{"id":10386,"date":"2007-08-29T14:40:00","date_gmt":"2007-08-29T14:40:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=10386"},"modified":"2007-08-29T14:40:00","modified_gmt":"2007-08-29T14:40:00","slug":"clandestino-ilegal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/clandestino-ilegal\/","title":{"rendered":"Clandestino, Ilegal"},"content":{"rendered":"<p>Direitos Humanos <!--more--> \u201cPa\u2019 una ciudad del norte<\/p>\n<p>Yo me fui a trabajar<\/p>\n<p>Mi vida la dej\u00e9<\/p>\n<p>Entre Ceuta y Gibraltar\u201d<\/p>\n<p>Manu Chao <\/p>\n<p>Estou em pleno tempo de f\u00e9rias. Caminhadas, passeios de bicicleta, algumas leituras ao som de outras m\u00fasicas\u2026 enfim, acho que me deixei levar pelo \u201cdolce fare niente\u201d. Sentei-me um pouco em frente \u00e0 televis\u00e3o. Finalmente teria hip\u00f3tese de assistir, no hor\u00e1rio agendado, ao programa \u201cSolid\u00e1rios\u201d, que semanalmente destaca o trabalho das v\u00e1rias ONGs que actuam na Andaluzia espanhola\u2026 <\/p>\n<p>\u2026 E ent\u00e3o come\u00e7o a acordar! Hoje o programa trata sobre a situa\u00e7\u00e3o no litoral andaluz. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 um destaque sobre as movimentadas praias da Costa del Sol, antes \u00e9 mais uma descri\u00e7\u00e3o vivida do drama dos imigrantes que tentam chegar, clandestinamente, ao \u201cel dorado\u201d que \u00e9 a Espanha, sonho da t\u00e3o desejada \u201cvida melhor\u201d e, quem sabe, porta para a \u201cterra das oportunidades\u201d que \u00e9 a Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p>\u00c0 banda sonora da reportagem n\u00e3o lhe falta sequer a m\u00fasica \u201cCladestino\u201d de Manu Ch\u00e3o, voz musical do movimento \u201calter-globaliza\u00e7\u00e3o\u201d e presen\u00e7a regular em alguns dos nossos medi\u00e1ticos festivais de Ver\u00e3o. Mas o que aqui se descreve, longe dos alienantes ritmos estivais, \u00e9 a dura realidade de quem deixa a vida \u201centre Ceuta e Gibraltar\u201d. Paradigma, ali\u00e1s, de tantos outros dramas que t\u00eam por origem o Norte de \u00c1frica ou ainda a mais long\u00ednqua \u00c1frica subsariana e que terminam nas costas espanholas do Mediterr\u00e2neo, de Val\u00eancia a Algeciras, ou quem sabe ao largo das Ilhas Can\u00e1rias. Tudo isto na melhor das hip\u00f3teses, uma vez que outros n\u00e3o t\u00eam a mesma sorte e acabam por morrer no mar, v\u00edtimas de naufr\u00e1gios, de doen\u00e7as ou da t\u00e3o temida desidrata\u00e7\u00e3o. S\u00f3 no primeiro semestre de 2007, as estimativas oficiais lan\u00e7am o n\u00famero para cima de 10 mil dos imigrantes clandestinos que j\u00e1 tentaram a travessia! <\/p>\n<p>Perante estes dados, acordo definitivamente. Sabia que o problema era grave, s\u00f3 n\u00e3o imaginava que tivesse estas propor\u00e7\u00f5es. E, contudo, o governo espanhol diz que desde o ano passado a \u201ccoopera\u00e7\u00e3o com as autoridades do Magreb\u201d conseguiu reduzir para menos de 1\/3 aqueles dados! <\/p>\n<p>S\u00e3o n\u00fameros que se contam aos milhares; por\u00e9m o programa alerta que h\u00e1 que contar ainda com as centenas que tentam a sorte por terra, saltando a veda\u00e7\u00e3o de arame farpado que marca a fronteira entre Marrocos e a cidade de Melilla, autonomia espanhola em solo africano. <\/p>\n<p>Em qualquer dos casos, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o admirar o not\u00e1vel trabalho de entidades n\u00e3o-governamentais, com especial destaque para a Cruz Vermelha espanhola. A elas cabe a tarefa de acolher os que chegam, verificar a sua sa\u00fade, curar as feridas ou, em in\u00fameros casos, constatar os \u00f3bitos e enterrar os mortos. Seguidamente, os imigrantes s\u00e3o entregues \u00e0s autoridades policiais que os encerram em centros de abrigo onde t\u00eam acesso a banho, comida, roupa, cama e nos quais ficam de quarentena. Finalizados esses 40 dias, a ordem de extradi\u00e7\u00e3o \u00e9 emitida. Aqui come\u00e7a um novo desafio: repatriar os imigrantes. Sem pap\u00e9is, sem documentos que indiquem a origem dos imigrantes, fica dif\u00edcil saber para onde \u00e9 que eles dever\u00e3o ser expulsos. E a crueldade da situa\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 maior quando se trata dos imigrantes subsarianos que chegam \u00e0s Can\u00e1rias. Viajam em \u201ccayucos\u201d ou \u201cpateras\u201d \u2013 pequenas embarca\u00e7\u00f5es t\u00edpicas africanas \u2013 apinhadas de sem-pap\u00e9is, a maioria dos quais nem sequer fala a mesma l\u00edngua. Muitos foram \u201cenfiados\u201d em barca\u00e7as, nas praias da Maurit\u00e2nia, contudo podem ser oriundos n\u00e3o s\u00f3 desse pa\u00eds, como tamb\u00e9m do Senegal, da Gambia, do Mali ou at\u00e9 das duas Guin\u00e9! Repatriados para a Maurit\u00e2nia, as autoridades de Nouakchott recusam-se a receb\u00ea-los alegando que grande parte deles \u201cn\u00e3o s\u00e3o cidad\u00e3os mauritanos\u201d. Ent\u00e3o, recome\u00e7a o ciclo. Ap\u00e1tridas, fogem e ficam clandestinos at\u00e9 conseguirem de novo dinheiro para pagarem aos passadores e se aventurarem, novamente no mar, onde uns vir\u00e3o, eventualmente, a morrer, num calv\u00e1rio que n\u00e3o parece ter fim\u2026<\/p>\n<p>Termina o programa de TV. Estou em f\u00e9rias, acho que n\u00e3o me vou alongar em reflex\u00f5es sobre as causas de tudo isto. Iria demorar-me a pensar numa Europa Ocidental que se entricheira, qual fortaleza, a cada dia, quando o grande problema reside no sistema econ\u00f3mico excludente, do qual ela \u00e9 uma das mais ac\u00e9rrimas defensoras e que empobrece, cada vez mais, os pa\u00edses pobres.<\/p>\n<p>N\u00e3o continuo\u2026 assim mesmo, acho que vou ter dificuldade em adormecer. Mas ainda bem! Porque, mesmo em f\u00e9rias, h\u00e1 hist\u00f3rias que n\u00e3o nos podem deixar dormir descansados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Direitos Humanos<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-10386","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10386","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10386"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10386\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10386"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10386"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10386"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}