{"id":10285,"date":"2007-07-26T10:33:00","date_gmt":"2007-07-26T10:33:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=10285"},"modified":"2007-07-26T10:33:00","modified_gmt":"2007-07-26T10:33:00","slug":"um-bispo-portugues-retratado-na-capela-sistina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/um-bispo-portugues-retratado-na-capela-sistina\/","title":{"rendered":"Um bispo portugu\u00eas retratado na Capela Sistina"},"content":{"rendered":"<p>O Bispo portugu\u00eas representado na Capela Sistina, auxiliando o \u201cPrinc\u00edpe Perfeito\u201d, veio a Aveiro tentar que Joana deixasse o convento.<\/p>\n<p>A Princesa D. Joana, que em 1472 veio para Aveiro, ficando a viver no Mosteiro de Jesus, em 25 de Janeiro de 1475, com a tomada do h\u00e1bito dominicano, iniciou o noviciado com o fim de se preparar para a profiss\u00e3o religiosa na Ordem dos Pregadores. Ao ser conhecido o facto, logo se avolumaram os protestos contra a sua resolu\u00e7\u00e3o. O pr\u00f3prio Pr\u00edncipe D. Jo\u00e3o, seu irm\u00e3o, que mantinha como um dos seus projectos pol\u00edticos um poss\u00edvel casamento da irm\u00e3 com algum pr\u00edncipe estrangeiro, deslocou-se \u00e0s terras do Vouga, com alguns fidalgos, entre os quais o bispo de \u00c9vora, D. Garcia de Meneses. Tamb\u00e9m este, cortes\u00e3o e diplomata, se mostrava severo quanto ao procedimento da Princesa e disp\u00f4s-se a apoiar D. Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>Chegado a Aveiro, o \u201cPr\u00edncipe Perfeito\u201d entrou pela clausura conventual e, com ele, o referido bispo. A prioresa, madre Brites Leit\u00e3o, como lhe competia, ouviu D. Jo\u00e3o que lhe afirmou ter agido temerariamente ao investir o h\u00e1bito a sua irm\u00e3 e ao aceit\u00e1-la como novi\u00e7a; el-Rei, seu pai, e ele n\u00e3o consentiam que ela levasse adiante coisa t\u00e3o errada. Com humildade, a prioresa respondeu que ela e todas as irm\u00e3s consideravam a Princesa como sua senhora e assim lhe obedeciam e a serviam. Por isso, apenas haviam cumprido o desejo de D. Joana.<\/p>\n<p>D. Jo\u00e3o n\u00e3o se contentou com a resposta da superiora da Comunidade. Pediu ent\u00e3o que o levassem aos aposentos da irm\u00e3; esta veio ao seu encontro e saudou-o com muita alegria. Em tom magoado mas calmo, o irm\u00e3o foi-lhe dizendo que o seu procedimento tinha causado grande desgosto a el-Rei, a ele e a todo o Reino, e exp\u00f4s-lhe as raz\u00f5es para interromper a vida claustral. A Princesa, ouvindo tudo com muita aten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o acedeu ao pedido. Afirmou-lhe, respeitosa mas categoricamente, que fossem todos muito certos de que o que tinha come\u00e7ado, com a gra\u00e7a e a ajuda de Deus, por nenhuma coisa o havia de deixar; se estava em Aveiro e no Mosteiro de Jesus, era com a autoriza\u00e7\u00e3o de Suas Altezas\u2026 e ambos presumiam para que fim.<\/p>\n<p>Perante a persist\u00eancia de D. Joana, o Pr\u00edncipe chamou em seu refor\u00e7o o aludido bispo, que se tinha conservado a dist\u00e2ncia, e contou-lhe o resultado da conversa; porque conhecia bem a sua eloqu\u00eancia, solicitou-lhe que entrasse no debate para patrocinar o seu ponto de vista. O \u201cPr\u00edncipe Perfeito\u201d, animado pelo prelado a teimar, voltou junto da irm\u00e3 e tomou-a pela m\u00e3o; saindo da est\u00e2ncia, foram os dois para as varandas superiores do claustro, acompanhados pela prioresa e por outras quatro religiosas, al\u00e9m de D. Garcia de Meneses. Porque era preciso que ela desistisse da sua teimosia, D. Jo\u00e3o e o bispo irritaram-se e come\u00e7aram a falar ao mesmo tempo, repetindo os mesmos argumentos e insistindo que despisse o h\u00e1bito.<\/p>\n<p>A Princesa, tudo ouvindo e sofrendo com inalter\u00e1vel serenidade, respondeu-lhes, em palavras magoadas mas serenas, as quais significaram uma humilha\u00e7\u00e3o dolorosa para os dois. Ao rememorar este epis\u00f3dio em 1661, Frei Lu\u00eds de Sousa, \u201cfilho do Convento de Benfica\u201d, com o seu estilo pr\u00f3prio, escreveu que ela aproveitou a oportunidade para advertir respeitosa mas categoricamente o bispo de \u00c9vora de um modo que ele n\u00e3o esperava, mostrando-lhe a sem-raz\u00e3o dos seus argumentos. D. Joana n\u00e3o se limitou a refutar as raz\u00f5es do prelado, mas increpou-o, tomando uma atitude de certo modo repreensiva da maneira de proceder de um homem da Igreja. O bispo de \u00c9vora n\u00e3o teve argumentos para contradizer a jovem Princesa.