{"id":10937,"date":"2007-11-14T14:48:00","date_gmt":"2007-11-14T14:48:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=10937"},"modified":"2007-11-14T14:48:00","modified_gmt":"2007-11-14T14:48:00","slug":"que-saber-deveremos-cultivar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/que-saber-deveremos-cultivar\/","title":{"rendered":"Que saber deveremos cultivar?"},"content":{"rendered":"<p>A prop\u00f3sito do Dia Internacional da Ci\u00eancia e da Cultura e Dia Mundial da Filosofia <!--more--> \u00abA ci\u00eancia sem a religi\u00e3o \u00e9 coxa, a religi\u00e3o sem a ci\u00eancia \u00e9 cega.\u00bb<\/p>\n<p>Albert Einstein \u2013 Como vejo a ci\u00eancia, a religi\u00e3o e o mundo.<\/p>\n<p>\u00abA F\u00e9 e a Raz\u00e3o constituem como que as duas asas pelas quais o esp\u00edrito humano se eleva \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o da verdade.\u00bb <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Paulo II \u2013 Fides et Ratio<\/p>\n<p>A comemora\u00e7\u00e3o do Dia Internacional da Ci\u00eancia e Cultura (11 de Novembro) e do Dia Mundial da Filosofia (15 de Novembro) \u00e9 uma oportunidade extraordin\u00e1ria para se reflectir sobre o lugar e significado de Ci\u00eancia e Cultura. <\/p>\n<p>Vejamos o sentido que a raiz hist\u00f3rica de ambas as palavras nos reserva.<\/p>\n<p>Na sua etimologia, isto \u00e9, olhando para a hist\u00f3ria das palavras, ci\u00eancia \u00e9, antes de mais, referida \u00e0 condi\u00e7\u00e3o daquele que \u00absabe, conhece\u00bb, do latim \u201cscio\u201d, num sentido que abrange toda a busca de compreens\u00e3o do mundo e do que somos, antes de se referir \u00e0 sua modifica\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o. Este segundo sentido, instrumental, transformador, \u00e9 uma deriva\u00e7\u00e3o que come\u00e7a a surgir a partir do s\u00e9culo XVI, altura em que o homem renascentista n\u00e3o se basta em compreender, saber o que \u00e9 o mundo, mas procura saber para modificar. \u00c9 o que muitos designam como o esp\u00edrito da \u00abraz\u00e3o instru-mental\u00bb, isto \u00e9, a atitude do homem que procura conhecer para instrumentalizar e transformar. <\/p>\n<p>Pois bem, tal vis\u00e3o conduziu a uma quase identifica\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e tecnologia que n\u00e3o \u00e9 origin\u00e1ria, nem historicamente, nem quanto \u00e0 natureza da mesma ci\u00eancia. Ainda que, hoje, se encontre muito difundida tal ideia \u2013 da referida identidade entre ci\u00eancia e tecnologia \u2013 importa continuar a perceber que ambas n\u00e3o deveriam fundir-se, uma vez que desta fus\u00e3o resultam consequ\u00eancias que teremos de compreender. Na verdade, a ci\u00eancia foi, \u00e9 e sempre dever\u00e1 ser uma busca da verdade, n\u00e3o devendo visar a modifica\u00e7\u00e3o, manipula\u00e7\u00e3o e instrumentaliza\u00e7\u00e3o do mundo. Ao reduzir-se a esta condi\u00e7\u00e3o, a ci\u00eancia perde e o pr\u00f3prio homem sofre. A ci\u00eancia perde porque \u00e9, por natureza, uma busca de ir mais al\u00e9m, precisando de n\u00e3o depender de resultados mensur\u00e1veis para progredir. A redu\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia \u00e0 mensurabilidade, \u00e0 verifica\u00e7\u00e3o, afunilou o saber humano \u00e0quilo que podemos constatar e contabilizar. Pois bem, o mundo e a realidade humana s\u00e3o muito mais do que o pode ser medido e pesado. Ali\u00e1s, as realidades mais significativas s\u00e3o, normalmente, avessas a esta mensurabilidade. Pense-se no que seria \u00abpesar o amor\u00bb\u2026 Reduzindo a ci\u00eancia \u00e0 sua efic\u00e1cia tecnol\u00f3gica redundaria num tremendo preju\u00edzo para o pr\u00f3prio homem\u2026 Ora, esta redu\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia \u00e0 tecnologia, \u00e0 produ\u00e7\u00e3o, ao verific\u00e1vel, atingiu o seu auge numa corrente do s\u00e9culo XIX \u2013 o positivismo \u2013 que pretendeu que todo o conhecimento verdadeiro se reduzisse ao que se pode verificar e medir. Fora desta condi\u00e7\u00e3o de verifica\u00e7\u00e3o e mensurabilidade, s\u00f3 havia erro, ignor\u00e2ncia e obscurantismo. <\/p>\n<p>Felizmente, tal