{"id":10551,"date":"2007-10-04T15:22:00","date_gmt":"2007-10-04T15:22:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=10551"},"modified":"2007-10-04T15:22:00","modified_gmt":"2007-10-04T15:22:00","slug":"miopia-legal-e-laicismo-intolerante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/miopia-legal-e-laicismo-intolerante\/","title":{"rendered":"Miopia legal e laicismo intolerante"},"content":{"rendered":"<p>Foi publicamente denunciada a proposta de regulamenta\u00e7\u00e3o da lei da assist\u00eancia religiosa nos hospitais do Estado, apresentada pelo Governo. Segundo consta, o capel\u00e3o s\u00f3 poder\u00e1 aproximar-se dos doentes que, por escrito e com a devida assinatura, solicitem a sua presen\u00e7a. Isto \u00e9 inacredit\u00e1vel, por maior que seja a raz\u00e3o de tal proposta e o medo de que n\u00e3o sejam respeitados nas suas convic\u00e7\u00f5es aqueles que sofrem.<\/p>\n<p>Fui durante dez anos capel\u00e3o de um sanat\u00f3rio do Estado. Mais de cem homens internados, todos eles oriundos dos distritos alentejanos, muitos j\u00e1 com os pulm\u00f5es desfeitos pela grave silicose produzida pela poeira das minas onde trabalharam at\u00e9 lhes ser poss\u00edvel. N\u00e3o sei se neste tempo algum descobriu o rosto de Deus e come\u00e7ou uma pr\u00e1tica religiosa que nunca tinha tido. Sei, por\u00e9m, que muitos experimentaram uma reconhecida for\u00e7a espiritual pelo calor da amizade que sempre lhes dediquei, quando me procuravam ou eu me aproximava para animar, dar conforto, ser uma presen\u00e7a amiga e familiar, muitos que a fam\u00edlia n\u00e3o podia visitar, pela dist\u00e2ncia e falta de recursos. Quantas cartas lidas e escritas, quantas confid\u00eancias libertadoras, quantos apelos para solucionar problemas, prevenir situa\u00e7\u00f5es, provocar reconcilia\u00e7\u00f5es\u2026 S\u00f3 quem est\u00e1 vazio de sentimentos fraternos, de afectos de humanidade e de solidariedade, s\u00f3 quem desconhece a realidade de quem sofre sem horizontes de cura, pode desvalorizar a for\u00e7a de uma palavra amiga, de uma visita gratuita por parte de quem n\u00e3o era fam\u00edlia de sangue, nem rosto conhecido. S\u00f3 quem nunca sentiu a comunica\u00e7\u00e3o silenciosa de um gesto respeitoso, quando o sil\u00eancio diz mais que as palavras, pode pensar que basta que o capel\u00e3o do hospital seja como um bombeiro de servi\u00e7o, \u00e0 espera do pedido por escrito e assinado, para se poder aproximar da cama do doente. Para os laicistas associados at\u00e9 isto \u00e9 de mais, porque para eles o lugar do capel\u00e3o \u00e9 a rua. <\/p>\n<p>\u00c9 a velha miopia moral de quem s\u00f3 enxerga at\u00e9 onde os olhos chegam. \u00c9 o preconceito de quem v\u00ea na religi\u00e3o, qualquer que ela seja, um elemento delet\u00e9rio, que ter\u00e1 de se aguentar, devido ao atraso de um povo inculto. \u00c9 a pobreza de ideias e sentimentos de quem v\u00ea nos direitos humanos um favor generoso de quem governa. <\/p>\n<p>Sabia que entre n\u00f3s est\u00e3o empobrecendo os sentimentos e as express\u00f5es de humanidade, mas n\u00e3o sabia que este empobrecimento era desejado e programado. Os doentes, assim se pretende, devem ser respeitados, mas segundo o crivo da lei interpretada a rigor. Agora os servi\u00e7os p\u00fablicos determinam o envio acelerado de equipas de psic\u00f3logos para apoiar fam\u00edlias v\u00edtimas de calamidades, quando afectadas, e fazem algumas vezes o mesmo para apoiar doentes graves dos hospitais. Porque o Estado \u00e9 laico, padres longe e psic\u00f3logos perto. Prefere-se o raro ao permanente, o espalhafatoso ao discreto, a lei \u00e0 pessoa.<\/p>\n<p>Ao longo da vida, encontrei chefes militares a pedir que n\u00e3o tirem os capel\u00e3es \u00e0s for\u00e7as armadas, directores de hospitais e de pris\u00f5es a agradecer o trabalho extraordin\u00e1rio do capel\u00e3o, respons\u00e1veis de escolas a lamentar que a aula de moral esteja a ser desvalorizada pelo governo e direc\u00e7\u00f5es regionais, com preju\u00edzo para os alunos e para a comunidade educativa. Isto n\u00e3o significar\u00e1 nada para quem faz as leis e as regulamenta? <\/p>\n<p>\u00c9 preciso ouvir o povo, n\u00e3o apenas nas inaugura\u00e7\u00f5es com vivas, foguetes, presentes e placas com os dizeres que o ministro determina. H\u00e1 que sentir o pulsar da vida, compreender as preocupa\u00e7\u00f5es das pessoas, provocar a sua participa\u00e7\u00e3o no que lhes diz respeito. Foram acaso ouvidos os doentes, as fam\u00edlias, a gente dos hospitais? Quem serve n\u00e3o se pode dispensar desta tarefa. \u00c9 f\u00e1cil corrigir abusos, mas n\u00e3o tanto suprir as consequ\u00eancias de omiss\u00f5es, quando a pr\u00f3pria lei as favorece.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi publicamente denunciada a proposta de regulamenta\u00e7\u00e3o da lei da assist\u00eancia religiosa nos hospitais do Estado, apresentada pelo Governo. 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