{"id":11416,"date":"2008-01-23T15:42:00","date_gmt":"2008-01-23T15:42:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/wp1\/?p=11416"},"modified":"2008-01-23T15:42:00","modified_gmt":"2008-01-23T15:42:00","slug":"a-maioria-dos-centros-sociais-corresponde-a-um-activismo-que-so-desgasta-a-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sites.ecclesia.pt\/cv\/a-maioria-dos-centros-sociais-corresponde-a-um-activismo-que-so-desgasta-a-igreja\/","title":{"rendered":"&#8220;A maioria dos centros sociais corresponde a um activismo que s\u00f3 desgasta a Igreja&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>D. Carlos de Azevedo defende que as obras sociais da Igreja t\u00eam de ser repensadas com ousadia. Surgiram numa \u00e9poca \u201cem que n\u00e3o havia nada, mas agora acabam por ser uma super-estrutura que desgasta o clero, desgasta os padres e n\u00e3o tem uma qualidade de interven\u00e7\u00e3o que o justifique\u201d, afirma.<\/p>\n<p>O Bispo auxiliar de Lisboa e porta-voz da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa conversou com o Correio do Vouga, antes de reflectir com os padres e di\u00e1conos de Aveiro sobre \u201cTradi\u00e7\u00e3o e inova\u00e7\u00e3o no agir social da Igreja\u201d (not\u00edcia na p\u00e1g. 6).<\/p>\n<p>Correio do Vouga &#8211; Podemos saber o que vai dizer [na tarde de 16 de Janeiro] aos padres e di\u00e1conos da Diocese de Aveiro?<\/p>\n<p>D. Carlos de Azevedo &#8211; Vou lan\u00e7ar alguns desafios, a partir de algumas figuras que tiveram a capacidade de inventar para a sua \u00e9poca um modo de responder \u00e0 evangeliza\u00e7\u00e3o e ao mesmo tempo \u00e0 pobreza e \u00e0s quest\u00f5es sociais. Vou dizer que \u00e9 poss\u00edvel termos a ousadia para tamb\u00e9m nesta \u00e9poca intervir-mos na realidade.<\/p>\n<p>Quais s\u00e3o esses desafios?<\/p>\n<p>O primeiro \u00e9, exactamente, intervir. N\u00e3o intervir \u00e9 pecado. Perante as quest\u00f5es sociais e a pobreza que as comunidades paroquiais e as dioceses enfrentam \u2013 e elas v\u00e3o piorar nos pr\u00f3ximos tempos \u2013, temos que intervir. Agora, a nossa interven\u00e7\u00e3o deve situar-se a partir de uma m\u00edstica. N\u00e3o \u00e9 uma interven\u00e7\u00e3o qualquer. \u00c9 uma interven\u00e7\u00e3o que tem uma radicalidade, fruto de uma experi\u00eancia de f\u00e9. \u00c9 essa a novidade e especificidade do nosso tipo de interven\u00e7\u00e3o. Outro elemento \u00e9 que a nossa interven\u00e7\u00e3o social deve ser ajudar as pessoas a partir de dentro. Esse \u00e9 tamb\u00e9m o modo de Jesus actuar e intervir para mudar a sociedade.<\/p>\n<p>\u201cA partir de dentro\u201d o que quer dizer?<\/p>\n<p>Quer dizer isto: se vamos ajudar uma pessoa que tem um limite ou que vive numa situa\u00e7\u00e3o de pobreza, podemos resolver o problema dando-lhe uma esmola. Mas isso n\u00e3o resolve nada. N\u00e3o passa de uma solu\u00e7\u00e3o moment\u00e2nea. Temos que ajudar a pessoa a, ela pr\u00f3pria, encontrar mecanismos de autonomia, solu\u00e7\u00f5es para si pr\u00f3pria. E esse \u00e9 o modo de Jesus actuar. Jesus implicava as pessoas nas solu\u00e7\u00f5es para a sua pr\u00f3pria vida. Isso \u00e9 muito mais exigente e faz quase desesperar ante algumas situa\u00e7\u00f5es, mas deve ser a nossa pedagogia. O futuro exige que ajudemos as pessoas a partir de dentro, para depois elas encontrarem solu\u00e7\u00f5es para as suas quest\u00f5es sociais, profissionais, de inser\u00e7\u00e3o na comunidade.