{"id":11325,"date":"2008-01-09T16:54:00","date_gmt":"2008-01-09T16:54:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=11325"},"modified":"2008-01-09T16:54:00","modified_gmt":"2008-01-09T16:54:00","slug":"olimpio-ferreira-1967-2007","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/olimpio-ferreira-1967-2007\/","title":{"rendered":"Ol\u00edmpio Ferreira, 1967-2007"},"content":{"rendered":"<p>MIGUEL MARUJO<\/p>\n<p>Jornalista. Editor Executivo Adjunto do 24 Horas<\/p>\n<p>Morreu o Ol\u00edmpio. Desculpem a not\u00edcia crua, seca. Foi assim que a recebemos, \u00e9 sempre assim que a sentimos. Um murro no est\u00f4mago. N\u00e3o a soube dar de outra maneira aos amigos, n\u00e3o a consigo partilhar de outro modo convosco, aqui nas p\u00e1ginas do jornal da diocese que o viu nascer e crescer. <\/p>\n<p>H\u00e1 uns vinte e poucos anos, o mi\u00fado franzino, de \u00c1gueda, come\u00e7ou a aparecer pelo Secretariado da Juventude, no seu centro permanente, levado pela m\u00e3e Ad\u00e9lia. De quem com ele conviveu ent\u00e3o sobram mem\u00f3rias difusas, mas j\u00e1 l\u00e1 estava o sorriso do tamanho do mundo, o humor e a timidez. <\/p>\n<p>Hoje, muitos anos depois, o Ol\u00edmpio paginava livros e revistas (ou o convite de casamento mais bonito do mundo, tamb\u00e9m por causa dele, desculpem-me a imod\u00e9stia), o homem da sombra que assinava em letras pequeninas arrumadas por ele nas fichas t\u00e9cnicas \u2013 que, porventura, nunca lemos \u2013 de livros e revistas em que punha tanto cuidado. Este cuidado foi o mesmo que descobrimos, anos antes, no Movimento Cat\u00f3lico de Estudantes (MCE). E tamb\u00e9m na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde se candidatou aos \u00f3rg\u00e3os de gest\u00e3o, numa lista que fez da irrever\u00eancia a sua marca. Era tamb\u00e9m a dele. Irreverente, inconformado, sempre curioso \u2013 a f\u00e9 constr\u00f3i-se na d\u00favida, ele vivia-a assim.<\/p>\n<p>No MCE, primeiro em Coimbra, depois em Lisboa, j\u00e1 na Equipa Nacional, o Ol\u00edmpio tratou de nos ensinar \u2013 olhar as coisas de modo diferente, p\u00f4r solenidade e risco nos gestos pequenos dos dias e dos trabalhos. Ou como disse o padre Tolentino Mendon\u00e7a, na sua missa (lembrado pelo encenador Jorge Silva Melo, num texto no \u201cP\u00fablico\u201d, 4\/01\/08), \u201cn\u00e3o seremos jamais \u00f3rf\u00e3os, sempre seremos herdeiros\u201d. \u00c9 assim que olho para um percurso pessoal e afectivo que se cruza com a nossa caminhada em movimento, no MCE, na Igreja, ou fora destes, na vida comum que fomos partilhando, nos livros e discos e filmes que descobrimos a dois, ou que ele \u2013 tantas vezes, descubro agora \u2013 me deu a ler, ouvir ou ver. Tinha um entusiasmo juvenil delicioso a falar de um poema lido, de uma cena vivida ou de um som escutado, e dizia-nos desse entusiasmo. Era imposs\u00edvel ficarmos indiferentes. As noites longas de leitura de livros, maliciosos e deliciosos, ou de audi\u00e7\u00e3o de discos quase clandestinos (h\u00e1 uma gera\u00e7\u00e3o do MCE que lhe deve o \u201cFMI\u201d de Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco, trauteado como senha).<\/p>\n<p>O Ol\u00edmpio, disse Tolentino Mendon\u00e7a, \u201cencontrava o justo espa\u00e7o para a palavra na p\u00e1gina\u201d. Assim foi a sua vida, mal contada por mim. Faltam-me as palavras certas para o espa\u00e7o justo. O amigo que vi partir abruptamente no dia 30 de Dezembro deixou-nos uma mem\u00f3ria maior que a morte \u2013 uma mem\u00f3ria como projecto. Ele pegou nesta simples express\u00e3o (do Edgar, se bem lembro, outro \u201ccompagnon de route\u201d) e deu-lhe um significado, com a sua vida. No MCE, nas coisas que vivemos, nas viagens pelo pa\u00eds a contactar com os militantes, ele pedia que viv\u00eassemos tamb\u00e9m essa mem\u00f3ria: a sua exig\u00eancia em desenhar com esmero um simples folheto de um encontro diocesano ou nacional; as suas anedotas (\u201co melhor contador do mundo\u201d, insistiam os amigos por estes dias) para resgatarem momentos duros de debate.<\/p>\n<p>Depois seguiu caminho \u2013 sempre atento \u00e0s coisas da pol\u00edtica, das artes, das letras, que \u00e9 outra forma de estar atento \u00e0 Cidade, que \u00e9 outra forma de expressar as suas d\u00favidas, a nossa f\u00e9. Enamorou-se da Mariana, encantou-se com os dois filhos, o Miguel e o Andr\u00e9. N\u00f3s, os amigos, ficamos com a mem\u00f3ria das suas palavras. A mim faltam as palavras para dizer adeus. Sem nunca dizer adeus.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MIGUEL MARUJO Jornalista. Editor Executivo Adjunto do 24 Horas Morreu o Ol\u00edmpio. 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