{"id":1066,"date":"2010-03-24T18:11:00","date_gmt":"2010-03-24T18:11:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=1066"},"modified":"2010-03-24T18:11:00","modified_gmt":"2010-03-24T18:11:00","slug":"eu-sonho-uma-igreja-outra-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/eu-sonho-uma-igreja-outra-1\/","title":{"rendered":"Eu sonho uma igreja outra (1)"},"content":{"rendered":"<p>Sonhar acordado um sonho grande e poss\u00edvel n\u00e3o \u00e9 esperar que as coisas aconte\u00e7am. \u00c9 lutar para que aconte\u00e7am. Pela dedica\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, que n\u00e3o s\u00f3 a dos outros. <\/p>\n<p>Nasci, fui catequizado e formado, ordenado padre e lan\u00e7ado na luta da vida pastoral, na Igreja pr\u00e9-conciliar. A mesma Igreja de Cristo, ontem e hoje, que amo como mediadora do projecto salvador do Pai. Porque o sonho \u00e9 meu, deixem-me falar de mim.<\/p>\n<p>Sei quanto esta Igreja sempre me ajudou e me ajuda, como m\u00e3e e mestra, por seus membros e pela sua hist\u00f3ria. Sei como me ensinou e estimula, como serva e pobre, a ser padre para todos, sem restri\u00e7\u00f5es, nem descontos, nem desencantos. <\/p>\n<p>Ao longo de anos, recebi li\u00e7\u00f5es de um tempo em que mais se sublinhavam as gl\u00f3rias do que se assumiam as culpas. Virei p\u00e1ginas sem conta, cheias de apologia e de apolog\u00e9tica. As sombrias e menos honrosas, mil argumentos as justificavam. Nasci, cresci e actuei, como filho da Igreja, sem ver nela m\u00e1cula que me doesse. Nela persisto, labuto, sonho. Ela \u00e9 meu meio de vida e ac\u00e7\u00e3o. \u00c9 o amor que lhe tenho me faz sonhar.<\/p>\n<p>A vida correu-me assim. Ainda com o eco dos c\u00e2nticos da missa nova, parti para Roma. Na Universidade, que se erguia \u00e0 sombra do Papa e onde n\u00e3o me faltaram mestres santos e s\u00e1bios, aprendi mais a justificar, que a reformar e a servir. Portas fora da escola, se procurei ajuda, por vezes encontrei arrog\u00e2ncia. Se procurei acolhimento, n\u00e3o raro me cobriram de exig\u00eancias que o n\u00e3o traduziam. O cora\u00e7\u00e3o moldava-se no meio de ajudas e recusas, de rostos que se fechavam e de outros que se abriam. Foi no tempo de \u201cMarcelino, p\u00e3o e vinho\u201d.O nome abria portas e sorrisos de simpatia. <\/p>\n<p>O primeiro encontro com o Papa, ent\u00e3o Pio XII, deixou-me atordoado. No fim, recordava as perguntas, n\u00e3o a l\u00edngua em que me perguntara. Um irm\u00e3o afectuoso que me falou da fam\u00edlia, do curso que frequentava, da alegria por estar em Roma. Um Pont\u00edfice, hirto e s\u00e9rio para a fotografia com o meu bispo, comigo, de joelhos a seus p\u00e9s, como me mandara o fot\u00f3grafo oficial, para poder entrar no retrato\u2026 Ainda mal respirava, vi o Papa sair, na sua grandeza, como se nada ali se tinha passado\u2026<\/p>\n<p>Roma era o retrato da Igreja universal, na sua express\u00e3o de grandeza, de poder e de saber. Por ali passava gente erudita e gente simples, movida pela mesma f\u00e9. Se Roma fosse s\u00f3 a sumptuosidade das celebra\u00e7\u00f5es, os discursos famosos do Papa, o curso universit\u00e1rio que me credenciava para \u201cser gente\u201d na minha terra, as mil coisas vistas e ouvidas que deslumbravam os mais