{"id":10190,"date":"2007-07-11T15:39:00","date_gmt":"2007-07-11T15:39:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=10190"},"modified":"2007-07-11T15:39:00","modified_gmt":"2007-07-11T15:39:00","slug":"por-que-nos-matamos-na-estrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/por-que-nos-matamos-na-estrada\/","title":{"rendered":"Por que nos matamos na estrada?"},"content":{"rendered":"<p>Para a pergunta que \u00e9 tamb\u00e9m t\u00edtulo de um estudo publicado em livro, h\u00e1 muitas respostas. As mais decisivas, segundo Lu\u00eds Antero Reto, na noite de 4 de Julho, s\u00e3o estas: porque nos comportamos mal na estrada; porque, andando em excesso de velocidade, os efeitos de um acidente pioram; porque toda a gente pensa que \u00e9 melhor condutor do que o outro; porque ainda n\u00e3o temos suficiente medo das multas e san\u00e7\u00f5es. \u00c9 importante falar aqui na primeira pessoa do plural. Tem a ver com todos. O mais pacato cidad\u00e3o fica furioso ao volante.<\/p>\n<p>O presidente do Instituto Superior de Ci\u00eancias do Trabalho e da Empresa (ISCTE) e tamb\u00e9m colaborador do Governo nas quest\u00f5es da preven\u00e7\u00e3o rodovi\u00e1ria esteve no Centro Universit\u00e1rio F\u00e9 e Cultura, na \u00faltima sess\u00e3o do F\u00f3rum::Universal antes das f\u00e9rias.<\/p>\n<p>Tr\u00eas Guerras Coloniais<\/p>\n<p>Entre 1986 e 2006, morreram 39 mil portugueses na estrada, o equivalente ao n\u00famero de mortos de tr\u00eas Guerras Coloniais. 187 mil pessoas ficaram gravemente doentes e houve um milh\u00e3o de feridos. Trata-se de mortes silenciosas. Morre um e depois outro e depois outro. Ningu\u00e9m se apercebe de que morrem tantos.<\/p>\n<p>Boa not\u00edcia<\/p>\n<p>A boa not\u00edcia \u00e9 que a sinistralidade est\u00e1 a diminuir. Atingimos em 2006. Em 1995 morreram nas estradas portuguesas 2700 pessoas. Em 2006 morreram 850. Atingiu-se o objectivo previsto para 2010 no Plano de Seguran\u00e7a Rodovi\u00e1ria.<\/p>\n<p>Preju\u00edzo econ\u00f3mico<\/p>\n<p>Os acidentes rodovi\u00e1rios em Portugal s\u00e3o uma realidade desastrosa do ponto de vista humano e econ\u00f3mico. Em 1996, o impacto negativo no PIB ter\u00e1 sido de 1,41 %. O custo dos acidentes com v\u00edtimas \u00e9 de 2 mil milh\u00f5es de euros.<\/p>\n<p>Euforia econ\u00f3mica, perigo na estrada<\/p>\n<p>Nos per\u00edodos de aquecimento econ\u00f3mico, como o foram parte do governo de Cavaco Silva e parte do de Guterres, houve mais mortes na estrada. Se a economia come\u00e7a a aquecer, aumentam os acidentes. O aumento do n\u00famero de acidentes tem mais a ver com \u201ceuforia econ\u00f3mica\u201d do que com o n\u00famero de quil\u00f3metros andado ou o pre\u00e7o do combust\u00edvel.<\/p>\n<p>Bons condutores?<\/p>\n<p>Os portugueses t\u00eam a percep\u00e7\u00e3o de que s\u00e3o bons condutores, enquanto \u201cos outros\u201d conduzem mal. A ideia de que \u201cn\u00f3s somos bons\u201d e \u201cos outros s\u00e3o o piorio\u201d est\u00e1 completamente fora da realidade.<\/p>\n<p>Tr\u00eas C<\/p>\n<p>Para diminuir a sinistralidade, o caminho \u00e9 o dos tr\u00eas C: Convencer, ou seja, persuadir no sentido de mudar comportamentos, atrav\u00e9s de campanhas; Constranger, ou seja, obrigar pela norma ou pela lei; Controlar, atrav\u00e9s da fiscaliza\u00e7\u00e3o. Estes tr\u00eas C t\u00eam de ser trabalhados em simult\u00e2neo.<\/p>\n<p>Factor humano<\/p>\n<p>O medo da multa \u00e9 apontado por 30% dos condutores como decisivo para mudar comportamentos. 90% dos acidentes devem-se a factores comportamentais (humanos).