168\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10168"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10168"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10168"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}