{"id":10709,"date":"2007-10-17T16:02:00","date_gmt":"2007-10-17T16:02:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=10709"},"modified":"2007-10-17T16:02:00","modified_gmt":"2007-10-17T16:02:00","slug":"o-professor-tem-de-assumir-o-papel-de-referencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/o-professor-tem-de-assumir-o-papel-de-referencia\/","title":{"rendered":"&#8220;O professor tem de assumir o papel de refer\u00eancia&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Mar\u00e7al Grilo, antigo ministro da Educa\u00e7\u00e3o e actual administrador da Funda\u00e7\u00e3o Gulbenkian, sempre atento \u00e0 realidade do ensino em Portugal, esteve no Centro Universit\u00e1rio F\u00e9 e Cultura, na noite de 10 de Outubro. Aqui ficam as suas opini\u00f5es e observa\u00e7\u00f5es sobre uma \u00e1rea que a todos diz respeito<\/p>\n<p>O bom e o pior<\/p>\n<p>No ensino, Portugal \u00e9 o pa\u00eds do bom e do pior. 60 por cento da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem a escolaridade obrigat\u00f3ria conclu\u00edda; em 1970, havia 29% de analfabetos; os alunos de 15 anos envergonham-nos nos testes do PISA (teste que compara os conhecimentos de alunos de v\u00e1rios pa\u00edses) \u2013 tudo indicadores muito negativos, quando nos comparamos com os pa\u00edses n\u00f3rdicos.<\/p>\n<p>Sinais positivos<\/p>\n<p>Por outro lado, h\u00e1 indicadores de grandes esperan\u00e7as. Cresce o n\u00famero de investigadores nas universidades portuguesas; aumenta o n\u00famero de doutorados, de 300 por ano na d\u00e9cada de 1990 para cerca de mil na actualidade; aumenta o n\u00famero de \u201cpapers\u201d (artigos cient\u00edficos) nas revistas da especialidade.<\/p>\n<p>Justifica\u00e7\u00e3o verdadeira?<\/p>\n<p>H\u00e1 uma tend\u00eancia para justificar os maus resultados do ensino com a origem social e o n\u00edvel econ\u00f3mico dos portugueses. Esses factores podem ter alguma influ\u00eancia, mas n\u00e3o justificam tudo. Al\u00e9m do mais, podem ser resolvidos pela ac\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Fam\u00edlia desistente<\/p>\n<p>H\u00e1 uma tentativa de atribuir \u00e0 escola o que ela n\u00e3o pode resolver. A fam\u00edlia \u00e9 a estrutura mais respons\u00e1vel pela educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as. A educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o funciona quando a fam\u00edlia desiste. Uma fam\u00edlia desistente \u00e9 diferente da desestruturada. Fam\u00edlia desistente \u00e9 aquela que abandona o filho na escola. Deixa-o \u00e0s 8 da manh\u00e3 e vai busc\u00e1-lo \u00e0s 21. S\u00f3 n\u00e3o vai \u00e0 meia-noite, porque n\u00e3o pode.<\/p>\n<p>Chave do sucesso<\/p>\n<p>Mas a chave do ensino est\u00e1 nos professores. Os pais n\u00e3o dirigem escolas, n\u00e3o d\u00e3o aulas. Transferir para as autarquias as escolas n\u00e3o resolve o problema. At\u00e9 pode piorar \u2013 na coloca\u00e7\u00e3o de professores, por exemplo. Acredito na escola como organiza\u00e7\u00e3o. Mas, de facto, as pessoas n\u00e3o est\u00e3o preparadas para responder como organiza\u00e7\u00e3o. Para isso, \u00e9 necess\u00e1rio uma lideran\u00e7a forte; um corpo docente est\u00e1vel; um projecto que tenha a ver com a comunidade em que a escola est\u00e1 inserida.<\/p>\n<p>Cultura televisiva<\/p>\n<p>H\u00e1 uma cultura que \u00e9 inimiga da escola. \u00c9 a cultura televisiva, daqueles que s\u00f3 falam de determinados assuntos, que est\u00e3o convencidos de que sabem porque viram. \u00c9 uma cultura superficial, ligeira, \u201csoft\u201d. \u00c9 devastadora, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 capacidade de reflectir e assumir responsabilidades de construir a perspectiva colectiva que desejamos. A popula\u00e7\u00e3o de cultura televisiva acha que as escolas s\u00e3o coisas tenebrosas. Um inqu\u00e9rito revelou que os pais que t\u00eam filhos na escola acham que elas s\u00e3o lugares seguros. Quem n\u00e3o tem acha que s\u00e3o lugares perigosos.