<\/p>\n<p>Restaurante versus Estrada<\/p>\n<p>No restaurante e na estrada, as pessoas comportam-se de modos completamente diferentes. No restaurante, d\u00e3o o lugar, s\u00e3o simp\u00e1ticas, abrem a porta, deixam passar. Na estrada, tornam-se agressivas e irracionais, apitam, querem chegar em primeiro, roubam o estacionamento.<\/p>\n<p>Valores dominantes<\/p>\n<p>Por outro lado, na sociedade, os valores dominantes s\u00e3o a competi\u00e7\u00e3o, a velocidade, o dinamismo. Ora, na preven\u00e7\u00e3o, aposta-se na seguran\u00e7a, na calma, no sentido do outro, na educa\u00e7\u00e3o. H\u00e1 um paradoxo de valores que dificulta a preven\u00e7\u00e3o rodovi\u00e1ria.<\/p>\n<p>Homens e Mulheres<\/p>\n<p>De uma maneira geral, as emo\u00e7\u00f5es no acto de condu\u00e7\u00e3o s\u00e3o mais positivas para os homens quando conduzem fora das localidades e mais negativas quando conduzem nas localidades. Com a mulher, passa-se o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Mulheres agressivas<\/p>\n<p>Nota-se um aumento de comportamentos negativos na estrada por parte das mulheres. Come\u00e7am a ter comportamentos agressivos e de disputa que s\u00f3 eram atribu\u00eddos a homens.<\/p>\n<p>Velocidade<\/p>\n<p>Em 2002 os portugueses tinham a percep\u00e7\u00e3o de que 38% por cento dos acidentes se deviam ao excesso de velocidade. Em 2006, essa percentagem desceu 7%. Significa que h\u00e1 uma mudan\u00e7a de percep\u00e7\u00e3o. A opini\u00e3o do \u201ceu posso andar a 200 km\/h, desde que o meu carro d\u00ea\u201d est\u00e1 a desaparecer. Na verdade, a velocidade pode n\u00e3o ser a causa do acidente. Mas potencia os efeitos negativos do acidente.<\/p>\n<p>Prioridade em Fran\u00e7a<\/p>\n<p>Em Fran\u00e7a, no \u00faltimo mandado, Chirac teve como prioridade a diminui\u00e7\u00e3o do n\u00famero de mortes na estrada. Uma das estrat\u00e9gias foi a carta por pontos (a carta \u00e9 apreendida depois de um certo n\u00famero de infrac\u00e7\u00f5es). Em cinco anos o n\u00famero mortes caiu para metade. Esta pol\u00edtica teve o efeito colateral de aumentar a venda de motorizadas (devido \u00e0s cartas estarem apreendidas). Muitos portugueses em Fran\u00e7a passaram a andar de motorizada.<\/p>\n<p>Civismo<\/p>\n<p>Em Portugal h\u00e1 a ideia de que a norma \u00e9 para transgredir. Faz parte da nossa matriz cultural nacional. Na Alemanha, em algumas auto-estradas n\u00e3o h\u00e1 limite de velocidade (antes, n\u00e3o havia em nenhuma). Mas, quando se indica 30 km\/h, todos obedecem.<\/p>\n<p>O grande pavor<\/p>\n<p>Antes, a probabilidade de pagar uma multa era baixa. Agora, com o pagamento r\u00e1pido ou mesmo na hora, o crime deixou de compensar. Mas muitas pessoas, mesmo assim, n\u00e3o se importam de pagar. O grande medo \u00e9 ficar sem carta. \u00c9 o mais dissuasor. As pessoas t\u00eam um pavor terr\u00edvel. \u00c9 pior do que lhes retirar o BI.<\/p>\n<p>Trabalho comunit\u00e1rio<\/p>\n<p>Quando um comportamento na estrada \u00e9 criminalizado, parece ser prefer\u00edvel optar por trabalho comunit\u00e1rio como pena, em vez da pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Pouco impacto das campanhas de preven\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>As campanhas de preven\u00e7\u00e3o t\u00eam pouco impacto. \u00c9 prefer\u00edvel gastar os milh\u00f5es que custam em parques de condu\u00e7\u00e3o ou em kits distribu\u00eddos nas escolas. Faz mais pela preven\u00e7\u00e3o uma reportagem com imagens reais nos telejornais do que a publicidade. \u00c9 importante manter na agenda medi\u00e1tica esta quest\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para a pergunta que \u00e9 tamb\u00e9m t\u00edtulo de um estudo publicado em livro, h\u00e1 muitas respostas. 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