{"id":10225,"date":"2007-07-19T11:57:00","date_gmt":"2007-07-19T11:57:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=10225"},"modified":"2007-07-19T11:57:00","modified_gmt":"2007-07-19T11:57:00","slug":"apreciar-e-potenciar-a-accao-curativa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/apreciar-e-potenciar-a-accao-curativa\/","title":{"rendered":"Apreciar e potenciar a ac\u00e7\u00e3o curativa"},"content":{"rendered":"<p>Pensar a par\u00f3quia <!--more--> As necessidades b\u00e1sicas n\u00e3o satisfeitas configuram \u201co rosto\u201d dos pobres. Em todos os lugares e \u00e2mbitos da vida. De maneira encoberta ou exposta ao olhar p\u00fablico. Em programas de televis\u00e3o e de outros meios de comunica\u00e7\u00e3o. Em concursos de \u201calta burguesia\u201d, a que n\u00e3o falta uma cena de fazer chorar pelo infeliz que merece compaix\u00e3o. Com \u201cmil\u201d rostos, a pobreza vai sendo imposta sobretudo pelas for\u00e7as imperantes no actual sistema econ\u00f3mico neoliberal e pelas leis dos sistemas pol\u00edticos que lhe servem de suporte. S\u00e3o rostos que espelham a pessoa do pobre, espoliada de bens, desconsiderada na sua honra e honestidade, votada \u00e0 indignidade dos exclu\u00eddos e marginalizados. Um ser que n\u00e3o conta ou a quem se oferecem eventualmente umas \u201cmigalhas\u201d.<\/p>\n<p>Sem identidade pr\u00f3pria e atormentados por necessidades cuja satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 inadi\u00e1vel, como olham o mundo da abund\u00e2ncia, a sociedade do bem-estar, a Igreja da comunh\u00e3o que quer distinguir-se pela pobreza e fraternidade para ser fiel a Jesus Cristo? No sil\u00eancio da impot\u00eancia sofrida ou no murm\u00fario da resigna\u00e7\u00e3o incontida, que mensagens v\u00e3o desfiando? No coro das suas vozes, no brilho do seu olhar, no eco dos seus protestos ou mesmo no cheiro a p\u00f3lvora das suas lutas ou na for\u00e7a das suas marchas n\u00e3o violentas, que transmitem de forma t\u00e3o eloquente? E quem est\u00e1 disposto a ouvi-los em fiel sintonia e inteligente compreens\u00e3o?<\/p>\n<p>A par\u00f3quia, qual Igreja no meio do povo, surge com uma voca\u00e7\u00e3o espec\u00edfica em rela\u00e7\u00e3o aos pobres. Organizada e a funcionar como comunidade de participa\u00e7\u00e3o, disp\u00f5e de redes de vizinhan\u00e7a para conhecer e de meios aptos para ouvir, de oportunidades para valorar, de espa\u00e7os para acolher e dialogar, que, sendo bem usados, a credenciam como institui\u00e7\u00e3o retransmissora dos seus sentimentos e crit\u00e9rios.<\/p>\n<p>Que dizem os pobres \u00e0 sociedade opulenta, que, apesar dos seus avan\u00e7os, sofre de uma crise profunda e teima em manter padr\u00f5es de vida inacess\u00edveis a todos eles? Que lugar sentem como seu nesta sociedade e como podem conter-se perante a sedu\u00e7\u00e3o da qualidade do bem-estar apregoado?<\/p>\n<p>Que dizem os pobres \u00e0 Igreja que, contando embora com uma \u201clegi\u00e3o\u201d de volunt\u00e1rios abnegados e her\u00f3icos junto dos pobres a lutar contra a pobreza, n\u00e3o transmite a mensagem evang\u00e9lica por meio da sua institui\u00e7\u00e3o e dos estilos de vida da maioria dos crist\u00e3os? E, descendo \u201ca terreno\u201d mais pr\u00f3ximo a cada um de n\u00f3s, pode perguntar-se: que dizem \u00e0 par\u00f3quia os que sofrem os efeitos de qualquer forma de pobreza a prop\u00f3sito do acesso aos bens religiosos, aos lugares do culto, \u00e0s obras sociais, ao hor\u00e1rio e estilo de atendimento e de relacionamento, \u00e0 linguagem lit\u00fargica, \u00e0 praxe dos rituais, \u00e0 gest\u00e3o dos donativos que lhe s\u00e3o confiados para eles?