<\/p>\n<p>A refer\u00eancia<\/p>\n<p>O professor \u00e9 uma refer\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 um mero funcion\u00e1rio p\u00fablico. \u00c9 uma refer\u00eancia profissional, cultural, moral, para o bem e para o mal. E tem de assumir esse papel de refer\u00eancia.<\/p>\n<p>Queixa cl\u00e1ssica<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o temos condi\u00e7\u00f5es\u201d, \u00e9 uma queixa cl\u00e1ssica no sector p\u00fablico. Traduz uma desresponsabiliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 um alibi. A pr\u00e1tica mostra o contr\u00e1rio. S\u00e3o os que t\u00eam menos condi\u00e7\u00f5es que s\u00e3o capazes de fazer melhor, quando os professores t\u00eam um sentido profissional agu\u00e7ado.<\/p>\n<p>Informa\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Nas universidade \u00e9 necess\u00e1rio pensar na forma\u00e7\u00e3o base, a \u201cgeneral education\u201d, transversal a todo o curso, os chamados \u201cvertical domains\u201d. As universidades podem dar muita informa\u00e7\u00e3o, mas pouca forma\u00e7\u00e3o. Isto tem de ser pensado.<\/p>\n<p>Financiamento<\/p>\n<p>Por muito que se queixem, as universidades v\u00e3o ter que viver com menos financiamento. As universidades est\u00e3o sempre a dizer que t\u00eam pouco dinheiro. \u00c9 o contr\u00e1rio do que deviam dizer. Deviam estar preparadas para ir buscar dinheiro, que atrav\u00e9s de \u201cfund raising\u201d (procura de financiamento no sector privado, o qual, como contrapartida, pode ser o primeiro destinat\u00e1rio da investiga\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria), quer atrav\u00e9s de \u201cpayback\u201d (d\u00e1divas dos antigos alunos), duas pr\u00e1ticas t\u00edpicas das universidades norte-americanas. As melhores entre estas s\u00e3o os exemplos a seguir.<\/p>\n<p>Universidade <\/p>\n<p>= gastar dinheiro?<\/p>\n<p>As universidades t\u00eam de mostrar a relev\u00e2ncia do que fazem. Na sociedade portuguesa h\u00e1 uma ideia muito vaga do que se faz na universidade. As pessoas est\u00e3o convencidas de que a universidade \u00e9 para gastar dinheiro. Os portugueses, normalmente, dizem mal da universidade que frequentaram. Os americanos, ficam muito reconhecidos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua universidade. T\u00eam orgulho na escola.<\/p>\n<p>Factores de sucesso<\/p>\n<p>Os cinco factores de sucesso de uma organiza\u00e7\u00e3o como a universidade s\u00e3o: vis\u00e3o; miss\u00e3o, lideran\u00e7a, compromisso e motiva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Avalia\u00e7\u00e3o e acredita\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>As universidades europeias t\u00eam de ser avaliadas por organismos cred\u00edveis e proceder a uma acredita\u00e7\u00e3o cruzada. Por outro lado, devem combater a tend\u00eancia corporativa, isto \u00e9, a perpetua\u00e7\u00e3o das pessoas num sistema fechado: entram aos 17 e saem aos 70 da mesma universidade.<\/p>\n<p>Multi, pluri, inter&#8230;<\/p>\n<p>A universidade tem dificuldade em lidar com problemas societais transversais, como as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas ou o combate \u00e0 pobreza. Onde \u00e9 que a pobreza se pensa? Na Sociologia? Na Economia? Nas Engenharias? Na Alimenta\u00e7\u00e3o? A universidade tem de se organizar para pensar nestes problemas. Tem de ter pluri, multi e interdisciplinaridade.<\/p>\n<p>Potenciar as redes<\/p>\n<p>Desde os anos 60 e 70 que existem redes entre universidades, essas com base em contactos pessoais. Hoje as redes t\u00eam de estar institucionalizadas e com objectivos definidos. Com redes, a Europa tem um po-tencial muito maior do que parece.<\/p>\n<p>Campus de Aveiro<\/p>\n<p>A Universidade de Aveiro soube crescer e, em termos arquitect\u00f3nicos, \u00e9 a grande refer\u00eancia da cidade. Este campus \u00e9 o \u00fanico verdadeiro campus universit\u00e1rio em Portugal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mar\u00e7al Grilo, antigo ministro da Educa\u00e7\u00e3o e actual administrador da Funda\u00e7\u00e3o Gulbenkian, sempre atento \u00e0 realidade do ensino em Portugal, esteve no Centro Universit\u00e1rio F\u00e9 e Cultura, na noite de 10 de Outubro. 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