{"id":10340,"date":"2007-08-01T17:57:00","date_gmt":"2007-08-01T17:57:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=10340"},"modified":"2007-08-01T17:57:00","modified_gmt":"2007-08-01T17:57:00","slug":"superficialidade-cheia-de-vazio-ou-de-nada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/superficialidade-cheia-de-vazio-ou-de-nada\/","title":{"rendered":"Superficialidade cheia de vazio ou de nada"},"content":{"rendered":"<p>De h\u00e1 muito que me impressiona que muitos estudantes terminem o secund\u00e1rio e mesmo o superior sem que tenham adquirido qualquer h\u00e1bito de leitura, vontade de saber mais e alegria pelo que j\u00e1 conseguiram. Uma prova imediata desta pobreza e vacuidade \u00e9 o estilo tradicional das festas de finalistas e a onda de des\u00e2nimo perante dificuldades normais, se estas surgem. Por aqui se v\u00ea onde chegou o grau de cultura, aquisi\u00e7\u00e3o de saber e capacidade de ser de muita gente que encheu escolas durante anos.<\/p>\n<p>N\u00e3o se estuda para saber, para participar criteriosamente da riqueza do patrim\u00f3nio cultural da humanidade, para produzir nova cultura, atrav\u00e9s de uma participa\u00e7\u00e3o, v\u00e1lida e s\u00e9ria, na vida social, para satisfa\u00e7\u00e3o interior. O horizonte era pequeno e assim ficou, por certo, passados os anos. Basta um emprego que n\u00e3o demore, onde se ganhe bem e n\u00e3o se tenha muito trabalho, o resto \u00e9 para intelectuais, investigadores e diletantes, porque os livros n\u00e3o d\u00e3o p\u00e3o.  <\/p>\n<p>Quando emerge algum jovem que, dentro ou fora do pa\u00eds, \u00e9 reconhecido pelo seu saber, os jornais falam como se se tratasse de coisa rara, porque de facto o \u00e9. O que devia ser  normal, segundo os talentos de cada um, tornou-se uma coisa extraordin\u00e1ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, nunca houve tantos licenciados, mestres e doutores. Um benef\u00edcio de assinalar, fruto da leg\u00edtima democratiza\u00e7\u00e3o do ensino e de uma exig\u00eancia ineg\u00e1vel dos novos mercados de trabalho, que exigem cada dia mais qualifica\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>A cultura, por si e para muitos, n\u00e3o justifica tanto trabalho e, quando o emprego n\u00e3o est\u00e1 logo ali \u00e0 porta de escola, lamenta-se ter  um curso para nada, culpa-se o Estado que ningu\u00e9m quer como patr\u00e3o, mas \u00e9 com isso, no fundo, que se sonha. Tudo como se a longa aprendizagem, reconhecida por um diploma, n\u00e3o capacitasse, tamb\u00e9m, para deitar m\u00e3os \u00e0 vida, saltar o muro das dificuldades, ser criativo e inovador e construir caminhos novos, que at\u00e9 podem ser reconhecidamente merit\u00f3rios, para o pr\u00f3prio e para outros.<\/p>\n<p>Alguns jovens, que n\u00e3o se resignam nem esperam que os outros continuem a fazer tudo eles, v\u00e3o j\u00e1 fazendo hist\u00f3ria. A instru\u00e7\u00e3o \u00e9, tamb\u00e9m, uma enxada para a vida, embora muitos pais digam que querem que os filhos estudem para se livrarem da enxada\u2026<\/p>\n<p>Se o ideal \u00e9 ganhar muito, depressa e com pouco trabalho \u00e0 vista, nem todos nasceram g\u00e9nios do futebol, nem privilegiados do euromilh\u00f5es e ter\u00e3o de se decidir palmilhar os caminhos normais da vida, porque a sorte contempla os audazes, n\u00e3o os desanimados.<\/p>\n<p>Toda esta epidemia de gente amarga, pelo que tem e pelo que n\u00e3o tem, se pode reportar a causas conhecidas. A escola \u00e9 para muitos um mal menor e o importante \u00e9 passar, porque assim o exigem as estat\u00edsticas do estado e da Europa; muitos professores, desmotivados por raz\u00f5es m\u00faltiplas, perderam o entusiasmo e acham que o seu dever n\u00e3o \u00e9 educar e dar um contributo, ao lado de outros, para capacitar o aluno para uma vida, nem sempre f\u00e1cil, mas que pode ser sempre realizada e feliz; os projectos educativos s\u00e3o muitas vezes castradores de horizontes com ra\u00edzes e raz\u00f5es; a fam\u00edlia, inst\u00e2ncia educativa fundamental n\u00e3o consegue situar-se numa sociedade sem valores e sem rumo; a comunica\u00e7\u00e3o social enfeudou-se \u00e0s audi\u00eancias e a elas subordina tudo o resto; as for\u00e7as morais, importantes na sanidade do pa\u00eds e futuro dos jovens, s\u00e3o desacreditadas a torto e a direito; o estado empobrece os ideais por via das medidas que implementa; a sociedade globalizada muda cada dia e comporta desafios a que n\u00e3o se atende\u2026<\/p>\n<p>O futebol volta. A pol\u00edtica volta \u00e0 ribalta, sem prest\u00edgio. A literatura do vazio vende-se cada vez mais. As f\u00e9rias a\u00ed est\u00e3o e coisas s\u00e9rias n\u00e3o t\u00eam agora lugar\u2026 Amanh\u00e3 as escolas abrem e o importante \u00e9 ter lugar e tudo comece sem demoras nem sobressaltos. A carga frustrante de hoje n\u00e3o se alija assim sem mais nem menos. A escola est\u00e1 doente e os problemas da educa\u00e7\u00e3o, embora gerais, t\u00eam consequ\u00eancias graves e imprevistas.<\/p>\n<p>A vida ser\u00e1 isto e s\u00f3 isto? \u00c9 a pobreza de um pragmatismo, sem ideias nem sentido, que nos empurra para aqui. E neste horizonte fechado n\u00e3o se v\u00ea sinal de luz nem de esperan\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De h\u00e1 muito que me impressiona que muitos estudantes terminem o secund\u00e1rio e mesmo o superior sem que tenham adquirido qualquer h\u00e1bito de leitura, vontade de saber mais e alegria pelo que j\u00e1 conseguiram. 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