viajados, tudo decorreria numa paz serena e ilustrada que, de consci\u00eancia pacificada, me traria de regresso \u00e0 P\u00e1tria, para ajudar o sistema a perdurar. <\/p>\n<p>Por\u00e9m, Roma era tamb\u00e9m pra\u00e7a onde j\u00e1 sopravam ventos fortes e desencontrados; a universidade, espa\u00e7o di\u00e1rio de conviv\u00eancia de muitas culturas; a d\u00e9cada de cinquenta, porta aberta a experi\u00eancias novas; a It\u00e1lia, uma jovem democracia, ponto de partida para muitas direc\u00e7\u00f5es. De Roma, vi o mundo tornar-se mais pequeno e os graves desafios e problemas, postos \u00e0 Igreja e \u00e0 sociedade. De l\u00e1 comecei a olhar Portugal e a minha diocese com outros olhos. L\u00e1 acordei para as contradi\u00e7\u00f5es que faziam sangue em muitos crentes e militantes do Reino, e para o agir dos instalados sentados \u00e0 mesa do poder, sempre cuidando por calar quem lhes trouxesse inc\u00f3modos. <\/p>\n<p>Em in\u00edcio de f\u00e9rias passei por Lyon para falar, mas em v\u00e3o, com o te\u00f3logo, Henri de Lubac; a\u00ed marquei encontro com Mons Ancel, o bispo oper\u00e1rio, que vi chegar do seu trabalho, de bicicleta e boina vasca; l\u00e1 passei horas com o Ab\u00e9e Celier, a tentar perceber os caminhos novos do catecumenato que renascia; vivi uma liturgia dominical renovada na par\u00f3quia de Saint Pothin; visitei, em Bruxelas, o Atomium, sinal de tempos novos e mudan\u00e7as impar\u00e1veis. E, ainda em Roma, informei-me sobre a reforma agr\u00e1ria que se processava e visitei o Ente Marema; fiz a Semana Santa na zona vermelha de Arezzo; acoplei ao curso de Direito, tudo o que pude de ci\u00eancias sociais, de servi\u00e7os na C\u00faria Romana, um curso de cinema na Civilt\u00e0 Cat\u00f3lica e de apostolado laical, na sede nacional da Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica. E n\u00e3o deixei de visitar obras de arte e exposi\u00e7\u00f5es, e de assistir a concertos inesquec\u00edveis\u2026 <\/p>\n<p>Eu n\u00e3o passava de aluno universit\u00e1rio interessado, de um padre novo, sonhador sem fronteiras, que tinha a gra\u00e7a de ter um bispo que me espica\u00e7ava sempre mais.  <\/p>\n<p>Com outros inquietos, sonhei, em Roma, uma Igreja renovada em Portugal.. Sonhar n\u00e3o era f\u00e1cil, nem c\u00f3modo. O projecto levava-nos longe. Amadureceu ao longo de tr\u00eas anos. Ao regressarmos, o eco encontrado, por cada um, foi diferente. Ficou a insatisfa\u00e7\u00e3o e o prop\u00f3sito de luta. Era preciso saber esperar. A vida ensinou-me que o tempo a acelera, quando o Reino de Deus urge.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos em 1958. Em Setembro, morreu Pio XII. Logo surgiu, inesperado, Jo\u00e3o XXIII. Meses depois, o Papa anunciou um Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico. Renasceu o sonho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sonhar acordado um sonho grande e poss\u00edvel n\u00e3o \u00e9 esperar que as coisas aconte\u00e7am. \u00c9 lutar para que aconte\u00e7am. Pela dedica\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, que n\u00e3o s\u00f3 a dos outros. Nasci, fui catequizado e formado, ordenado padre e lan\u00e7ado na luta da vida pastoral, na Igreja pr\u00e9-conciliar. 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