{"id":10935,"date":"2007-11-14T14:42:00","date_gmt":"2007-11-14T14:42:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=10935"},"modified":"2007-11-14T14:42:00","modified_gmt":"2007-11-14T14:42:00","slug":"porque-me-fizeste-olhar-para-tras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/porque-me-fizeste-olhar-para-tras\/","title":{"rendered":"Porque me fizeste olhar para tr\u00e1s"},"content":{"rendered":"<p>3 casos, 3 adolescentes, 3 fam\u00edlias incomodaram-me nos \u00faltimos tempos. N\u00e3o s\u00e3o casos medi\u00e1ticos, mas podiam-no ser. Quando mediatizados pela televis\u00e3o, internet e jornais, sensibilizam-nos. Mas, a certa altura, de t\u00e3o falados e comentados, entram na esfera do improv\u00e1vel e criamos uma capa de insensibilidade quando ouvimos falar deles. Depois, h\u00e1 os casos com que nos cruzamos no nosso dia-a-dia, que nos relembram que s\u00e3o pessoas, fam\u00edlias que sofrem e que vivem a esperan\u00e7a do reencontro ou da reconcilia\u00e7\u00e3o. De uma vida nova.<\/p>\n<p>3 casos. O primeiro parou-me, na rua. Com quase 14 anos, cara trist\u00edssima, mexia freneticamente no telem\u00f3vel. Uma irm\u00e3 de tr\u00eas anos, que n\u00e3o conhece, vai entrar na sua casa, fugida a maus-tratos. O segundo passou por mim, de fugida. Com quase 13 anos, gritos estridentes, corria freneticamente entre as carteiras de uma sala de aula. O pai quer por for\u00e7a o conv\u00edvio filial, que rejeitou em mais de metade da vida daquele que gerou. O terceiro procurou-me, discretamente. Com quase 12 anos, olhos grandes marejados de azul, l\u00edmpidos e inocentes. O abandono materno causa-lhe enorme sofrimento, escondido atr\u00e1s de problemas financeiros que confessa a toda a hora. <\/p>\n<p>3 casos que confirmam a for\u00e7a da fam\u00edlia e a dificuldade parental na organiza\u00e7\u00e3o quotidiana. Nenhum destes casos parece improv\u00e1vel; infelizmente conhecemos muitos, at\u00e9 bem mais graves. O absurdo pode ler-se no facto de estas pessoas de 11, 12 e 13 anos terem de suportar problemas de adultos, numa idade em que come\u00e7am os problemas da adolesc\u00eancia. Por que n\u00e3o \u00e9 poupada aquela crian\u00e7a de 11 anos \u00e0s dificuldades financeiras do seu agregado familiar? Provavelmente at\u00e9 se considera positivo que o filho partilhe das preocupa\u00e7\u00f5es dos pais. \u00c9 verdade, mas sempre dentro de uma certa razoabilidade, atendendo \u00e0 sua idade e crescimento. E n\u00e3o se obriga a gostar de algu\u00e9m, como aquele que quer for\u00e7ar o filho a gostar dele, ou que justifica o abandono parental como uma fase do crescimento do adulto. <\/p>\n<p>3 casos multiplicados por milhares. Na maior parte das vezes, s\u00e3o as Escolas que d\u00e3o o alerta, e que orientam as fam\u00edlias para resolver as situa\u00e7\u00f5es. Porque \u00e9 na Escola que as crian\u00e7as encontram quem as ouve. <\/p>\n<p>Fui injusta, quando te respondi que a minha semana tinha corrido normalmente, sem nada a assinalar. Tu, t\u00e3o entusiasmado com a tua, e eu n\u00e3o valorizei a minha! Sim, afinal tamb\u00e9m a minha semana tinha \u201ccorrido muito bem\u201d. \u201cS\u00f3\u201d me fizeste ficar contente por ti, esquecida que tamb\u00e9m eu tinha motivos para estar \u201cmuito bem\u201d. Esqueci-me de fazer a revis\u00e3o do dia. Era j\u00e1 tarde para to dizer: era estranho telefonar-te \u00e0quela hora, depois de ter falado contigo e te ter dito que n\u00e3o havia \u201cnada a assinalar\u201d. <\/p>\n<p>Obrigada! Obrigada, por me fazeres olhar para tr\u00e1s e responder \u201cBom dia!\u201d \u00e0quele rapaz que, de tanto nos cruzarmos, passou a cumprimentar-me. Obrigada, por me fazeres olhar para tr\u00e1s e parar, para ouvir quem est\u00e1 incomodado com situa\u00e7\u00f5es de injusti\u00e7a laboral. Obrigada, por me fazeres relembrar as aulas que correram \u201cmuito bem\u201d, porque os alunos gostam de aprender. Obrigada, por me fazeres reapreciar os cartazes publicit\u00e1rios dos alunos para divulgar o \u201cAno Europeu da Igualdade de Oportunidades para Todos\u201d \u2013 Que fariam inveja a qualquer publicit\u00e1rio! Obrigada, por me fazeres rever a presen\u00e7a das fam\u00edlias, naquele grupo de meninos na escola a comer o seu p\u00e3ozinho, a meio da manh\u00e3. Obrigada, por me fazeres dar por bem empregue o tempo em que preparei a catequese. Obrigada, por me fazeres olhar para tr\u00e1s e alegrar-me com a presen\u00e7a da minha fam\u00edlia naquela tarde de Domingo. <\/p>\n<p>Obrigada, porque me fizeste olhar para tr\u00e1s e por me lembrares que devo fazer a revis\u00e3o do meu dia, e encontrar motivos de gratid\u00e3o nas pequenas coisas que me acontecem. Obrigada! <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>3 casos, 3 adolescentes, 3 fam\u00edlias incomodaram-me nos \u00faltimos tempos. N\u00e3o s\u00e3o casos medi\u00e1ticos, mas podiam-no ser. Quando mediatizados pela televis\u00e3o, internet e jornais, sensibilizam-nos. Mas, a certa altura, de t\u00e3o falados e comentados, entram na esfera do improv\u00e1vel e criamos uma capa de insensibilidade quando ouvimos falar deles. 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