{"id":10294,"date":"2007-07-26T11:40:00","date_gmt":"2007-07-26T11:40:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=10294"},"modified":"2007-07-26T11:40:00","modified_gmt":"2007-07-26T11:40:00","slug":"aprender-ate-morrer-mesmo-para-um-premio-nobel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/aprender-ate-morrer-mesmo-para-um-premio-nobel\/","title":{"rendered":"Aprender at\u00e9 morrer, mesmo para um pr\u00e9mio nobel"},"content":{"rendered":"<p>Li, com interesse e sem especiais preconceitos, a entrevista de Jos\u00e9 Saramago ao DN (5.7.2007). Deixo a outros, que j\u00e1 come\u00e7aram a fazer os seus coment\u00e1rios e v\u00e3o continuar por certo, os aspectos opin\u00e1veis de ordem nacional e pol\u00edtica, para me fixar apenas nos religiosos, a que dogmaticamente o escritor se referiu. <\/p>\n<p>As suas palavras e opini\u00f5es n\u00e3o constituem novidade, uma vez que Jos\u00e9 Saramago, pelo menos em determinados assuntos, nunca reviu nem actualizou a tradicional cassete, esquecendo, n\u00e3o sei se de prop\u00f3sito, por in\u00e9rcia ou por acinte, que tamb\u00e9m neste campo, sem mudar o essencial da f\u00e9 crist\u00e3, muitas coisas mudaram. Actualizar conceitos, aprofundar conhecimentos, rever crit\u00e9rios de discernimento cr\u00edtico \u00e9 pr\u00f3prio de pessoas intelectualmente honestas, que, enquanto vivas, n\u00e3o d\u00e3o por completado, em nenhum aspecto, o seu saber.<\/p>\n<p>Um pr\u00e9mio Nobel, qualquer que seja o campo em que foi galardoado, n\u00e3o \u00e9, por esse motivo, um po\u00e7o sem fundo nem de ci\u00eancia e, muito menos, de sabedoria, em todos os ramos da cultura. Nesse logro correu h\u00e1 s\u00e9culos um \u201cs\u00e1bio\u201d, Pico de Mirandola, quando se afirmou detentor de todo o saber humano de ent\u00e3o. Hoje cita-se e recorda-se como se de um louco se tratasse..<\/p>\n<p> De p\u00e9 continua a velha senten\u00e7a do s\u00e1bio hel\u00e9nico, pr\u00f3pria dos verdadeiros s\u00e1bios, sempre humildes perante o universo inesgot\u00e1vel do saber humano: \u201cS\u00f3 sei que nada sei\u201d.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Saramago, nada consciente das suas limita\u00e7\u00f5es, desfralda, mais uma vez, a velha bandeira, eivada de preconceitos, de uma Igreja retr\u00f3grada e intolerante, prisioneira do conc\u00edlio de Trento, agora obcecada com o corpo das pessoas e a pretender control\u00e1-lo. E sentencia, sem apelo, que se alguma coisa ela tem a dizer o \u201cfa\u00e7a no plano da salva\u00e7\u00e3o das almas e deixe o corpo em paz\u201d.<\/p>\n<p>Tal senten\u00e7a para um qualquer romancista, que, pela sua profiss\u00e3o, se espera seja sempre um humanista, \u00e9, no m\u00ednimo, preocupante pela pobreza antropol\u00f3gica que denuncia e pelo vazio cultural que comporta. J\u00e1 nem falo da mensagem da Igreja, que ele certamente desconhece. De h\u00e1 muito que ela ensina que a alma, durante a vida terrena da pessoa, n\u00e3o \u00e9 uma entidade separada do corpo.<\/p>\n<p>Diz noutro lugar Saramago que \u201ca Europa n\u00e3o deve ser um clube religioso centrado no cristianismo ou nas diversas religi\u00f5es que est\u00e3o representadas no continente e que t\u00eam seu peso\u201d. N\u00e3o deve ser, nem se pretende que seja. Apenas se preocupa a Igreja e as diversas religi\u00f5es cred\u00edveis, para bem dos europeus, em avivar a mem\u00f3ria hist\u00f3rica, que alguns rasgaram, por ignor\u00e2ncia ou m\u00e1 f\u00e9. A Europa n\u00e3o se explica a si pr\u00f3pria por via dos limites geogr\u00e1ficos ou dos arranjos pol\u00edticos, sempre circunstanciais, mas pelo patrim\u00f3nio cultural que a animou, lhe deu corpo e rosto, lhe configurou a hist\u00f3ria e deu rumo ao seu des\u00edgnio e projectos. E tudo isto tem a ver com o cristianismo e n\u00e3o s\u00f3 com ele. Tudo isto hoje parece secund\u00e1rio para os intelectuais de pacotilha, que preferem desconhecer as ra\u00edzes culturais e destruir o que vem de tr\u00e1s, mormente se tem sinais de religioso ou sobretudo de crist\u00e3o, em vez de procurarem, numa linha de fidelidade cient\u00edfica, o modo de melhor servir as pessoas e o bem comum que as ajuda a ser e a manterem-se dignas e sem complexos. Sem respeito pela mem\u00f3ria, nunca haver\u00e1 futuro consistente.<\/p>\n<p>O projecto europeu n\u00e3o come\u00e7ou com o sonho de Lenine, nem acabou com a queda do muro de Berlim. N\u00e3o sobrevive \u00e0 custa de Bruxelas, nem vive ansioso por novos tratados que o justifiquem, onde quer que eles sejam datados. <\/p>\n<p>A Europa precisa de pessoas com dimens\u00e3o humana e hist\u00f3rica e com valores morais, capacitadas para assumir e integrar \u00eaxitos e fracassos de ontem e de hoje. O cristianismo, bem como outras confiss\u00f5es religiosas, porque deram alma \u00e0 Europa, para al\u00e9m das suas falhas e desvios, tributo pago ao tempo, est\u00e3o a\u00ed, como sempre estiveram, a lutar pela Europa das pessoas, com poucos parceiros com igual preocupa\u00e7\u00e3o. As pessoas s\u00e3o a sua indispens\u00e1vel riqueza, o seu verdadeiro patrim\u00f3nio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Li, com interesse e sem especiais preconceitos, a entrevista de Jos\u00e9 Saramago ao DN (5.7.2007). Deixo a outros, que j\u00e1 come\u00e7aram a fazer os seus coment\u00e1rios e v\u00e3o continuar por certo, os aspectos opin\u00e1veis de ordem nacional e pol\u00edtica, para me fixar apenas nos religiosos, a que dogmaticamente o escritor se referiu. 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