{"id":1064,"date":"2010-03-24T18:01:00","date_gmt":"2010-03-24T18:01:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=1064"},"modified":"2010-03-24T18:01:00","modified_gmt":"2010-03-24T18:01:00","slug":"uma-angola-de-corrupcao-hospitalidade-e-oportunidades-na-mesma-dimensao-enormes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/uma-angola-de-corrupcao-hospitalidade-e-oportunidades-na-mesma-dimensao-enormes\/","title":{"rendered":"Uma Angola de corrup\u00e7\u00e3o, hospitalidade e oportunidades na mesma dimens\u00e3o: enormes"},"content":{"rendered":"<p>Testemunho <!--more--> Testemunho de um m\u00eas de voluntariado mission\u00e1rio em Angola. Zulay Costa, 31 anos, \u00e9 jornalista da Vagos FM e colaboradora do \u201cJornal de Not\u00edcias\u201d e de \u201cO Ponto\u201d<\/p>\n<p>Diz-me, quanto \u00e9 preciso o outro sofrer para deixarmos de ignorar e agir? Qu\u00e3o funda precisa ser a sua dor ou fome de alimento, paz ou justi\u00e7a, para irmos ao seu encontro? Qual a medida, qual o tempo?<\/p>\n<p>Em Angola, durante a experi\u00eancia de voluntariado mission\u00e1rio que realizei em Janeiro \u00faltimo, enviada pela diocese de Aveiro e ong-d ORBIS \u2013 Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento, confirmei o que j\u00e1 sentia e repetirei at\u00e9 que me ou\u00e7am: por ac\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o, todos somos respons\u00e1veis. Quem tem a possibilidade de fazer alguma coisa, tem o dever de fazer alguma coisa. Agora.<\/p>\n<p>A \u201cmiss\u00e3o\u201d n\u00e3o \u00e9 um ponto de chegada, n\u00e3o come\u00e7a quando partimos para Angola ou para qualquer outro lugar distante. Come\u00e7a dentro de n\u00f3s, quando deixamos de ser de n\u00f3s pr\u00f3prios para passarmos a estar ao servi\u00e7o dos nossos irm\u00e3os que sofrem, seja noutro continente, seja ao virar da esquina ou at\u00e9 dentro de casa.<\/p>\n<p>\u00c9 uma viagem sem regresso, esta e a de Angola, porque tudo o que vivemos e todos os que conhecemos est\u00e3o connosco, se os deixarmos tocar-nos.<\/p>\n<p>E n\u00e3o sei quem precisar\u00e1 de mais ajuda. Quem deixei l\u00e1 tr\u00e1s, com car\u00eancia de forma\u00e7\u00e3o, cuidados m\u00e9dicos, alimenta\u00e7\u00e3o, bens materiais; se aqueles para quem voltei, a quem faltam valores de solidariedade, inter-ajuda, determina\u00e7\u00e3o para lutar em prol do bem comum e at\u00e9 capacidade de perdoar. Qual de n\u00f3s o mais pobre\u2026<\/p>\n<p>Chegar<\/p>\n<p>\u00c0 chegada a Angola, uma baforada de ar quente envolve-me e perpetua-se. O pa\u00eds que conheci \u00e9 sufocante, ca\u00f3tico, cheio de desequil\u00edbrios, de lixo, de carros que se espremem em ruas de alcatr\u00e3o inacabadas na capital ou caminhos de p\u00f3 vermelho. Uma Angola que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 de guerra mas ainda n\u00e3o \u00e9 de paz, da reconstru\u00e7\u00e3o feita a pulso e, infelizmente, muitas vezes sem coer\u00eancia ou com prioridades invertidas. Um pa\u00eds desenvolvido e rico que vive paredes meias com uma pobreza enorme. \u00c9 feita de crian\u00e7as que carregam crian\u00e7as e se juntam em orat\u00f3rios, de jovens que vivem nas ruas e lutam por mudar\u2026 Uma Angola de corrup\u00e7\u00e3o, hospitalidade e oportunidades na mesma dimens\u00e3o: enormes.<\/p>\n<p>Estar<\/p>\n<p>Em Angola, a juventude sobressai. Mas o seu futuro depende de todos n\u00f3s. Na Lixeira, um bairro na periferia de Luanda, os limites entre o bem e o mal, a doen\u00e7a e a sa\u00fade, s\u00e3o t\u00e9nues.<\/p>\n<p>O percurso at\u00e9 \u00e0s Mabubas, onde eu, outros volunt\u00e1rios e seminaristas salesianos fomos fazer orat\u00f3rio (actividades para evangelizar e animar crian\u00e7as que est\u00e3o na rua), ficou-me gravado e ainda hoje posso percorr\u00ea-lo se fechar os olhos.<\/p>\n<p>Volto \u00e0 Lixeira: crian\u00e7as sujas cuidam de outras crian\u00e7as no meio da imundice, h\u00e1 caminhos de terra vermelha e lama, mosquitos e moscas sobrevoando montes de lixo, fezes e restos de comida putrefacta pelo ch\u00e3o. De permeio, centenas de casas, feitas de cimento e chapa, descem socalcos. Algumas n\u00e3o t\u00eam porta ou janelas. Caminho, caminho, caminho, caminho e nunca mais acaba. Caminho em direc\u00e7\u00e3o \u00e0s Mabubas, nas profundezas da Lixeira. A mis\u00e9ria n\u00e3o tem fim. Impressiona. Cruzamos a linha de comboio. Mais sujidade, um cheiro nauseabundo est\u00e1 em todo o lado.