<\/p>\n<p>Conhe\u00e7o apenas respostas pessoais dadas em ocasi\u00f5es especiais. Podem ser sintom\u00e1ticas, mas manifestamente insuficientes. H\u00e1 resumos \u2013 quase sempre bem feitos e expressivos \u2013 de comunica\u00e7\u00f5es e an\u00e1lises apresentadas por quem estuda a sua situa\u00e7\u00e3o, actua na sua promo\u00e7\u00e3o ou vive com eles por op\u00e7\u00e3o. Faz falta reconhecer-lhes o direito \u00e0 palavra e criar espa\u00e7os e condi\u00e7\u00f5es para que se expressem livremente. <\/p>\n<p>Poderia acontecer o que descreve, com alguma imagina\u00e7\u00e3o, um te\u00f3logo famoso actual a prop\u00f3sito da multid\u00e3o que acompanhava Jesus e o viu entrar em casa de Zaqueu. Perde o entusiasmo? Dispersa? Senta-se silenciosa \u00e0 espera que a visita acabe? Manda representantes a dialogar com os funcion\u00e1rios do chefe dos publicanos? Remete-se a uma atitude resignada, ainda que inconformada? \u00c9 quase certo que a \u201craiva\u201d incontida face ao homem de baixa estatura e senhor de injusta grande fortuna, tivesse dado azo a protestos, a gritarias, a den\u00fancias fortes, a contesta\u00e7\u00f5es abertas em prol de outra situa\u00e7\u00e3o, de outra forma de vida, de outra forma de relacionamento.<\/p>\n<p>A vida dos pobres \u201cl\u00e1zaros\u201d de hoje continua cheia de cenas dolorosas e de epis\u00f3dios lancinantes. Insere-se, com in\u00fameros agravantes, num sistema injusto que gera e acentua fracturas sociais, econ\u00f3micas, culturais e religiosas, e se manifesta nas mais diversas situa\u00e7\u00f5es de mis\u00e9ria ou de pobreza: depreda\u00e7\u00e3o ambiental, especialmente a polui\u00e7\u00e3o do ar e da \u00e1gua; desestrutura\u00e7\u00e3o familiar, e solid\u00e3o de pessoas, \u201ctr\u00e2nsito\u201d de crian\u00e7as que passam \u201c de m\u00e3o em m\u00e3o\u201d, obesidade e m\u00e1 nutri\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia dom\u00e9stica, inadapta\u00e7\u00e3o ao uso das tecnologias modernas, fomes de p\u00e3o e carinho, desemprego com pesados encargos sociais, pens\u00f5es de mis\u00e9ria, migra\u00e7\u00e3o ilegal ou clandestina, depend\u00eancia do \u00e1lcool e de drogas \u201cpesadas\u201d.<\/p>\n<p>A par\u00f3quia pela sua vida e miss\u00e3o desempenha uma not\u00e1vel ac\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas paliativa, mas regenerativa e curativa. Esta ac\u00e7\u00e3o espelha-se na gest\u00e3o dos recursos, na organiza\u00e7\u00e3o e no funcionamento de servi\u00e7os, no ambiente acolhedor e participativo das celebra\u00e7\u00f5es, na linguagem e outras formas de comunica\u00e7\u00e3o acess\u00edvel, na sobriedade e no estilo de vida dos crist\u00e3os-cidad\u00e3os, nos servi\u00e7os de apoio em graves necessidades, nas parcerias com outras institui\u00e7\u00f5es a fim de fazer crer que outra situa\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel e promover a sua prossecu\u00e7\u00e3o. Uma ac\u00e7\u00e3o a apreciar e a potenciar cada vez mais. <\/p>\n<p>Sem par\u00f3quia, a Igreja distancia-se da vida real do povo e a sociedade empobrece em humanidade.  <\/p>\n<p>Nota da redac\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>Com este artigo, o Pe Georgino Rocha completa a s\u00e9rie de textos iniciada a 21 de Fevereiro de 2007 sobre a realidade paroquial. Ao longo de quase meio ano, semanalmente, foram abordadas as v\u00e1rias facetas da realidade eclesial mais pr\u00f3xima das pessoas. O Correio do Vouga agradece esta colabora\u00e7\u00e3o e aguarda novas s\u00e9ries de textos do autor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pensar a par\u00f3quia<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[59],"tags":[],"class_list":["post-10225","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-formacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10225","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10225"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10225\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10225"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10225"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10225"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}