<\/p>\n<p>Referiu modelos que souberam assumir novas pr\u00e1ticas de caridade. Quais s\u00e3o?<\/p>\n<p>Vou pegar em cinco modelos, come\u00e7ando por S\u00e3o Martinho de Tours, que \u00e9 o primeiro santo n\u00e3o m\u00e1rtir e que ficou c\u00e9lebre pelo gesto de rasgar a capa para dar ao pobre. Foi algu\u00e9m que conciliou perfeitamente a evangeliza\u00e7\u00e3o com a ac\u00e7\u00e3o social. Foi um pastor que evangelizou os campos, que na altura eram pag\u00e3os, no s\u00e9c. IV-V. Soube n\u00e3o s\u00f3 encontrar p\u00e3o da Palavra que matasse a fome, no sentido espiritual, como tamb\u00e9m ajudar as pessoas que viviam mal a encontrar solu\u00e7\u00f5es para viverem de outro modo.<\/p>\n<p>S. Francisco de Assis \u00e9 outro modo, outro jeito, outra inven\u00e7\u00e3o para solucionar problemas noutra \u00e9poca, na mudan\u00e7a do campo para a cidade, quando aparece o fen\u00f3meno urbano. Ele \u00e9 capaz de responder com novidade do ponto de vista espiritual \u00e0 burguesia e \u00e0s cidades.<\/p>\n<p>S. Vicente de Paulo, numa \u00e9poca de crise e carestia que foi o s\u00e9c. XVII e nos campos de Fran\u00e7a que estavam por evangelizar, concilia a evangeliza\u00e7\u00e3o com a organiza\u00e7\u00e3o de formas que atendessem \u00e0 realidade social.<\/p>\n<p>Finalmente, Madre Teresa de Calcut\u00e1, que, j\u00e1 no nosso tempo, consegue aliar a m\u00edstica, uma grande espiritualidade e uma presen\u00e7a forte junto dos pobres. <\/p>\n<p>Falta um modelo&#8230;<\/p>\n<p>S. Bas\u00edlio Magno, o segundo destes que referi em termos temporais. Foi um grande Padre da Igreja, capaz de atender \u00e0 realidade da doen\u00e7a. Criou a \u201cbas\u00edlide\u201d, que era uma cidade hospitalar com diferentes blocos para as v\u00e1rias doen\u00e7as \u2013 uma antevis\u00e3o do que ser\u00e3o os grandes hospitais. Era um homem de teologia, um homem da reflex\u00e3o. Criou uma regra de vida espiritual e atendeu \u00e0 realidade social. Fez esta ponte t\u00e3o necess\u00e1ria hoje entre a espiritualidade muito forte e a interven\u00e7\u00e3o social. Quem faz isso \u00e9 capaz de perceber que \u00e9 preciso partir de dentro e \u00e9 capaz de ter ousadia nas interven\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ousadia como?<\/p>\n<p>A maioria dos centros sociais que n\u00f3s temos acaba por corresponder a um activismo social da Igreja, que s\u00f3 a desgasta e n\u00e3o a faz fiel \u00e0 sua miss\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 uma cr\u00edtica forte aos centros sociais&#8230;<\/p>\n<p>Eles organizaram-se numa \u00e9poca em que n\u00e3o havia nada, mas agora acabam por ser uma super-estrutura que desgasta o clero, que desgasta os padres, e n\u00e3o tem uma qualidade de interven\u00e7\u00e3o que o justifique. As ac\u00e7\u00f5es sociais da Igreja devem ser de grande qualidade. E, se tiverem grande qualidade, n\u00e3o precisam de viver \u00e0 custa de subs\u00eddios do Estado.