{"id":10867,"date":"2007-11-08T11:50:00","date_gmt":"2007-11-08T11:50:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=10867"},"modified":"2007-11-08T11:50:00","modified_gmt":"2007-11-08T11:50:00","slug":"portal-de-zaqueu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/portal-de-zaqueu\/","title":{"rendered":"Portal de Zaqueu"},"content":{"rendered":"<p>A cena ocorre em Jeric\u00f3, cidade relativamente rica e pr\u00f3xima de Jerusal\u00e9m. Jesus com o seu grupo est\u00e1 de passagem. O coment\u00e1rio corre veloz, dando origem a um certo alvoro\u00e7o popular. A curiosidade apodera-se dos habitantes. Querem ver o acontecimento. Tamb\u00e9m Zaqueu, homem rico e influente, se sente \u201ctocado\u201d e n\u00e3o resiste: corre para ganhar dist\u00e2ncia, sobe a uma \u00e1rvore, observa a movimenta\u00e7\u00e3o dos caminhantes e fixa-se, sobretudo, em Jesus de Nazar\u00e9. H\u00e1 nele um impulso irresist\u00edvel: A curiosidade faz-se expectativa e esta abre horizontes \u00e0 esperan\u00e7a. <\/p>\n<p>Jesus acompanha os movimen-tos de Zaqueu e capta os seus sentimentos. Por isso, toma uma iniciativa ousada e faz-se seu convidado. Quer ficar em sua casa, ser seu h\u00f3spede, sentar-se \u00e0 sua mesa, partilhar a sua intimidade, acolher as suas preocupa\u00e7\u00f5es. E f\u00e1-lo com tal mestria que o di\u00e1logo provoca uma altera\u00e7\u00e3o completa na vida do chefe dos publicanos da cidade. <\/p>\n<p>Zaqueu, dando largas \u00e0 sua alegria, p\u00f5e-se de p\u00e9 e, com a maior das simplicidades, abre o cora\u00e7\u00e3o e exclama: Vou redistribuir os meus bens. Aos pobres darei metade do que possuo e, a quem defraudei, restituirei quatro vezes mais. Jesus aprova decis\u00e3o t\u00e3o generosa e garante, com not\u00e1vel firmeza, que a salva\u00e7\u00e3o havia entrado em casa de Zaqueu.<\/p>\n<p>A sobriedade deste epis\u00f3dio oferece-nos a riqueza do seu sentido, constituindo uma esp\u00e9cie de \u201cportal\u201d onde se visualiza uma compreens\u00e3o integral do ser humano e das suas m\u00faltiplas rela\u00e7\u00f5es. Dela resulta uma antropologia que d\u00e1 consis-t\u00eancia e abre horizontes \u00e0s antropologias de todos os tempos, sobretudo actuais. <\/p>\n<p>O ser humano \u00e9 \u201chabitado\u201d por uma apet\u00eancia divina e sente-se chamado a ir ao seu encontro, a busc\u00e1-la sem temer coment\u00e1rios nem reac\u00e7\u00f5es caricatas. N\u00e3o lhe basta a satisfa\u00e7\u00e3o ef\u00e9mera, ainda que necess\u00e1ria. Anseia sempre mais. A medida do seu cora\u00e7\u00e3o \u00e9 a da Infinito que, em Jesus de Nazar\u00e9, se revela em plenitude. \u00c9 a Ele que se entrega em alian\u00e7a de amor que, na terra, se celebra em gestos e sinais, e na eternidade se contempla e vive sem qualquer restri\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>A esta luz, como s\u00e3o redutoras as perspectivas de correntes culturais como o relativismo, o subjectivismo, o materialismo, o hedonismo.<\/p>\n<p>Do encontro com Jesus, Zaqueu apreende uma nova dimens\u00e3o da vida. Ele n\u00e3o se isola nem contemporiza com atitudes ego\u00edstas. Abre-se aos outros, considerados na sua dignidade. Rev\u00ea comportamentos incorrectos. N\u00e3o se fica pelo cumprimento da lei. Os outros s\u00e3o pessoas como ele. Reconhece os direitos do pobre e quer respeit\u00e1-los. <\/p>\n<p>Este reconhecimento \u00e9 fundamental para a seguran\u00e7a do nosso crescimento pessoal e para a humanidade da nossa conviv\u00eancia. Sem ele, somos sempre estranhos uns aos outros e tendemos para a inevit\u00e1vel desconsidera\u00e7\u00e3o das capacidades alheias. O reconhecimento \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o valorativa da nossa comum humanidade e da urg\u00eancia de implementar atitudes pessoais, regras sociais e medidas legislativas adequadas. <\/p>\n<p>O portal de Zaqueu faz convergir toda a narrativa para a fun\u00e7\u00e3o dos bens: o modo como s\u00e3o adquiridos, administrados e consumidos; a rede de distribui\u00e7\u00e3o e de comercializa\u00e7\u00e3o; os pre\u00e7os e as margens de lucro; enfim, a economia \u201cpura e dura\u201d. Sem bens suficientes, n\u00e3o h\u00e1 possibilidades de atender \u00e0s necessidades humanas fundamentais de todos e de cada um. Sem produ\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pode haver distribui\u00e7\u00e3o. Sem trabalho para todos, n\u00e3o \u00e9 leg\u00edtimo acumular empregos. A partilha, antes de ser uma forma de escoar as sobras, tem de proporcionar o acesso pelo emprego ao \u201cbanco do trabalho\u201d, \u00e0s actividades socialmente \u00fateis, \u00e0s iniciativas de que necessita todo o ser humano e o realizam, embora n\u00e3o sejam remuneradas. Esta vis\u00e3o evang\u00e9lica, apenas esbo\u00e7ada, constitui uma aut\u00eantica novidade na \u00e1rea econ\u00f3mica e pode contribuir imenso para humanizar as rela\u00e7\u00f5es comerciais hegem\u00f3nicas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cena ocorre em Jeric\u00f3, cidade relativamente rica e pr\u00f3xima de Jerusal\u00e9m. Jesus com o seu grupo est\u00e1 de passagem. O coment\u00e1rio corre veloz, dando origem a um certo alvoro\u00e7o popular. A curiosidade apodera-se dos habitantes. Querem ver o acontecimento. 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