{"id":10761,"date":"2007-10-25T15:25:00","date_gmt":"2007-10-25T15:25:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=10761"},"modified":"2007-10-25T15:25:00","modified_gmt":"2007-10-25T15:25:00","slug":"medos-e-perplexidade-dos-mais-idosos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/medos-e-perplexidade-dos-mais-idosos\/","title":{"rendered":"Medos e perplexidade dos mais idosos"},"content":{"rendered":"<p>Como cuidadosa prepara\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica, em ordem a um clima prop\u00edcio \u00e0 aceita\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia, tal como j\u00e1 aconteceu em rela\u00e7\u00e3o ao aborto, deu-se grande visibilidade a um inqu\u00e9rito nacional feito a idosos internados em lares diversos. N\u00e3o faltaram opini\u00f5es variadas a fazer a leitura do resultado e t\u00edtulos tendenciosos a orientar para conclus\u00f5es. J\u00e1 estamos habituados.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o pessoal e social dos mais idosos \u00e9 talvez o problema mais preocupante e grave a que assistimos hoje. Cresce o n\u00famero dos que n\u00e3o t\u00eam lugar na casa que constru\u00edram com muito amor e sacrif\u00edcio, e que hoje \u00e9 casa de filhos, demasiadamente ocupados para poderem ser sens\u00edveis; cresce o n\u00famero de fam\u00edlias desestruturadas  para as quais o idoso se tornou um intruso inc\u00f3modo; \u00e9 dif\u00edcil a situa\u00e7\u00e3o de muitas fam\u00edlias em que o casal trabalha fora, vive em casa ex\u00edgua e rendimento reduzido e leva, ainda e diariamente, o cuidado de um idoso querido que tem consigo e dos filhos que come\u00e7a a distribuir, por institui\u00e7\u00f5es adequadas, ainda o sol vem longe; s\u00e3o muitos os idosos que vivem nos meios rurais com filhos emigrados no estrangeiro ou, embora c\u00e1 dentro, a quil\u00f3metros de dist\u00e2ncia; n\u00e3o faltam idosos isolados, de quando em quando roubados e espancados, sem se ver como proteg\u00ea-los. O tempo de vida alargou-se, mas a vida de um idoso, ainda que em condi\u00e7\u00f5es regulares de sa\u00fade e de conforto, tem exig\u00eancias m\u00faltiplas, nem sempre com resposta f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Por outro lado, surgem, por todo o lado, iniciativas que minimizem as car\u00eancias e d\u00eaem alguma satisfa\u00e7\u00e3o \u00e0s situa\u00e7\u00f5es existentes: casais que regressam \u00e0 terra para cuidar dos seus idosos; estruturas regulares de apoio a partir de institui\u00e7\u00f5es de solidariedade, como lares, centros de dia, apoio domicili\u00e1rio, acolhimento nocturno, centros de conv\u00edvio; est\u00edmulos do Estado, traduzidos, por exemplo, em pens\u00f5es sociais e desconto em medicamentos; s\u00e3o m\u00faltiplas as actividades de lazer, passeios tur\u00edsticos, f\u00e9rias em zonas adequadas; preparam-se profissionais e volunt\u00e1rios para tratar idosos e lidar com eles; h\u00e1 literatura diversa a chamar a aten\u00e7\u00e3o para os idosos e seus problemas e at\u00e9 meios organizados para aproveitar e valorizar as suas qualidades e capacidades. As situa\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito diversas; e aquilo de que uns podem beneficiar, outros desconhecem-no.<\/p>\n<p>Para todos, a fam\u00edlia, quando a t\u00eam, e o amor que dela se espera, porque a ele se tem direito, \u00e9 e ser\u00e1 sempre o maior e o mais indispens\u00e1vel apoio e est\u00edmulo ao viver de um idoso. Ningu\u00e9m pode viver sem amor. S\u00f3 pensa na morte, dela fala e a deseja, quem n\u00e3o se sente amado. Todos os outros meios, mesmo os mais v\u00e1lidos, ou t\u00eam o tempero do amor ou perdem, a pouco e pouco, o seu sentido e valor. Assim o inqu\u00e9rito o revela.<\/p>\n<p>\u00c9 uma preocupa\u00e7\u00e3o lament\u00e1vel a de muitos filhos, sem preocupa\u00e7\u00e3o de procurar a melhor solu\u00e7\u00e3o, tentarem internar os seus idosos em lares. Por isso h\u00e1 nestes listas de espera por todo o lado. Para muitos destes filhos, idoso internado \u00e9, depois, idoso pouco ou nada lembrado e visitado. E isto \u00e9 o que mais d\u00f3i a um idoso, arrumado e esquecido. S\u00f3 o desabafa com quem confia, mina-lhe por dentro a alegria e a vontade de viver, tem a sensa\u00e7\u00e3o de indesejado, a vida perdeu o sentido e, no horizonte, s\u00f3 a morte aparece.    <\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o para estes casos, que infelizmente aumentam, n\u00e3o \u00e9 a eutan\u00e1sia, mas a humaniza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es familiares; o avivar da consci\u00eancia dos filhos, que tamb\u00e9m s\u00e3o pais e t\u00eam, em rela\u00e7\u00e3o aos seus idosos, uma d\u00edvida nunca paga; o fomento da solidariedade comunit\u00e1ria, que se torna fam\u00edlia dos que a n\u00e3o t\u00eam; a preocupa\u00e7\u00e3o dos lares serem lares de fam\u00edlia com a fam\u00edlia, e n\u00e3o armaz\u00e9ns de quantos mais melhor\u2026<\/p>\n<p>A casa onde viveu, ainda que pobre, \u00e9 a que o idoso, em situa\u00e7\u00e3o normal, sempre preferir\u00e1. Haja amor de quem o pode e deve dar e os idosos manifestar\u00e3o a sua verdade. Todos, no seu ju\u00edzo, preferem a alegria de viver, \u00e0 pressa de morrer. Todos preferem, a seu lado, quem os ame e lhes prolongue a vida, a quem, an\u00f3nimo, lhes apresse a morte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como cuidadosa prepara\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica, em ordem a um clima prop\u00edcio \u00e0 aceita\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia, tal como j\u00e1 aconteceu em rela\u00e7\u00e3o ao aborto, deu-se grande visibilidade a um inqu\u00e9rito nacional feito a idosos internados em lares diversos. N\u00e3o faltaram opini\u00f5es variadas a fazer a leitura do resultado e t\u00edtulos tendenciosos a orientar para conclus\u00f5es. 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