<\/p>\n<p>E gente, gente, gente que tamb\u00e9m parece n\u00e3o mais acabar. Esta \u00e9 a Lixeira. Dura. Suja. Injusta. Insegura.<\/p>\n<p>Para milhares, este n\u00e3o \u00e9 um local de passagem. \u00c9 a sua vida, a sua casa. Custa chamar-lhe casa, quando sei que h\u00e1 t\u00e3o melhor no mundo. N\u00e3o sei como n\u00e3o chamar-lhe isso, pois muitos n\u00e3o conhecem outra realidade, n\u00e3o t\u00eam mais nada.<\/p>\n<p>A pobreza debaixo dos meus p\u00e9s, a toda a volta e at\u00e9 nos meus bra\u00e7os, quando segurei um beb\u00e9, d\u00f3i. Pouco depois de chegar \u00e0s Mabubas, uma crian\u00e7a que disse ter seis anos passou-me para os bra\u00e7os a irm\u00e3 de apenas um ano, que estava a cuidar. Queria ir saltar \u00e0 corda e ser verdadeiramente crian\u00e7a, por breves instantes. D\u00f3i muito.<\/p>\n<p>A inseguran\u00e7a \u00e9 enorme. E eu at\u00e9 poderia ter tido medo, se n\u00e3o estivesse t\u00e3o assombrada com as imagens que me entravam pelos olhos dentro e se n\u00e3o acumulasse um cansa\u00e7o t\u00e3o profundo. N\u00e3o \u00e9 o f\u00edsico, de n\u00e3o dormir. N\u00e3o \u00e9 um cansa\u00e7o derivado deste calor que me sufoca quase tanto como o p\u00f3. \u00c9 um cansa\u00e7o que se entranha nos poros, de ver esta mis\u00e9ria t\u00e3o grande e esta gente que no in\u00edcio parecia abandonada \u00e0 sua sorte.<\/p>\n<p>Na Lixeira h\u00e1 muitos ladr\u00f5es, mas h\u00e1 tamb\u00e9m homens e mulheres com f\u00e9 e crian\u00e7as com sonhos. Cedo percebi que esta gente n\u00e3o est\u00e1 abandonada. E a minha f\u00e9 cresceu. Todos deviam conhecer uma Lixeira um dia, talvez f\u00f4ssemos mais irm\u00e3os e solid\u00e1rios; perceberiam a urg\u00eancia de estar ao servi\u00e7o do outro. H\u00e1 padres, mission\u00e1rios e volunt\u00e1rios que escolheram livremente estar ao seu lado e trabalhar para que tenham uma vida mais digna. S\u00e3o os her\u00f3is do nosso tempo.<\/p>\n<p>Deus, cuida desta gente.<\/p>\n<p>Permanecer<\/p>\n<p>H\u00e1 perguntas \u00e0s quais n\u00e3o nos podemos furtar. Como seria eu, se tivesse nascido em \u00c1frica? Teria resistido \u00e0s doen\u00e7as, \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, \u00e0 viol\u00eancia? Como seria eu se tivesse carregado um irm\u00e3o \u00e0s costas desde os seis anos de idade? Se tivesse que percorrer quil\u00f3metros diariamente para conseguir \u00e1gua e transport\u00e1-la \u00e0 cabe\u00e7a num balde? Se n\u00e3o tivesse uma escola?<\/p>\n<p>Urge partilhar ferramentas e conhecimentos para que o desenvolvimento de popula\u00e7\u00f5es mais pobres seja s\u00f3lido.<\/p>\n<p>Urge tamb\u00e9m que os ditos pa\u00edses desenvolvidos aprendam com \u00c1frica o valor da partilha, a capacidade de resist\u00eancia e alegria na adversidade\u2026 Porque muitos n\u00e3o sucumbem \u00e0 marginaliza\u00e7\u00e3o aos problemas de \u00e1lcool, corrup\u00e7\u00e3o, drogas, prostitui\u00e7\u00e3o\u2026 Porque muitos resistem e me receberam de bra\u00e7os e sorrisos abertos, sem reservas ou exig\u00eancias, quando aterrei\u2026<\/p>\n<p>Urge que nos responsabilizemos, cada um de n\u00f3s, e fa\u00e7amos a nossa parte para equilibrar o mundo. Sim, porque ningu\u00e9m se pode furtar e lavar as m\u00e3os. Os nossos comportamentos, escolhas, a nossa capacidade de nos entregarmos ao outro e estender a m\u00e3o a quem vive numa \u2018lixeira\u2019 perto de n\u00f3s, t\u00eam valor e ajudam a construir um mundo mais justo e fraterno\u2026<\/p>\n<p>Na hora de apanhar o avi\u00e3o para Portugal, Mafalda Veiga cantava na minha cabe\u00e7a: \u201cE a vida n\u00e3o \u00e9 existir sem mais nada\/a vida n\u00e3o \u00e9 dia sim, dia n\u00e3o\/\u00c9 feita em cada entrega alucinada\/para receber daquilo que aumenta o cora\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>A miss\u00e3o n\u00e3o tem fim.<\/p>\n<p>Zulay Costa<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Testemunho<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-1064","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-destaque"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1064","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1064"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1064\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1064"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1064"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1064"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}