vis\u00e3o foi sendo ultrapassada, logo a partir do interior dos positivistas, que se viram em becos sem sa\u00edda, pois a sua presun\u00e7\u00e3o impedia-os de dizerem o que quer que fosse que n\u00e3o se submetesse a tal crit\u00e9rio. <\/p>\n<p>Foi esta uma das principais causas para que, no decurso do s\u00e9culo XIX e XX, muitos cientistas, dependentes de tal compreens\u00e3o, considerassem que o mundo do religioso estivesse exclu\u00eddo do mundo da ci\u00eancia. Bem certo que, tamb\u00e9m da parte do mundo religioso, houve comportamentos e abordagens que favoreceram que se chegasse a tal conclus\u00e3o, mas a hist\u00f3ria confirmou que entre ci\u00eancia e religi\u00e3o n\u00e3o deveria haver conflito, antes enriquecedora complementaridade, na medida em que se constatou que a ci\u00eancia precisava de regressar \u00e0 sua liberdade do tecnologizante, sempre na busca da verdade, procurando decifrar \u201ccomo\u201d se processam os fen\u00f3menos naturais, e que a religi\u00e3o deveria continuar a responder \u00e0 insaci\u00e1vel quest\u00e3o do \u201cporqu\u00ea\u201d e \u201cpara qu\u00ea\u201d do homem e do mundo, quest\u00f5es a que a ci\u00eancia, por si mesma, n\u00e3o est\u00e1 capaz de responder.<\/p>\n<p>Ora, regressando \u00e0 nossa tentativa inicial de compreender os termos da comemora\u00e7\u00e3o \u2013 ci\u00eancia e cultura \u2013 interessa perceber que, ao falarmos da ci\u00eancia e da busca do sentido, estamos, efectivamente, no \u00e2mago daquilo que, talvez sem nos apercebermos, designamos com o termo cultura. Na sua etimologia, esta palavra \u00e9 um partic\u00edpio futuro do verbo latino \u00abColo, is, ere\u00bb, que quer dizer \u00abcultivar, cuidar, ocupar-se de\u00bb. Atendendo a este sentido \u00edntimo da palavra de que tanto nos socorremos, ao falar de cultura estamos a referir-nos ao futuro do que hoje cultivamos, ou, ainda, \u00e0quilo de que nos ocuparemos no devir. A Cultura refere-se, assim, \u00e0 perman\u00eancia futura daquilo que, j\u00e1 hoje, estamos a construir, o que contraria uma ideia passadista do termo, como se se tratasse de uma mera preserva\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria. Muito mais do que isso, a cultura refere-se ao arco do tempo que se projecta no horizonte vindouro, o que, no estreito espa\u00e7o deste texto, se une ao que anteriormente diz\u00edamos, ao falar de ci\u00eancia, pois esse horizonte sempre aberto \u00e9, para o saber humano, a verdade, hoje t\u00e3o subsumida num relativismo que a pretende considerar como extinta, mas que aqui queremos vincar como condi\u00e7\u00e3o de possibilidade quer da ci\u00eancia, quer da cultura, como perman\u00eancia diante da efemeridade do hoje.<\/p>\n<p>Terminemos com uma \u00faltima constata\u00e7\u00e3o: cultura e culto s\u00e3o os dois p\u00e9s do arco do tempo, observado a partir do hoje, como muito bem se pode constatar da an\u00e1lise das duas palavras. Ambas s\u00e3o partic\u00edpios do verbo \u00abcolo\u00bb, a que acima nos refer\u00edamos: \u00abculto\u00bb \u00e9 partic\u00edpio passado, \u00abcultura\u00bb partic\u00edpio futuro. S\u00f3 o cultivado, o que foi cuidado, pode colher-se no futuro. Culto (religi\u00e3o) e cultura (expressa, de forma particular, na busca de compreens\u00e3o do mundo, a que chamamos ci\u00eancia) n\u00e3o podem andar de costas voltadas, sob pena de se provocar uma cis\u00e3o no tempo e no interior do pr\u00f3prio homem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A prop\u00f3sito do Dia Internacional da Ci\u00eancia e da Cultura e Dia Mundial da Filosofia<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[61],"tags":[],"class_list":["post-10937","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-actualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10937","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10937"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10937\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10937"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10937"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10937"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}