<\/p>\n<p>Mas o Estado tem obriga\u00e7\u00f5es sociais&#8230;<\/p>\n<p>Certamente, mas n\u00e3o podemos ficar dependentes da oscila\u00e7\u00e3o de partidos favor\u00e1veis ou desfavor\u00e1veis, ou de certas pol\u00edticas. Temos de ter liberdade, porque a caridade nin-gu\u00e9m a pode impedir. A caridade como n\u00f3s a temos, institucionalizada, de determinado modelo, parece que fica impedida pelos tipos de pol\u00edtica reinante. Nunca foi assim e acho que \u00e9 necess\u00e1rio criar liberdade para n\u00e3o ser assim.<\/p>\n<p>Que iniciativas conhece nesta \u00e1rea que considere inovadoras em sentido genuinamente crist\u00e3o?<\/p>\n<p>H\u00e1 boas pr\u00e1ticas, por exemplo, ao n\u00edvel do ensino que procura integrar crian\u00e7as com dificuldades de ordem social, portadoras de defici\u00eancia, marginalizadas, e lhes d\u00e1 capacidade de encontrar vias para a sua pr\u00f3pria vida. O que o Pe Am\u00e9rico fez no seu tempo a n\u00edvel das crian\u00e7as da Obra da Rua, h\u00e1 hoje quem fa\u00e7a em bairros sociais, sobretudo algumas congrega\u00e7\u00f5es religiosas. H\u00e1 pequeninas experi\u00eancias muito positivas do trabalho dif\u00edcil e persistente, que envolve pais, \u00e0s vezes s\u00f3 o pai ou s\u00f3 a m\u00e3e dessas fam\u00edlias muito esquisitas que perturbam o crescimento das crian\u00e7as. Na terceira idade, h\u00e1 experi\u00eancias inovadoras em lares, incluindo o apoio ao domic\u00edlio, que \u00e9 um modo mais capaz de respeitar o s\u00edtio onde a pessoa sempre se habituou a viver. H\u00e1 experi\u00eancias verdadeiramente inovadoras que atendem \u00e0 totalidade da pessoa e n\u00e3o est\u00e3o dependentes dos subs\u00eddios ou apoios do Estado. A independ\u00eancia ser\u00e1 um caminho necess\u00e1rio no futuro, tal como a qualidade nas ac\u00e7\u00f5es sociais. Quer com gente do mundo da droga, como o Projecto Homem, em Braga, quer na quest\u00e3o dos deficientes, com o Movimento F\u00e9 e Luz, h\u00e1 um leque de experi\u00eancias que revelam ousadia e criatividade.<\/p>\n<p>Como comenta as not\u00edcias de ontem [15 de Janeiro] que dizem que o Papa cancelou a visita \u00e0 Universidade La Sapienza (ver not\u00edcia na p\u00e1g. 7)?<\/p>\n<p>Penso que isso \u00e9 um sinal dos nossos tempos na Europa, onde se acusou tantas vezes e ainda se acusa, olhando sempre para o passado, a intoler\u00e2ncia da Igreja. Vemos que essa intoler\u00e2ncia agora \u00e9 devolvida. Agora, s\u00e3o eles pr\u00f3prios intolerantes, ao n\u00e3o quererem ouvir uma palavra diferente, que certamente seria a do Papa. Que haja professores e alunos que n\u00e3o querem o Papa l\u00e1, parece-me que \u00e9 um sinal de como o ate\u00edsmo, um novo ate\u00edsmo, est\u00e1 a crescer. Ouvir profetas, dos poucos profetas que hoje o mundo tem, come\u00e7a a ser inc\u00f3modo para algumas pessoas que n\u00e3o se querem confrontar com a pluralidade.<\/p>\n<p>Antes desta nossa conversa, um padre de Aveiro, conversando consigo, sugeria que D. Carlos ia transmitir aos padres a reprimenda ou pux\u00e3o de orelhas que o Papa deu aos bispos portugueses na visita \u201cad limina\u201d&#8230; Como comenta?