{"id":11242,"date":"2009-01-14T16:25:00","date_gmt":"2009-01-14T16:25:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=11242"},"modified":"2009-01-14T16:25:00","modified_gmt":"2009-01-14T16:25:00","slug":"a-crise-e-a-etica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-crise-e-a-etica\/","title":{"rendered":"A crise e a \u00e9tica"},"content":{"rendered":"<p>Porque o tempo \u00e9 ininterrupto e um novo ano \u00e9 uma conven\u00e7\u00e3o de calend\u00e1rio, cheg\u00e1mos a 2009 com a heran\u00e7a de 2008 e a palavra crise cansativamente omnipresente. <\/p>\n<p>Diz a sabedoria chinesa que crise significa perigo, mas tamb\u00e9m oportunidade. \u00c9 por isso que 2008 ter\u00e1 sido um tempo com coisas para esquecer, mas n\u00e3o um ano para esquecer. Pelo contr\u00e1rio, devemos tirar li\u00e7\u00f5es para o futuro.<\/p>\n<p>A crise pode ser explicada por muitas raz\u00f5es a que chamaria param\u00e9tricas, desde as taxas de juro, ao n\u00edvel de cr\u00e9dito ou de endividamento ou de outras vari\u00e1veis da macro e da micro economia. Tudo isto \u00e9 verdade, mas a primeira e decisiva causa da crise reside na vertente comportamental resultante de uma forte eros\u00e3o \u00e9tica. Vivemos um tempo em que emergiram escancaradamente as consequ\u00eancias de um mundo em que a fronteira entre o bem e o mal se dilui numa esp\u00e9cie de uma porosa \u201cpedra-pomes\u201d axiol\u00f3gica. <\/p>\n<p>Conhecem-se, agora, urbi et orbi situa\u00e7\u00f5es indesej\u00e1veis e queda de falsos \u00edcones resultantes da deficiente conjuga\u00e7\u00e3o entre direitos e deveres, do enfraquecimento do sentido de responsabilidade e da incapacidade de os poderes p\u00fablicos res-ponderem em plenitude \u00e0s exig\u00eancias da \u201chipoteca social\u201d que impende sobre todo e qualquer bem econ\u00f3mico ou social.<\/p>\n<p>Em 2008 percebeu-se, de um modo flagrante, que nunca se deve confundir a ideia da \u00e9tica com a ideia da moralidade. \u00c9tica \u00e9 cada um confrontar-se com o seu dever. Moralidade \u00e9 cada um ocupar-se com o dever dos outros. Muitos pregam a dita moralidade (para os outros) e esquecem o exemplo e a autenticidade dos valores quando se trata de praticarem o que aos outros exigem. Por palavras diferentes: n\u00e3o basta uma \u00e9tica da terceira pessoa, \u00e9 imprescind\u00edvel uma \u00e9tica da primeira pessoa.<\/p>\n<p>Ficou tamb\u00e9m provado com esta crise global que n\u00e3o bastam as leis se a ac\u00e7\u00e3o das pessoas n\u00e3o radicar em princ\u00edpios \u00e9ticos s\u00f3lidos. \u00c9 que nenhuma lei pro\u00edbe o ego\u00edsmo, a gan\u00e2ncia, a mentira, o desprezo, o \u00f3dio, a malvadez, como infelizmente se constata. 2008 mostra tamb\u00e9m os custos humanos e sociais de se olhar para as pessoas como meios ou instrumentos e n\u00e3o como fins, e de se terem rompido os limites da prud\u00eancia e do risco.<\/p>\n<p>Ainda a n\u00edvel de um mundo em que se globaliza mais facilmente o mal do que o bem, em 2008 tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser esquecida a diverg\u00eancia crescente entre o que se proclama e o que depois se faz ou acontece. Por exemplo, fala-se at\u00e9 \u00e0 exaust\u00e3o de coes\u00e3o social, mas assiste-se a despudoradas desigualdades e a uma l\u00f3gica de fragmenta\u00e7\u00e3o social. Discursa-se pelos pobres, mas vem-se subsidiando ou apoiando quem n\u00e3o precisa. Elogia-se a solidariedade, mas cai-se na tenta\u00e7\u00e3o de premiar o ego\u00edsmo. Fala-se sem limites da educa\u00e7\u00e3o dos direitos mas esboroa-se a aprendizagem c\u00edvica dos deveres, a educa\u00e7\u00e3o do car\u00e1cter e a cultura da responsabilidade. Esfuma-se a respeitabilidade pelo esfor\u00e7o, sabedoria e experi\u00eancia, mas acentua-se o pr\u00e9mio da esperteza e do arrivismo.<\/p>\n<p>Bento XVI chamou a aten\u00e7\u00e3o na sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz &#8211; significativamente intitulada \u201cCombater a pobreza, construir a paz\u201d &#8211; para a ambival\u00eancia e o car\u00e1cter n\u00e3o necessariamente determinista da globaliza\u00e7\u00e3o. Refere que se \u00e9 certo que esta vem produzindo benef\u00edcios \u00e0 escala mundial (embora nem sempre equitativamente repartidos), tamb\u00e9m gera novos fen\u00f3menos de risco e depend\u00eancia e situa\u00e7\u00f5es de pervers\u00e3o atrav\u00e9s de uma prefer\u00eancia por \u201cl\u00f3gicas de brev\u00edssimo prazo desprovidas de considera\u00e7\u00e3o pelo bem comum a longo prazo\u201d. <\/p>\n<p>A crise oficialmente declarada em 2008 deveria tamb\u00e9m servir para sentenciar os para\u00edsos fiscais a uma definitiva condena\u00e7\u00e3o. Com eles a corrup\u00e7\u00e3o medrou e o terrorismo, a droga e o armamento progrediram. Os para\u00edsos fiscais s\u00e3o a vergonha despudorada de que o crime compensa, a esperteza vence, o golpe rende. No entanto, a comunidade internacional e a diplomacia hip\u00f3crita fingem fechar o postigo e deixam escancarada a porta. <\/p>\n<p>Em s\u00edntese, d\u00eaem-se as voltas que se derem, n\u00e3o h\u00e1 \u201csolu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas\u201d para \u201cd\u00e9fices \u00e9ticos\u201d. Sob pena de recidivas cada vez mais dolorosas\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Porque o tempo \u00e9 ininterrupto e um novo ano \u00e9 uma conven\u00e7\u00e3o de calend\u00e1rio, cheg\u00e1mos a 2009 com a heran\u00e7a de 2008 e a palavra crise cansativamente omnipresente. Diz a sabedoria chinesa que crise significa perigo, mas tamb\u00e9m oportunidade. \u00c9 por isso que 2008 ter\u00e1 sido um tempo com coisas para esquecer, mas n\u00e3o um [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[62],"tags":[],"class_list":["post-11242","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11242","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11242"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11242\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11242"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11242"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11242"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}