<\/p>\n<p>De facto, D. Garcia de Meneses n\u00e3o se notabilizou tanto no servi\u00e7o eclesi\u00e1stico como em empresas b\u00e9licas e em conspira\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, nas quais se envolveu. Em 1475-1476, acompanhou D. Afonso V na ingl\u00f3ria invas\u00e3o de Castela e na desastrosa batalha de Toro. Tr\u00eas anos depois, chefiou uma nova incurs\u00e3o em Castela; atacado perto de M\u00e9rida, foi vencido, ferido e preso. Em Agosto de 1481, comandou uma frota de vinte e tr\u00eas navios e de dois mil homens que, por ordem do nosso Monarca, foi em aux\u00edlio dos italianos contra os turcos invasores; a armada atracou em Roma, perto da bas\u00edlica de S. Paulo, onde o Pont\u00edfice recebeu e aben\u00e7oou a tripula\u00e7\u00e3o. O bispo de \u00c9vora pronunciou, na ocasi\u00e3o, um t\u00e3o douto e elegante discurso, em latim, dissertando sobre a repreens\u00edvel in\u00e9rcia dos pr\u00edncipes cat\u00f3licos e a escandalosa vida que levavam alguns prelados; as suas palavras foram aplaudidas de tal forma que um dos presentes, o humanista Pomp\u00f3nio Letto, ter\u00e1 perguntado: &#8211; \u201cSanto Padre, quem \u00e9 este estrangeiro que fala t\u00e3o bem?\u201d Por\u00e9m, o prelado e os nossos compatriotas n\u00e3o chegaram a intervir, por os turcos se terem rendido. <\/p>\n<p>Em 1484, j\u00e1 h\u00e1 dois anos regressado a Portugal, o bispo eborense envolveu-se na conspira\u00e7\u00e3o do duque de Viseu contra D. Jo\u00e3o II. Logo ap\u00f3s a morte violenta do duque pelo Soberano, foi detido e levado para o castelo de Palmela, onde o meteram numa cisterna sem \u00e1gua; a\u00ed acabou por falecer, dizem que empe\u00e7onhado. Com muito desgosto, a Princesa teve de suspender o noviciado por motivo de sa\u00fade e a ju\u00edzo de alguns m\u00e9dicos e sacerdotes; mas nem por isso deixaria de se estimular num esfor\u00e7o volunt\u00e1rio e de continuar numa intensa actividade interior. \u201cEsperava em Nosso Senhor de ser \u2018freira sem profiss\u00e3o\u2019 naquela Casa e nela viver e morrer, sem sair nunca para outro estado\u201d \u2013 dissera antes a frei Ant\u00e3o de Santa Maria de Neiva, provincial da Observ\u00e2ncia Dominicana em Portugal e Castela.<\/p>\n<p>Em Roma, a aura de D. Garcia de Meneses fora tal que C\u00f3simo Rosselli, na altura empenhado na pintura dos seus quadros parietais na famosa Capela Sistina, retratou-o no afresco do Serm\u00e3o da Montanha. Apresentando-se com singular realce, o bispo ouve Tiago de Almeida, cavaleiro de Rodes, notabilizado pela vit\u00f3ria do seu barco contra dois cors\u00e1rios. Um portugu\u00eas, ao entrar nesse espa\u00e7o, se sobremaneira admira o g\u00e9nio art\u00edstico de Miguel \u00c2ngelo Buonarroti, bem expresso no Ju\u00edzo Final sobre a parede do fundo e nas v\u00e1rias cenas b\u00edblicas, nos profetas e nas sibilas do tecto, n\u00e3o pode deixar de olhar para a figura do bispo, destacado entre a multid\u00e3o que ouve Jesus Cristo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Bispo portugu\u00eas representado na Capela Sistina, auxiliando o \u201cPrinc\u00edpe Perfeito\u201d, veio a Aveiro tentar que Joana deixasse o convento. A Princesa D. Joana, que em 1472 veio para Aveiro, ficando a viver no Mosteiro de Jesus, em 25 de Janeiro de 1475, com a tomada do h\u00e1bito dominicano, iniciou o noviciado com o fim [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-10285","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10285","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10285"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10285\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10285"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10285"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10285"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}