<\/p>\n<p>Essa express\u00e3o do \u201cpux\u00e3o de orelhas\u201d, usada por um jornalista e depois repetida, n\u00e3o tem raz\u00e3o de ser. O Papa n\u00e3o tem uma rela\u00e7\u00e3o com os bispos como um chefe pol\u00edtico. A rela\u00e7\u00e3o \u00e9 de irm\u00e3o. E, portanto, ele sentiu os nossos apelos e as nossas preocupa\u00e7\u00f5es e fez eco dessas nossas preocupa\u00e7\u00f5es. Como que devolveu no seu discurso as nossas pr\u00f3prias inquieta\u00e7\u00f5es. \u00c9 nesse sentido que deve ser tomado. N\u00e3o como um raspanete. A express\u00e3o portuguesa com que o disse pode dar algum aso a isso, mas n\u00e3o \u00e9 essa a inten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 recados a transmitir?<\/p>\n<p>O Papa assume aquilo que alguns relat\u00f3rios das dioceses diziam: que a corresponsabilidade laical \u00e9 ainda um elemento muito no discurso e pouco na pr\u00e1tica, como \u00e9 que os leigos interv\u00eam e fazem parte das decis\u00f5es da Igreja, como \u00e9 vivido o  valor da comunh\u00e3o, como \u00e9 transmitida a f\u00e9 e a necessidade de rever a inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3 (que foi uma preocupa\u00e7\u00e3o da Confer\u00eancia Episcopal ao longo dos tr\u00eas anos que terminam agora em Abril), o apelo a que a Igreja n\u00e3o se preocupe em falar de si mesma, mas antes em falar de Deus&#8230;<\/p>\n<p>Numa reuni\u00e3o que a Confer\u00eancia teve em Roma, os bispos reflectiram sobre os grandes desafios da Igreja em Portugal nos pr\u00f3prios cinco anos, na perspectiva da pr\u00f3xima visita \u201cad limina\u201d. Alguns deles foram depois ditos pelo Papa no seu discurso. N\u00e3o h\u00e1 novidade nem pux\u00e3o de orelhas. H\u00e1 uma comunh\u00e3o com as nossas aspira\u00e7\u00f5es e preocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nos pr\u00f3ximos cincos anos, quais s\u00e3o as prioridades? Foi sugerido um plano pastoral nacional. \u00c9 para avan\u00e7ar?<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel. Cada diocese tem os seus pr\u00f3prios programas e tem as suas pr\u00f3prias dificuldades e contextos. Falou-se, sim, de \u201cuma ac\u00e7\u00e3o conjunta\u201d. Est\u00e1 por definir e por organizar. Uma ac\u00e7\u00e3o conjunta que todas as dioceses possam assumir e que depois cada uma concretizar\u00e1 com as suas potencialidade e nos seus contextos. Isso n\u00e3o \u00e9 um plano pastoral. \u00c9 uma ac\u00e7\u00e3o, como houve outras ao longo dos tempos. Mas ainda n\u00e3o est\u00e1 visto o qu\u00ea e o como. Levantaram-se v\u00e1rias hip\u00f3teses. Na pr\u00f3xima assembleia dos bispos, em Abril, esperamos concretizar essas perspectivas lan\u00e7adas em Roma. Vamos debater os caminhos pastorais que se adivinham para Portugal nos pr\u00f3ximos tempos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. Carlos de Azevedo defende que as obras sociais da Igreja t\u00eam de ser repensadas com ousadia. Surgiram numa \u00e9poca \u201cem que n\u00e3o havia nada, mas agora acabam por ser uma super-estrutura que desgasta o clero, desgasta os padres e n\u00e3o tem uma qualidade de interven\u00e7\u00e3o que o justifique\u201d, afirma. 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